
A visita do presidente russo Vladimir Putin à ilha de Iturup, em 13 de agosto, trouxe novamente as Ilhas Curilas do Sul ao centro das atenções. Localizado no extremo nordeste da Ásia, o arquipélago se estende entre a península de Kamchatka, na Rússia, e Hokkaido, no Japão, formando uma cadeia de ilhas entre o Mar de Okhotsk e o Oceano Pacífico. A região combina atividade vulcânica, áreas naturais, pesca e comunidades russas, além de uma disputa territorial que permanece sem solução entre Moscou e Tóquio.
Putin esteve em Iturup, chamada de Etorofu pelo Japão, durante uma viagem ao extremo leste russo. Segundo a Reuters, o presidente visitou uma escola, um hospital e uma unidade de processamento de pescado. A passagem marcou a primeira visita de Putin ao arquipélago disputado.
A primeira-ministra do japão, Sanae Takaichi, classificou a visita como “absolutamente inaceitável”, enquanto Tóquio reiterou que as quatro ilhas mais ao sul do arquipélago pertencem ao Japão. Moscou, por sua vez, reafirma sua soberania sobre a área.
Apesar da disputa política, as Curilas também chamam atenção pelas características geográficas e pelas possibilidades de turismo de natureza. A cadeia insular é formada por dezenas de ilhas e ilhotas, muitas delas de origem vulcânica. O ambiente inclui vulcões, fontes termais, praias, áreas de vegetação e regiões costeiras voltadas para o Pacífico.
Ilhas Curilas do Sul ficam próximas ao Japão

As Ilhas Curilas formam um arco de ilhas que se estende por cerca de 1.200 quilômetros entre Hokkaido e a península de Kamchatka. O arquipélago está localizado em uma área de intensa atividade tectônica, o que explica a presença de vulcões e a ocorrência de terremotos na região. A disputa entre Rússia e Japão, porém, está concentrada nas quatro ilhas mais ao sul: Iturup, Kunashir, Shikotan e o grupo de ilhotas Habomai. A Rússia utiliza a denominação Ilhas Curilas do Sul, enquanto o Japão chama o conjunto de Territórios do Norte.
Atualmente, as quatro áreas são administradas pela Rússia. O Japão mantém a reivindicação sobre os territórios e considera que eles fazem parte de seu território. O impasse começou a se consolidar no final da Segunda Guerra Mundial, quando a União Soviética ocupou as ilhas em 1945. A questão territorial também interfere nas relações diplomáticas entre os dois países. Rússia e Japão não assinaram um tratado de paz que encerre formalmente o estado de guerra relacionado à Segunda Guerra Mundial, e a disputa pelas ilhas permanece como um dos principais pontos pendentes entre os governos.
Iturup é a maior das quatro Ilhas Curilas do Sul e também uma das áreas do arquipélago que concentram elementos de interesse para o turismo de natureza. A ilha possui vulcões, campos de lava, áreas costeiras e estruturas geotérmicas.
Entre os pontos conhecidos está o vulcão Baransky, associado a fontes termais, lagos de origem vulcânica e áreas com atividade geotérmica. Guias turísticos da região também destacam formações naturais como o planalto de lava de Yankito e as paisagens formadas por atividade vulcânica. A ilha também possui o vulcão Bogdan Khmelnitsky, um dos pontos de maior altitude da região, e outras formações vulcânicas que integram a paisagem local. A atividade geológica é uma das características que diferenciam Iturup dentro do arquipélago.
Kurilsk é o principal núcleo urbano de Iturup. A localidade está ligada às atividades econômicas da ilha, especialmente à pesca e ao processamento de pescado. Foi justamente uma unidade desse setor que Putin visitou durante sua passagem pelo território em agosto. Para o turismo, entretanto, o acesso à região é um dos principais fatores que limitam a chegada de visitantes. Iturup está distante dos grandes centros urbanos do extremo leste russo e possui uma infraestrutura turística menor do que destinos internacionais mais consolidados.
Kunashir reúne vulcões e áreas naturais

Ao sul de Iturup está Kunashir, outra das ilhas reivindicadas pelo Japão. A ilha também apresenta relevo vulcânico e possui o vulcão Tyatya, que chega a 1.819 metros de altitude e está entre os principais elementos da paisagem local.
Kunashir também abriga áreas naturais protegidas. A combinação de vulcões, florestas e litoral cria diferentes ambientes para atividades ligadas ao turismo de natureza e à observação da paisagem. A ilha ganhou destaque político anteriormente. Em 2010, o então presidente russo Dmitri Medvedev visitou Kunashir, tornando-se o primeiro chefe de Estado russo a viajar para uma das ilhas disputadas. A visita também provocou protestos do governo japonês.
Shikotan, por sua vez, é menor que Iturup e Kunashir e apresenta relevo mais baixo. Já Habomai é um conjunto de pequenas ilhas e ilhotas localizado próximo à costa de Hokkaido. Embora sejam agrupadas na disputa como um único território, Habomai não corresponde a uma única ilha. A geografia das Curilas está diretamente relacionada ao chamado Anel de Fogo do Pacífico, área que concentra atividade vulcânica e sísmica ao redor do oceano. O arquipélago possui diversos vulcões, alguns ativos, além de fontes termais e outras manifestações geotérmicas.
Em Iturup, roteiros turísticos voltados à natureza incluem visitas a vulcões, áreas de lava, fontes termais e formações costeiras. O vulcão Baransky, por exemplo, aparece entre os pontos utilizados em excursões pela ilha, com áreas de águas quentes e estruturas geotérmicas.
As atividades, contudo, são diferentes das encontradas em destinos turísticos tradicionais do Japão ou da Rússia europeia. A região possui menor fluxo internacional e exige planejamento específico para deslocamento, hospedagem e acesso às atrações. A pesca também ocupa papel central na economia local. A localização das ilhas entre o Mar de Okhotsk e o Pacífico favorece a atividade pesqueira e ajuda a explicar a importância econômica e estratégica do arquipélago para a Rússia.
Por que as Ilhas Curilas do Sul são disputadas?

A disputa tem origem em diferentes acordos assinados por Rússia e Japão ao longo dos séculos XIX e XX. Em 1855, os dois países estabeleceram uma fronteira na região. Em 1875, um novo acordo transferiu o controle das ilhas Curilas para o Japão em troca de direitos russos sobre Sacalina.
A situação mudou no fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, a União Soviética ocupou as Curilas, e o controle das quatro ilhas mais ao sul passou a ser reivindicado por Moscou. O Japão não reconhece a incorporação desses territórios e utiliza a expressão Territórios do Norte para se referir a eles.
Essa disputa explica por que uma visita presidencial como a realizada por Putin tem repercussão além da política. A presença do líder russo em Iturup representa também uma demonstração de controle sobre uma área que o Japão continua reivindicando.
Em 13 de agosto, Putin visitou a ilha e percorreu instalações locais, enquanto o governo japonês apresentou protesto diplomático. A viagem ocorreu poucos dias antes das cerimônias japonesas relacionadas ao aniversário da rendição do país na Segunda Guerra Mundial, aumentando o peso político da visita.
Para o setor de turismo, as Ilhas Curilas do Sul representam um destino de acesso restrito, mas com características geográficas que ajudam a explicar o interesse pela região. Vulcões, fontes termais, áreas de lava, litoral e fauna fazem parte do cenário de Iturup e de outras ilhas do arquipélago, enquanto a localização entre Rússia e Japão mantém o território no centro de uma disputa que atravessa gerações.







