Barcelona estabelece limite de 16 milhões de turistas por ano e endurece combate ao turismo excessivo
Capital catalã aposta em crescimento controlado e turismo de maior valor agregado (Divulgação/Blau Student Housing)

Barcelona decidiu estabelecer um limite para o número de visitantes que recebe todos os anos. A meta anunciada pela administração municipal prevê um teto de 16 milhões de turistas anuais, estratégia que busca conter os efeitos do chamado overtourism, fenômeno que tem provocado pressão sobre moradia, transporte público e espaços urbanos da capital da Catalunha. A informação foi confirmada pelo comissário para o Turismo Sustentável de Barcelona, José Antonio Donaire, em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times.

Segundo Donaire, o município não pretende eliminar o turismo, um dos principais motores da economia local, mas impedir que o volume de visitantes continue crescendo. “Neste momento, a mensagem da cidade é: nem mais um turista”, afirmou o comissário ao periódico.

Em 2025, Barcelona recebeu aproximadamente 15,7 milhões de turistas, número que passa a ser considerado próximo do limite considerado sustentável pela administração municipal.

Nova estratégia busca equilíbrio entre economia e qualidade de vida

A decisão representa uma mudança importante na política turística da cidade. Durante décadas, Barcelona investiu na promoção internacional para ampliar sua presença entre os principais destinos da Europa. Agora, a prioridade passa a ser administrar melhor o fluxo de visitantes, preservando a rotina dos moradores e reduzindo os impactos causados pelo excesso de turistas.

O turismo responde por cerca de 13% da economia da cidade, mas também é apontado como um dos fatores que contribuíram para o aumento do custo da habitação, para a transformação do comércio tradicional e para a concentração de visitantes em áreas históricas.

De acordo com Donaire, a discussão deixou de ser sobre crescimento e passou a focar na gestão do turismo “O direito dos cidadãos de viver na cidade está acima de tudo”, declarou ao The New York Times.

Perfil dos visitantes também deverá mudar

Além de estabelecer um limite para o número total de turistas, Barcelona pretende modificar o perfil dos visitantes que chegam ao destino.

Hoje, aproximadamente dois terços do fluxo turístico são formados por viajantes de lazer. A meta da prefeitura é alcançar uma distribuição mais equilibrada.

Segundo o comissário, o objetivo é dividir o turismo em três segmentos com participação semelhante:

  • turismo de negócios;
  • turismo cultural;
  • turismo de lazer.

A estratégia também inclui mudanças na comunicação internacional da cidade. O tradicional slogan “Visit Barcelona” passou a dar lugar à campanha “This Is Barcelona”, que busca apresentar a identidade cultural e o cotidiano da cidade, em vez de incentivar apenas o aumento do número de visitantes.

Cruzeiros de curta duração entram na mira

Outro ponto considerado prioritário pela administração municipal envolve os cruzeiros que fazem escalas rápidas em Barcelona.

O município pretende reduzir esse tipo de operação por meio do aumento das taxas cobradas das embarcações que permanecem poucas horas na cidade. A intenção é tornar economicamente menos atrativas as paradas rápidas, que geram grande concentração de visitantes em um curto período e pouco retorno econômico para o destino.

Esse segmento tem sido alvo de críticas de moradores e especialistas por contribuir para o aumento da circulação de pessoas em áreas centrais sem que haja permanência prolongada dos turistas.

Mercados e bairros históricos passam por mudanças

Entre as regiões que deverão receber atenção especial está o tradicional Mercado da Boqueria, um dos pontos turísticos mais visitados de Barcelona.

Segundo Donaire, o espaço perdeu parte de sua função original ao direcionar grande parte da oferta para os turistas. A proposta é incentivar comerciantes a retomarem a venda de produtos utilizados pelos moradores, fortalecendo novamente o caráter de mercado público.

“O mercado tem de continuar a ser um mercado”, afirmou.

As mudanças também deverão alcançar Las Ramblas, um dos cartões-postais da cidade. A prefeitura pretende incentivar atividades voltadas aos residentes e reduzir a predominância de estabelecimentos direcionados exclusivamente aos visitantes.

Estudos utilizados pela administração indicam que muitos moradores deixaram de frequentar a região devido ao excesso de turistas e à transformação do perfil comercial da avenida.

Medidas fazem parte de um plano iniciado há quase uma década

As ações anunciadas não representam uma iniciativa isolada. Desde 2017, Barcelona vem implementando medidas para controlar os impactos do turismo.

Entre elas estão:

  • restrições à construção de novos hotéis;
  • ampliação da taxa turística;
  • controle sobre novos empreendimentos turísticos;
  • previsão de encerramento das licenças de alojamentos turísticos até 2028.

A arrecadação obtida com a taxa turística deverá continuar sendo utilizada para financiar serviços públicos e projetos destinados a minimizar os impactos provocados pelo turismo.

Segundo a prefeitura, a proposta é que parte dos recursos pagos pelos próprios visitantes contribua para melhorar infraestrutura, mobilidade e qualidade de vida dos moradores.

Barcelona acompanha tendência de destinos europeus

Nos últimos anos, diversas cidades europeias passaram a discutir formas de controlar o crescimento acelerado do turismo internacional.

Destinos como Veneza, Amsterdã, Dubrovnik e algumas ilhas da Grécia também adotaram restrições relacionadas ao número de visitantes, taxas de acesso ou limitações ao setor de hospedagem.

Barcelona, porém, avança um passo além ao estabelecer publicamente um limite anual para o total de turistas.

A medida sinaliza uma mudança de estratégia na gestão do destino, que pretende manter o turismo como atividade econômica relevante, mas dentro de parâmetros considerados sustentáveis.