
O dia 30 de setembro de 2025 ficará marcado para os profissionais do Turismo. Após meses de sumiço público, Renato Kido e sua empresa ViagensPromo voltaram aos holofotes e reacendeu debates sobre o setor, o papel da imprensa e a falta de respostas concretas sobre a operadora que deixou milhares de lesados.
O M&E, cumprindo seu papel social, abriu suas portas para aqueles que nos leem e recebeu dezenas de relatos repercutindo o caso. Um deles foi da Associação Profissão Agente, que nasceu após o colapso da VP – e que nos enviou uma carta aberta que reflete os acontecimentos. Confira a carta abaixo na íntegra:
“A recente entrevista concedida (a um outro veículo do trade) por Renato Kido, fundador da ViagensPromo, reacendeu a indignação de agentes de viagens de todo o Brasil. Mais de seis meses se passaram desde que a operadora quebrou, deixando um rastro de prejuízos financeiros, operacionais e emocionais. Até hoje, não há reembolsos, não há soluções concretas e sequer se consegue localizar Kido para intimações judiciais. O que se observa é silêncio, morosidade e descaso — uma combinação que expõe a vulnerabilidade do setor e o abandono do agente de viagens frente à lei e aos órgãos fiscalizadores.
O caso ViagensPromo não se resume a números: ele revela um sistema fragilizado, no qual agentes que atuam como intermediários de confiança de clientes e fornecedores ficam desprotegidos diante de operações que envolvem milhões de reais. Muitas agências arcando com prejuízos milionários ainda precisam lidar com clientes insatisfeitos, cobranças judiciais, estresse operacional e desgaste emocional, enquanto o responsável principal permanece inacessível.
Diante dessa realidade, nasceu a *Associação Profissão Agente, criada em meio à crise para oferecer suporte às agências prejudicadas e assumir o protagonismo no debate público sobre o tema. À frente da entidade está *Fabiano Paré, presidente da Associação e sócio-proprietário da TOP Travel & Business, que participou de todas as audiências públicas realizadas até maio e de uma reunião ordinária na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), representando agentes prejudicados de forma incansável.
Paré relata que, em sua própria empresa, 88 contratos foram impactados e a maioria dos serviços não pagos, totalizando cerca de R$ 500 mil em prejuízos. “Tivemos que assumir os danos, expor clientes, cancelar boletos e solicitar chargebacks. Em alguns casos, valores altos pagos via Pix simplesmente não tiveram solução. Este é o tamanho do impacto real que enfrentamos”, afirma.
Essa é apenas a ponta do iceberg. Centenas de agências relatam situações semelhantes: contratos não honrados, fornecedores prejudicados, clientes em pânico, e agentes financeiramente fragilizados — todos abandonados em um vazio legal e institucional que ainda hoje persiste.
O ressurgimento de Renato Kido em entrevista exclusiva ao mercado do turismo *causa indignação e revolta. Suas declarações, que tentam transmitir uma narrativa de “resolução de casos” e de devolução parcial de recursos, não condizem com a experiência real de muitos agentes. Falar em R$ 51 milhões em chargebacks, alegando que 60% do prejuízo total teria sido atendido, é desconsiderar centenas de agentes que *não viram sequer um centavo e permanecem à deriva, sem qualquer cronograma ou transparência.
Kido afirma ainda que muitas agências “não repassaram dados de clientes” ou “não quiseram usar a ouvidoria”. Trata-se de um argumento inaceitável e ofensivo, que transfere a responsabilidade para as vítimas. As agências não tinham canais claros, não receberam instruções adequadas e não dispõem de estrutura para assumir o ônus de corrigir uma situação que foi causada unilateralmente pela operadora.
Outro ponto que causa perplexidade é a declaração de que “mais de 90% das ações foram vencidas pela ViagensPromo”. Muitos processos sequer saíram do papel, pois o próprio Kido não foi localizado para intimações, e decisões judiciais contraditórias negam a legitimidade das agências como credoras de seus próprios contratos. Alegar vitórias em massa, portanto, é distorcer a realidade e manipular a narrativa do mercado.
Enquanto isso, a omissão das autoridades é inaceitável. Ministério do Turismo, Embratur, Procons, Ministério Público e o próprio Judiciário mantêm-se em silêncio ou agem com lentidão extrema. Seis meses depois, não houve bloqueio de bens, não houve responsabilização e não há sinal de um plano real de ressarcimento, deixando centenas de famílias e empresas em situação de vulnerabilidade. Este abandono institucional é um convite perigoso à repetição desse tipo de calote no setor.
É evidente que a crise da ViagensPromo revelou uma falha sistêmica na proteção do agente de viagens e do consumidor final. O setor não possui mecanismos de proteção efetivos contra a quebra de operadoras, seja por seguros obrigatórios, cauções, fundos garantidores ou exigências regulatórias claras. Essa ausência coloca em risco toda a cadeia do turismo, tornando o agente de viagens um elo extremamente vulnerável.
O ressurgimento de Kido, com discurso cuidadosamente construído, é uma afronta ao setor. É inadmissível que alguém que deixou um rastro de destruição financeira e emocional tenha espaço para falar sem prestar contas às vítimas. A tentativa de transferir culpa, mascarar a realidade ou minimizar os prejuízos não será tolerada.
O que se exige agora é ação concreta:
- Publicação transparente da lista de credores e valores reconhecidos;
- Cronograma real e verificável de devolução dos recursos;
- Intervenção efetiva das autoridades competentes, incluindo bloqueio de bens e responsabilização imediata dos administradores;
- Criação de mecanismos legais que protejam agentes e consumidores em situações de falência de operadoras, evitando que episódios semelhantes se repitam.
A história da ViagensPromo ainda não terminou. Ela permanece como uma ferida aberta no turismo brasileiro, expondo o abandono do agente de viagens frente à lei e à falta de fiscalização efetiva. Não aceitaremos que discursos vazios substituam ações reais. A cobrança é clara: justiça, responsabilização e proteção concreta para todos os agentes prejudicados.”
– Fabiano, proprietário da TOP Travel & Business (RS) e presidente da Associação Profissão Agente







