
A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante no mercado de viagens e eventos. Ela começa a responder dúvidas sobre políticas corporativas, analisar dados de viajantes, apoiar reservas, automatizar processos e personalizar experiências. Mas, à medida que a tecnologia assume tarefas operacionais, cresce também o peso de decisões estratégicas e situações que exigem julgamento, criatividade e sensibilidade humana.
Esse foi um dos principais pontos discutidos no Academia Flow Summit 2026, realizado na sexta-feira (18), no Fairmont Rio de Janeiro. O encontro reuniu profissionais de Travel & MICE para discutir os impactos da Inteligência Artificial sobre gestão, carreiras, negócios, experiência do viajante e bem-estar.
“Quanto mais inteligência artificial, mais a gente vai precisar trabalhar a nossa inteligência emocional. É sobre presença e saber o que queremos para a nossa vida, o que me deixará feliz”, afirmou Vivi Martins, CEO da Academia de Viagens Corporativas.
Da operação à estratégia
Na prática, a transformação já chegou às empresas. Na TBG, Caio Machado apresentou a AmelIA, agente de inteligência artificial que funciona como primeiro ponto de atendimento para dúvidas sobre políticas de viagens, utilizando os normativos da companhia.
Na Moderna, Jennifer Steinke, Travel Manager do Ano de 2026 pela Business Travel News, mostrou aplicações de IA para personalizar a jornada dos viajantes a partir de dados históricos e preferências. Já a SAP Concur apresentou a Joule AI, com agentes capazes de reduzir etapas operacionais.
O movimento aponta para uma mudança no papel do profissional de Travel: menos tempo dedicado a tarefas repetitivas e mais espaço para análise, tomada de decisão e atuação estratégica.
O desafio, porém, vai além da adoção de novas ferramentas. O setor também precisa demonstrar o impacto que a gestão de viagens gera para os negócios. No painel sobre o futuro conectado de T&E, Fabiano Grottoli, vice-presidente de Corporate Solutions da Mastercard, apresentou um dado que resume essa dificuldade: 74% dos gestores de viagens consideram o travel essencial para impulsionar o crescimento das empresas, mas apenas 20% afirmam ter processos estabelecidos para medir o retorno desse investimento.
Com isso, a gestão de viagens passa a ser observada não apenas pelo controle de despesas, mas também por dados, experiência do colaborador, sustentabilidade e impacto nos resultados. Na Globo, Homero Carrazzoni mostrou como critérios ESG já fazem parte de decisões relacionadas a viagens, incluindo compensação de CO₂ e previsão de consumo de carbono.

A disputa pela atenção
Nos eventos corporativos, a transformação envolve outro ativo cada vez mais disputado: a atenção.
Mariana Rodrigues, coordenadora de Brand Experience da Localiza&Co, destacou que essa disputa começa antes mesmo da realização do evento. Renata Honorato, CEO da XR Live Marketing, reforçou que eventos precisam ser entendidos como ferramentas de comunicação, relacionamento e geração de resultados.
A discussão ganhou uma dimensão global com Miguel Neves, CEO da miguelseven.com, que apresentou tendências que já pressionam o setor, entre elas inteligência artificial, geopolítica, experiências personalizadas, flexibilidade e a disputa pela atenção.
Nesse cenário, empresas especializadas em viagens corporativas passam a ser demandadas não apenas para executar operações, mas também para interpretar dados, antecipar cenários e apoiar decisões.
Onde a tecnologia não chega
Se a Inteligência Artificial assume parte das tarefas, o diferencial profissional tende a migrar para aquilo que exige presença humana. No painel sobre atendimento ao viajante, Fernando Vasconcellos, CEO do Grupo Kontik, destacou que a automação tende a assumir transações, enquanto situações de exceção continuam exigindo intervenção humana.
No RIOgaleão, Karin Karling apresentou iniciativas voltadas à redução de filas e à melhoria da jornada aeroportuária. No segmento de luxo, Netto Moreira, diretor-geral do Cluster Luxo RJ da Accor, mostrou aplicações de IA para conhecimento do cliente e treinamento de equipes, mas também ressaltou a importância da presença e do cuidado no relacionamento.
Inteligência Artificial no trabalho
A tecnologia também chegou à discussão sobre carreiras. No painel “Carreira nos tempos da IA”, Flavia Santos, Marcella Braga e Bernardo Martins abordaram mudanças em liderança, organização do trabalho e modelos profissionais. Entre os exemplos apresentados esteve uma equipe que passou de 23 para três profissionais e, com tecnologia, parceiros e redesenho de processos, manteve a capacidade de realizar eventos.
Realizado a partir dos eixos Future, Leadership, Opportunities e Wellbeing, o Academia FLOW Summit 2026 discutiu, portanto, não apenas quais tecnologias estão chegando ao mercado, mas como empresas e profissionais terão de reorganizar processos, funções e experiências diante dessa transformação.







