
A aquisição da Warner Bros. Discovery promete reposicionar a Netflix muito além do streaming. Caso seja concluída, a proposta de US$ 82,7 bilhões pode se tornar o maior movimento corporativo de Hollywood em décadas, entregando à plataforma um dos acervos mais poderosos da indústria, com marcas globais como DC Studios e Harry Potter. Entre as inúmeras dúvidas que cercam a fusão, uma se destaca no setor: qual será o próximo passo da Netflix no universo dos parques temáticos?
Nos últimos anos, a gigante do streaming já vinha testando o terreno das experiências ao vivo, mas de forma tímida. A empresa apostou em espaços pequenos, como os pop-ups inspirados em Squid Game em Nova York, e nas chamadas Netflix Houses, centros permanentes com atrações baseadas em sucessos como Wednesday. Atualmente, há duas unidades operando, em King of Prussia (Filadélfia) e no Galleria Dallas, além de uma terceira prevista para Las Vegas em 2027. Apesar disso, os projetos seguem encarados como ações promocionais e experimentais, e não como uma expansão sólida para um novo braço de negócios.
A entrada da Warner Bros., porém, muda o jogo. A companhia centenária traz um conjunto robusto de propriedades intelectuais e uma presença consolidada em experiências presenciais, incluindo tours de estúdio em Burbank, Londres e Tóquio, e lojas temáticas em diferentes países. O grande trunfo, contudo, está nos parques. Ao contrário de Disney e Comcast, a Warner não mantém um complexo próprio de grande escala; sua estratégia sempre foi baseada em licenciamento para operadores externos.
É o caso do Wizarding World of Harry Potter, presente em Hollywood, Orlando, Osaka e Pequim, criado em parceria com a Universal. Outra aliança histórica é com a Six Flags, que há décadas utiliza personagens como Looney Tunes e heróis da DC em suas atrações. Três parques no exterior levam o nome da Warner Bros. — na Austrália, na Espanha e em Abu Dhabi — mas todos são conduzidos por terceiros. Com a compra, a Netflix herdará esses contratos e operações de licenciamento.
O cenário abre duas possibilidades. A primeira é um reordenamento das parcerias, que poderia abalar especialmente a Six Flags, atualmente fragilizada por fechamentos, demissões e dificuldades financeiras. Uma eventual perda de ícones como Batman, Superman ou os Looney Tunes afetaria diretamente sua relevância. A segunda, e talvez mais estratégica, seria transformar essa base já existente em um caminho para consolidar a entrada da Netflix no mercado de parques temáticos.
A plataforma poderia tanto reforçar a relação com parceiros quanto usar a estrutura herdada para desenvolver empreendimentos próprios. Colaborações com a Universal, no entanto, parecem improváveis. Após perder a disputa pela compra da Warner, dificilmente o grupo abriria espaço para atrações de Stranger Things ou outras marcas da Netflix. Já a Six Flags pode se mostrar mais flexível, enquanto a própria Warner vinha avaliando novos operadores antes do anúncio da fusão.
No panorama global, todo movimento será observado de perto. A Universal tem interesse em modelos de parques menores, como o anunciado no Texas, semelhantes às próprias Netflix Houses. E a diversificação de experiências tem sido uma tendência no setor, com grandes marcas explorando formatos híbridos de varejo, entretenimento e narrativa imersiva.
Se a Netflix decidir avançar de fato nesse território, a transformação será profunda. A empresa que redefiniu o consumo de audiovisual pode dar início a uma nova fase, posicionando-se como um conglomerado de entretenimento completo, capaz de competir diretamente com os gigantes tradicionais do setor. Uma mudança que, se confirmada, deve remodelar não apenas a estratégia da companhia, mas também o próprio mapa global dos parques temáticos.
*Com informações de Vulture







