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Relatório aponta perdas econômicas e fiscais ligadas à exclusão no mercado de trabalho (Gemni/IA)

O Banco Mundial publicou, ontem (28), o relatório “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho Brasileiro” que estima em R$ 94,4 bilhões as perdas anuais sofridas pela economia brasileira em decorrência da exclusão de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans, intersexo e de outras identidades relacionadas (LGBTI+) do mercado de trabalho.

O valor corresponde a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2024, de R$ 11,8 trilhões. O estudo revela que as perdas decorrem de quatro mecanismos principais: excesso de desemprego (R$ 44,8 bilhões), excesso de inatividade (R$ 24,1 bilhões), lacuna salarial residual (R$ 20,7 bilhões) e segregação ocupacional aliada à informalidade (R$ 4,8 bilhões).

Cada vez mais evidências confirmam que o estigma, a discriminação e a exclusão social que afetam pessoas LGBTI+ impõem custos econômicos significativos aos países, prejudicando sua capacidade de criar mais e melhores empregos. A análise insere o tema no debate sobre desenvolvimento econômico, ao associar desigualdade social à redução de produtividade e à má alocação de capital humano.

A taxa de desemprego entre pessoas LGBTI+ registrada pela pesquisa chega a 15,2%, o dobro da taxa nacional de 7,7%. A taxa de inatividade na força de trabalho também é mais alta: 37,4% entre pessoas LGBTI+, contra 33,4% da população em geral. A taxa de emprego cai para 47,4%, ante 58,9% no restante da população.

Mesmo entre as pessoas LGBTI+ que estão empregadas, a renda relativa do trabalho equivale a apenas 91% da da população geral. A pesquisa registra que a renda mensal média da amostra LGBTI+ é de R$ 3.470, contra R$ 2.953 da população geral, mas esse número isola apenas os trabalhadores que conseguiram emprego e mascara as perdas geradas pelo desemprego e pela inatividade acima da média nacional.

Exclusão compromete ainda R$14,6 bilhões das finanças públicas

Exclusão LGBTI+ custa caro: Banco Mundial prova que R$ 94 bilhões são desperdiçados por ano

Além das perdas de produtividade, o documento quantifica o impacto fiscal: R$ 14,6 bilhões ao ano, ou 0,12% do PIB. Esse valor resulta da queda na arrecadação de impostos (R$ 10,6 bilhões) e do aumento dos gastos com proteção social associados ao desemprego e à inatividade (R$ 4 bilhões). O texto sublinha que “a discriminação não gera apenas um entrave à produtividade, mas também uma pressão estrutural sobre os orçamentos públicos, com implicações de longo prazo para a sustentabilidade fiscal.”

O estudo detalha que as perdas econômicas não se distribuem de forma uniforme. Mulheres LBTI+ respondem por R$ 54,3 bilhões das perdas anuais, enquanto homens GBTI+ acumulam R$ 40,1 bilhões. Entre as mulheres, os impactos estão mais associados ao desemprego e à inatividade. Entre os homens, as desvantagens salariais têm peso maior.

A desagregação por raça sinaliza que pessoas pardas e pretas LGBTI+ enfrentam desvantagens sistematicamente maiores. Mulheres pretas e pardas LBTI+ concentram as maiores disparidades em todos os indicadores, as diferenças nas taxas de desemprego e inatividade chegam a ser até duas vezes superiores às registradas entre homens brancos GBTI+.

O impacto fiscal também é desigual por sexo: entre homens GBTI+, as perdas fiscais somam R$ 5,9 bilhões por ano; entre mulheres LBTI+, o total alcança R$ 8,7 bilhões. O estudo calcula perdas anuais de R$ 14,6 bilhões, cerca de 0,12% do PIB, decorrentes da redução na arrecadação e do aumento de gastos públicos associados ao desemprego e à exclusão. Segundo o relatório, “as perdas econômicas relacionadas à discriminação e à exclusão, juntamente com o aumento dos gastos com proteção social, impedem o país de realizar seu pleno potencial econômico”.

Discriminação no trabalho aparece desde o recrutamento ao cotidiano

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A taxa de desemprego entre pessoas LGBTI+ atinge 15,2%, acima da média nacional de 7,7%. Além disso, a inatividade na força de trabalho chega a 37,4%, contra 33,4% da população geral. Os dados qualitativos do estudo, produzidos a partir de 16 grupos focais realizados em Belém, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, comprovam que a exclusão começa antes mesmo do ingresso no mercado formal.

Uma participante trans relata ter perdido uma oportunidade de emprego porque o responsável pela contratação perguntou: “Qual banheiro essa pessoa usaria? Isso não é possível, não temos um banheiro exclusivo para essa pessoa.”

Para as pessoas que conseguem ingressar no mercado, a exclusão assume formas mais sutis. Uma entrevistada descreve a estratégia de usar “um pouquinho de maquiagem… para não parecer tanto com um menino” como forma de reduzir a exposição à discriminação no trabalho.

A pesquisa aponta que de metade a dois terços dos entrevistados relatam exposição frequente a comentários ou comportamentos negativos no local de trabalho atribuídos à orientação sexual ou identidade de gênero. Os níveis de hostilidade são mais elevados entre pessoas trans, não binárias e intersexo.

Um homem trans ouvido nos grupos focais descreve com a palavra “correria” a sua rotina profissional fora do mercado formal: “Eu faço um monte de coisas. Corto cabelo; preparo bebidas; trabalho com produção de eventos. Então, é tudo na correria. Labuta mesmo.” O depoimento ilustra como a informalidade surge como resposta à discriminação, e não como escolha. O estudo estima que 30% dos indivíduos LGBTI+ trabalham na informalidade ou por conta própria, ante 25% da população geral.

A desigualdade dentro da própria comunidade LGBTI+ também emerge nos relatos. Um participante dos grupos focais sintetiza a hierarquia percebida no ambiente corporativo: “Os homens gays, especialmente os brancos e mais ‘masculinos’, são os que acabam ocupando as melhores posições.”

O estigma territorial acrescenta outra camada ao problema. Uma pessoa entrevistada pondera que “viver em bairros distantes ou periféricos significa não apenas percorrer longas distâncias, mas também ser visto como alguém que ‘não pertence’ a ambientes de trabalho qualificados.”

Outro ponto destacado envolve a subutilização de habilidades. Mesmo quando inseridas no mercado, pessoas LGBTI+ enfrentam barreiras que limitam o aproveitamento de sua qualificação, o que reduz a produtividade e impacta o desempenho econômico geral.

Recomendações e implicações para o trade

Exclusão LGBTI+ custa caro: Banco Mundial prova que R$ 94 bilhões são desperdiçados por ano
A exclusão começa antes da entrada no mercado de trabalho, com impactos na educação e na qualificação profissional, o que amplia desigualdades ao longo do ciclo de vida (Gemni/IA)

Embora o foco seja o mercado de trabalho, o relatório dialoga com o setor de turismo ao tratar de inclusão, produtividade e ambiente de negócios. A criação de empregos, a retenção de talentos e a competitividade de destinos dependem de ambientes inclusivos, especialmente em segmentos intensivos em serviços, como hotelaria, aviação e eventos. A análise sugere que barreiras estruturais podem limitar a capacidade do país de expandir atividades econômicas ligadas ao turismo, que demandam mão de obra qualificada e interação com públicos diversos.

O documento apresenta três frentes de atuação: fortalecimento das bases para criação de empregos, com destaque para o Plano Nacional de Trabalho Digno LGBTQIA+ lançado em 2025 pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e pelo Ministério do Trabalho e Emprego; capacitação de empresas e mercados para reduzir barreiras ao emprego; e expansão do acesso a oportunidades de empreendedorismo e financiamento.

É advertida, também, a necessidade de ampliar a coleta oficial de dados sobre orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais nas estatísticas nacionais, lacuna que limita o monitoramento das políticas públicas e dificulta a mensuração do avanço ou retrocesso das iniciativas de inclusão. A discriminação reduz o retorno de investimentos em educação e limita a aprendizagem no trabalho, fatores que impactam a renda ao longo da vida e o crescimento econômico.

Sobre a metodologia de pesquisa

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O estudo foi elaborado em parceria com um consórcio liderado pelo Instituto Matizes e financiado pelo Fundo Fiduciário da Iniciativa de Sustentabilidade Social para Todos (SSI4ALL), a organização Mais Diversidade, a Antra, a ABGLT e outras entidades da sociedade civil. Os dados incluem iformações sobre renda, emprego, participação na força de trabalho e experiências de discriminação. A A amostra foi ajustada para refletir a estrutura demográfica da PNAD Contínua de 2024.

A coleta ocorreu por meio de entrevistas online e presenciais, com 11.231 participantes LGBTI+ adultas coletadas entre junho e setembro de 2025 recrutados em todo o país, incluindo favelas, áreas rurais, comunidades quilombolas e eventos como a Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo. Também foram realizados grupos focais em cidades como Belém, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

O estudo adota como parâmetro que 9,3% da população brasileira é LGBTI+, com base em estimativa de 2025 da Gallup para os Estados Unidos, considerada um ponto médio razoável diante da ausência de estimativas nacionais consolidadas. Em cenários mais conservadores, com prevalência de 1,8% (Pesquisa Nacional de Saúde do Brasil) e 3,7% (Pesquisa Casen do Chile), as perdas econômicas anuais caem para R$ 18,1 bilhões e R$ 37,3 bilhões, respectivamente. Porém, é destacado que as fontes de dados existentes não capturam toda a diversidade das identidades LGBTI+.