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Novo sistema EES vai registrar digitalmente a entrada e saída de turistas não europeus; brasileiros também precisarão passar pelo cadastro (Freepik/gpointstudio)

A Europa começou a aposentar os carimbos nos passaportes. Desde 12 de outubro de 2025, o Sistema de Entrada e Saída (EES, na sigla em inglês) passou a ser implementado nos aeroportos e fronteiras externas do Espaço Schengen — bloco que reúne 29 países, entre eles Portugal, Espanha, França e Itália, destinos favoritos de turistas brasileiros.

A mudança marca o início da digitalização completa do controle de fronteiras europeias. O novo sistema substitui o carimbo manual por registros eletrônicos que armazenam dados pessoais e biométricos, permitindo que a União Europeia saiba com precisão quando cada visitante entrou e saiu do continente — e se ultrapassou o limite de 90 dias de permanência permitido por semestre.

O projeto faz parte da política europeia de “fronteiras inteligentes”, anunciada em 2016, e vinha sendo adiado por questões técnicas e de integração entre sistemas nacionais. A previsão original era que o EES entrasse em operação em 2022.

“O sistema permitirá um controle mais preciso, reduzirá fraudes e tornará as fronteiras externas da União Europeia mais seguras”, afirmou a comissária europeia para Assuntos Internos, Ylva Johansson, ao anunciar o início da operação.

Como o EES vai funcionar?

Na chegada à Europa, o viajante fará um cadastro digital com foto facial, impressões digitais e dados do passaporte. Essas informações serão associadas a um registro eletrônico único. Nas viagens seguintes, bastará a leitura do passaporte e o reconhecimento facial.

A coleta é obrigatória para quem ingressa no continente sem visto, como brasileiros, americanos e canadenses. Quem se recusar a fornecer os dados biométricos poderá ter a entrada negada.

O sistema registra data, hora e local de entrada e saída, permitindo o controle automático do tempo de permanência. Caso o visitante ultrapasse os 90 dias permitidos, o EES o classificará como “overstayer” — em permanência irregular — e poderá gerar multa, deportação ou proibição de reentrada.

Vantagens e objetivos

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O sistema promete tornar os controles mais rápidos e eficientes, substituindo os carimbos (Banco de imagens/EES)

Segundo a Comissão Europeia, o EES tem quatro metas principais: modernizar os controles de fronteira, agilizar o trânsito de passageiros, reforçar a segurança e combater a migração irregular. O sistema promete tornar os controles mais rápidos e eficientes, substituindo os carimbos por registros automáticos e integrados. Em alguns aeroportos, totens de autosserviço permitirão que o passageiro antecipe parte do processo antes de chegar ao guichê da imigração.

A automatização deve reduzir o tempo de espera e liberar os agentes de fronteira para casos mais complexos. Também diminuirá os custos operacionais para os países europeus. O cruzamento de dados faciais, digitais e de passaporte permitirá flagrar visitantes que tentem burlar o sistema com identidades falsas ou passaportes diferentes.

Outro objetivo é reforçar a segurança interna: as forças policiais e de fronteira terão acesso a informações mais completas sobre quem entrou e saiu do continente, o que deve facilitar investigações e prevenir crimes graves e terrorismo.

Quem será afetado?

O sistema atinge cidadãos de países de fora da União Europeia que viajam ao continente por períodos de até 90 dias. Estão incluídos turistas brasileiros, americanos, canadenses, britânicos e dezenas de outras nacionalidades atualmente isentas de visto.

Ficam fora do escopo do EES os seguintes grupos:

  • Cidadãos da União Europeia e dos países do Espaço Schengen;
  • Estrangeiros com visto de longa duração ou permissão de residência;
  • Residentes legais em países da UE com cartão de residência válido;
  • Cidadãos de Andorra, Mônaco, San Marino e Vaticano;
  • Diplomatas, chefes de Estado e membros de missões oficiais com imunidade reconhecida;
  • Militares em missão da OTAN;
  • Trabalhadores fronteiriços e membros de tripulações ferroviárias em rotas internacionais;
  • Pessoas que cruzam fronteiras em pontos locais autorizados, com permissões específicas.

Privacidade e armazenamento de dados

A União Europeia garante que o sistema cumpre integralmente o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), equivalente à LGPD brasileira. O acesso será restrito a autoridades de imigração, fronteira e segurança, e as informações serão criptografadas e auditáveis.

Os dados ficarão armazenados por três anos após a saída do viajante. Caso não haja registro de saída — ou se for detectada uma irregularidade —, o prazo sobe para cinco anos. Depois disso, as informações devem ser automaticamente apagadas.

Mesmo assim, o projeto enfrentou críticas. A Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) cobrou mais transparência sobre o uso das informações e alertou para o risco de “erros de registro e tratamento desigual” entre nacionalidades.

Atrasos, custos e risco de filas

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O EES deveria estar ativo desde 2022, mas falhas técnicas e atrasos na integração entre os países do bloco europeu (Freepik/Wavebreakmedia)

O EES deveria estar ativo desde 2022, mas falhas técnicas e atrasos na integração entre os países do bloco postergaram a implementação. A agência europeia eu-LISA, responsável pela infraestrutura digital, precisou adaptar sistemas nacionais e treinar milhares de agentes.

Os custos cresceram com os adiamentos. O Parlamento Europeu estima que a digitalização das fronteiras exigirá centenas de milhões de euros em equipamentos e software, embora os valores detalhados não sejam públicos. Autoridades também reconhecem que, nos primeiros meses, o novo sistema pode gerar filas mais longas nos aeroportos, devido à coleta de dados biométricos. A França já solicitou à Comissão Europeia um período de ajuste para evitar congestionamentos em Paris e Marselha.

Impacto para brasileiros

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Portugal, principal porta de entrada de brasileiros no continente, foi um dos primeiros países a adotar o sistema (Divulgação/Itamaraty)

O Brasil é o país fora da UE que mais envia turistas à Europa — cerca de 1,6 milhão de visitantes por ano, segundo o Eurostat. Mesmo sem necessidade de visto, os brasileiros deverão se registrar no EES a cada viagem. Autoridades europeias recomendam chegar com antecedência aos aeroportos, especialmente entre outubro de 2025 e abril de 2026, durante a fase de transição. É importante calcular corretamente os dias de permanência e usar sempre o mesmo passaporte nas entradas e saídas, para evitar inconsistências.

Portugal, principal porta de entrada de brasileiros no continente, foi um dos primeiros países a adotar o sistema.“É uma mudança que exige adaptação, mas que trará mais transparência e segurança a longo prazo”, disse a ministra portuguesa da Administração Interna, Margarida Blasco, ao anunciar a fase piloto em Lisboa.

Relação com o ETIAS

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Imagem meramente ilustrativa (Beatriz do Vale/M&E/Criada com IA)

O EES servirá de base para o Sistema Europeu de Informação e Autorização de Viagem (ETIAS), que deve começar a funcionar no fim de 2026. Enquanto o EES registra fisicamente a entrada e saída de turistas, o ETIAS funcionará como uma autorização prévia de viagem, semelhante ao sistema americano ESTA.

Brasileiros e outras nacionalidades isentas de visto terão de preencher o formulário eletrônico do ETIAS antes de embarcar para a Europa, pagando uma taxa de 7 euros.

EES causa caos em Portugal

A entrada em vigor do Sistema de Entrada e Saída (EES) na Europa, no último domingo (12), provocou longas filas em Portugal já na segunda-feira (13). No Aeroporto de Lisboa, passageiros relataram esperas superiores a quatro horas para passar pelo controle de imigração, além de falta de informações e de organização. segundo o jornal Público.

Na internet viajantes relataram confusão e dificuldades. “Cheguei de Londres às 12h40 e só passei no controle às 17h10. A fila estava saindo pelas portas e ninguém explicou nada”, disse o estudante Marcos Correia. Nas redes sociais, Jorge Silva descreveu a situação como “caos absoluto”.

Companhias aéreas alertam que o atraso pode gerar perdas financeiras e voos perdidos. Passageiros estão sendo orientados a chegar com quatro a cinco horas de antecedência para evitar contratempos.