Salvador além do Pelourinho: veja 10 lugares para descobrir um lado da cidade que poucos turistas conhecem
O Farol da Barra ganha novos contornos ao pôr do sol, em um dos cartões-postais de Salvador (Felipe Abílio/M&E)

“A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem.” Talvez Dorival Caymmi tenha conseguido descrever o sentimento que vivi quando experimentei Salvador, de verdade, pela primeira vez, na música “Você Já Foi à Bahia?”. Mesmo depois de décadas, a canção fazia todo sentido enquanto eu cantava mentalmente durante os cinco dias que passei na região.

Apesar de ter visitado mais de dez países no último ano, vivi algo inédito em uma viagem: descobri que Salvador tem uma maneira própria de ser sentida. Ao observar o mar, provar os sabores, observar de longe as pessoas conversando, sentir aquele cheiro específico da Feira de São Joaquim e perceber a paz que toma conta do corpo durante uma experiência que resgata a ancestralidade brasileira por meio do acolhimento de Axé, religião tão presente na cultura de Salvador.

Para além da Salvador do Pelourinho, do Elevador Lacerda e de tantos pontos turísticos famosos da cidade, tive o gostinho de tentar descobrir, sentindo, os “mistérios de Salvador” que Jorge Amado narra em seu guia “Bahia de Todos-os-Santos”.

Já tinha experimentado a Salvador do Carnaval há 10 anos, quando cobri o circuito Barra-Ondina por 12 dias, até o bloco do arrastão na quarta-feira de cinzas. Essa experiência também é válida e divertida, mas nem se compara à oportunidade de aprofundar a vivência do dia a dia, deixando o agito de lado e experimentando o verdadeiro Axé que a Bahia tem.

Nos próximos minutos, quero sugerir uma coisa: abra seu coração e leia o que vem a seguir tentando sentir o que Salvador tem para mostrar. Mas cuidado: é perigoso se apaixonar e terminar esta leitura querendo comprar uma passagem para descobrir as belezas escondidas nas histórias contadas pelas ruelas, nos sabores, nos encontros e naquele mar quentinho que parece abraçar a gente quando mergulhamos.

Roteiros culturais:

Farol da Barra de outro ângulo

Salvador além do Pelourinho: veja 10 lugares para descobrir um lado da cidade que poucos turistas conhecem
O Farol da Barra ganha um novo olhar em uma experiência registrada em 360 graus (Felipe Abílio/M&E)

Na minha primeira vez em Salvador, cruzei o Farol da Barra diversas vezes em cima dos trios elétricos, mas desta vez pude descobrir outra perspectiva sobre um dos cartões-postais mais famosos de Salvador. Lá dentro está o Museu Náutico da Bahia, onde você conhece a história do Brasil pré e pós-colonização em detalhes, com objetos milenares preservados. A visita ainda te dá a oportunidade de subir até o alto da torre. Lá de cima, o mar ganha outra dimensão. Você consegue observar a limpidez da água pertinho da costa, que muda de tom e vira um azul profundo ao longo do oceano. A entrada custa R$ 20, lá dentro existe um café e estar dentro de um dos cartões-postais mais famosos do Brasil faz você ter outra perspectiva da cidade.

O “novo” Teatro Vila Velha

Salvador além do Pelourinho: veja 10 lugares para descobrir um lado da cidade que poucos turistas conhecem
Teatro Vila Velha reabre renovado, preservando elementos de sua história (Felipe Abílio/M&E)

Durante a minha visita, o acaso fez acontecer o encontro com dois grandes nomes da arte baiana. Sonia Robatto, uma das figuras importantes da história do teatro, se emocionou ao ver a reforma pronta, um dia antes da reestreia. Ao lembrar dos primeiros anos do espaço, quando artistas precisavam literalmente correr atrás de materiais para construir o teatro, ela sorriu revivendo na memória a dimensão daquela história: “A cidade inteira começou a colocar coisas aqui. Tudo que a gente conseguia, a gente colocava. Vinham de caminhão. E a gente ia colocando tudo.”

Criado a partir da iniciativa de artistas e estudantes que deixaram a Escola de Teatro em 1959, o Teatro dos Novos, como era chamado originalmente, encontrou naquele espaço a possibilidade de construir sua própria casa. O terreno foi cedido pelo governo e o antigo galpão foi adaptado com materiais doados. Em 1964, poucos meses após o golpe militar, o teatro foi inaugurado e se tornou também um espaço de resistência e liberdade.

Pelo palco do Vila Velha passaram nomes que ajudam a contar a própria história da cultura baiana. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Tom Zé e os Novos Baianos estiveram por aqui. E para muita gente, ele foi o começo de uma trajetória. Margareth Menezes começou ali. Daniela Mercury dançou naquele palco. Lázaro Ramos, Wagner Moura e Virgínia Rodrigues também tiveram suas histórias ligadas ao espaço.

Márcio Meirelles, diretor do Teatro, falou com emoção sobre a principal função desse palco. “Falo que é um campo de pouso, né? Muitas pessoas aterrissam, decolam, vão para o mundo.”

Depois de três anos fechado, o Vila Velha reabriu em setembro de 2026 renovado, com melhorias de acessibilidade, acústica, tecnologia e segurança, mas preservando elementos da arquitetura original.

Museu do Mar Aleixo Belov

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O Museu do Mar preserva histórias que ajudam a contar a relação da Bahia com o oceano (Felipe Abílio/M&E)

O mar que aparece tantas vezes nesta viagem também guarda histórias de quem decidiu enfrentá-lo. No Museu do Mar Aleixo Belov, a navegação ganha espaço e é contada através da trajetória do navegador. Nascido na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, Aleixo chegou ao Brasil aos seis anos com a família e foi em Salvador que se apaixonou pelo mar. O amor foi tanto que construiu o próprio veleiro, o Três Marias, no quintal de casa, e com ele realizou três voltas ao mundo sozinho.

O acervo reúne objetos, fotografias, livros, memórias e relatos de suas viagens pelos oceanos, além do próprio veleiro. A visita também revela uma relação profunda entre Aleixo, Salvador e a Baía de Todos-os-Santos, onde começou essa paixão pelo mar.

Mercado Modelo

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O Mercado Modelo é um dos símbolos de Salvador e conecta gastronomia, cultura e tradição baiana (Felipe Abílio/M&E)

O Mercado Modelo é daqueles lugares que você provavelmente já viu em alguma foto de Salvador. Em frente à Baía de Todos-os-Santos, o espaço reúne artesanato, sabores, música e referências da cultura baiana em um mesmo endereço.

Entre uma banca e outra, você encontra objetos ligados à cultura afro-brasileira, lembranças da Bahia, roupas, sapatos regionais e aquela movimentação que faz parte da vida do lugar. Por ali também tem restaurantes para tomar um caldinho e provar a comida local. É uma parada que vale não apenas pela compra de uma lembrança, mas pela oportunidade de observar a cidade e tudo aquilo que ela escolheu preservar.

Roteiros de Afrocultura

Casa de Iemanjá

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Casa de Iemanjá, no Rio Vermelho, mantém viva a tradição ligada ao mar (Felipe Abílio/M&E)

No Rio Vermelho, a relação de Salvador com Iemanjá ganha um lugar especial e cheio de significado. A Casa de Iemanjá está ligada à tradição que transformou o bairro em um dos principais pontos de celebração da cidade, especialmente durante a Festa de Iemanjá, realizada todos os anos em 2 de fevereiro.

Conhecer o espaço também é uma forma de entender como a religiosidade está presente na identidade cultural de Salvador. É mais do que religião. É uma filosofia de vida ligada à fé e à força da mãe do oceano.

A casa reúne imagens de Iemanjá, pedidos, flores, velas e momentos de bênção. Comprei flores do lado de fora para fazer meu agradecimento.

Se você parar por cinco minutos e observar, percebe que a vida por ali tem outro ritmo. Pessoas passam longos minutos agradecendo na Casa de Iemanjá, pescadores jogam dominó enquanto outros preparam o que foi pescado naquele dia do lado de fora. É preciso parar. Olhar. Sentir. Só assim é possível entender a força daquele lugar.

Feira de São Joaquim

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A cultura baiana também está nas pessoas, nos mercados e nas tradições de Salvador (Felipe Abílio/M&E)

A Feira de São Joaquim é muito mais antiga do que parece. Antes de ocupar o espaço atual, ela era conhecida como Feira de Água de Meninos, uma região da Cidade Baixa que há séculos recebia feiras e comerciantes que chegavam pelos saveiros trazendo produtos do Recôncavo Baiano. Em 1964, depois de dois incêndios que destruíram praticamente toda a antiga feira, os feirantes foram transferidos para a região de São Joaquim, onde ela continua funcionando até hoje.

Caminhar por ali é entender um pouco da Salvador que não aparece nos cartões-postais. Tem frutas, temperos, comidas, artesanato, ervas, folhas e uma enorme quantidade de produtos ligados às religiões de matriz africana.

Para mim, foi uma das experiências que mais me ajudaram a entender como a ancestralidade africana está presente no cotidiano de Salvador. Você anda pelos corredores, sente os cheiros, observa as pessoas e começa a perceber que ali existe muito mais do que uma feira, é uma cidade quase independente dentro de Salvador.

Momento de reconexão na Dumato

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Experiência de reconexão valoriza a ancestralidade e a cultura baiana (Felipe Abílio/M&E)

Colocar os pés em uma bacia com ervas, fechar os olhos e simplesmente parar. Foi assim que começou uma das experiências mais diferentes que vivi durante minha passagem por Salvador. Na Dumato, fiz uma lavagem dos pés conduzida por Viviane Carvalho, ialorixá, filha de Oxum e de Ewá, um momento de benzimento e uma vivência de conexão.

A experiência tem relação direta com a filosofia da Dumato e Casa Dandá, e com a forma como Alana Sales, co-fundadora e CEO da marca, entende esse cuidado. “É um espaço para a gente sentir. Sentir Salvador, sentir quem a gente é, sentir que a gente faz parte da natureza”, explica.

Durante a vivência, o silêncio também fez parte do processo. Sem pressa, fui percebendo o corpo, os aromas das ervas e a força daquele momento de cuidado.

Ancestralidade nos búzios

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Convidados seguem para uma festividade num terreiro de Candonmblé, em Salvador (Felipe Abílio/M&E)

Ter contato com a ancestralidade pode ser uma oportunidade de olhar para si por outro caminho. Essa experiência pode ser vivida com Viviane Carvalho, ialorixá, filha de Oxum e de Ewá, que realiza jogos de búzios, orientação espiritual, benzimento e vivências de ancestralidade na Casa Dandá dentro da Dumato.

O encontro é uma aproximação respeitosa com uma tradição que atravessa gerações e ocupa um lugar importante na cultura baiana. “Eu realizo jogo de búzios, orientação espiritual, benzimento e as vivências de ancestralidade. A proposta é trazer um pouco do candomblé de forma leve, de forma respeitosa, para que vocês possam sentir, de fato, o que é o Axé da Bahia”, explica Viviane.

No jogo de búzios, os elementos deixam de ser apenas objetos e passam a fazer parte de uma leitura ligada à espiritualidade e à tradição do candomblé. É um momento de escuta, perguntas e conexão com uma dimensão da cultura de Salvador que muitas vezes não aparece nos roteiros tradicionais.

Roteiros no mar:

Dia de sol na Praia da Barra

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Praia da Barra reúne mar, cidade e um dos cenários mais conhecidos de Salvador. (Felipe Abílio/M&E)

Depois de tantos passeios, museus e experiências pela cidade, também reservei um tempo para fazer uma coisa que parece simples, mas que faz toda diferença em Salvador: passar o dia na praia. A Praia da Barra é uma das mais conhecidas da cidade e tem uma localização privilegiada, com o Farol da Barra de um lado e o mar à frente. A água quentinha é um convite para entrar e ficar algumas horas sem pressa.

Pôr do sol de outro ângulo

Fiz o passeio com a Sol Vaa e passei cerca de uma hora remando pela Baía de Todos-os-Santos. O objetivo era chegar até a região da Gamboa para acompanhar o pôr do sol, mas o caminho até lá já fazia parte da experiência. Salvador foi ficando para trás.

Quando chegamos à Gamboa, paramos para acompanhar o sol se despedindo do dia. A água foi mudando de cor, o céu ganhou tons alaranjados. É uma experiência para quem quer viver Salvador no ritmo do mar, observando cada detalhe da despedida do dia e da chegada da noite.

Onde comer

Dona Mariquita

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Sabores da Bahia chegam à mesa com acarajé, camarão e outros clássicos da culinária local (Felipe Abílio/M&E)

De frente para a Baía de Todos os Santos, o Dona Mariquita é um restaurante tradicional de Salvador que coloca a cozinha baiana no centro da experiência. No Rio Vermelho, o endereço é conhecido como Cozinha Patrimonial da Bahia e valoriza ingredientes, receitas e sabores que fazem parte da história do estado.

Comecei pela coxinha de camarão com molho de moqueca. Depois, provei a moqueca tradicional, com peixe, leite de coco, azeite de dendê, tomate, cebola, pimentão e coentro. O acarajé também veio para a mesa, acompanhado de uma água de coco bem gelada.

Para fechar, bolinho de estudante, feito com tapioca, coco e açúcar. Uma sobremesa simples, mas que tem gosto de Bahia.

Jabu Restô & Bar

Também no Rio Vermelho, o Jabu Restô & Bar traz uma leitura mais contemporânea da gastronomia de Salvador. O ambiente é agradável, daqueles lugares em que dá para sentar com calma, conversar e aproveitar a refeição sem pressa.

Na mesa, experimentei a moqueca, o ceviche e o polvo. A moqueca mantém a ligação com a cozinha baiana, enquanto o ceviche e o polvo mostram uma proposta mais contemporânea.

Onde se hospedar

Monte Pascoal Praia Hotel

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Varanda de uma das categorias de apartamentos do Monte Pascoal, com vista para o mar da Barra (Felipe Abílio/M&E)

Acordar de frente para o mar muda a experiência de qualquer viagem. No Monte Pascoal Praia Hotel, na Barra, a Praia do Farol da Barra está literalmente na porta. Os apartamentos têm varanda e opções com vista para o mar, o que faz diferença principalmente depois de um dia inteiro andando por Salvador.

O café da manhã também entra no clima da cidade, com opções como tapioca, cuscuz e beiju. Na área externa, a piscina fica de frente para a Praia da Barra e é mais um daqueles lugares em que dá vontade de simplesmente parar e olhar o mar.

O hotel acaba de passar por um retrofit e os banheiros dos quartos estão novinhos. A estrutura também inclui atendimento na praia, com garçons, cadeiras e guarda-sóis para os hóspedes.

E o endereço já foi casa de uma das rainhas da Bahia. Durante anos, Ivete Sangalo chegou a alugar o hotel inteiro para ficar com sua equipe durante o Carnaval.

Planos para o turismo nos próximos anos

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A Orla de Pituaçu ganha novos espaços e amplia as opções de lazer à beira-mar (Felipe Abílio/M&E)

Salvador também amplia os investimentos em infraestrutura turística e de eventos com novos equipamentos e intervenções em diferentes regiões da cidade. Entre os projetos apresentados durante a Press Trip estão estruturas culturais, espaços para eventos e mudanças na configuração de áreas de lazer.

No Centro Histórico, está prevista a implantação de um novo centro de convenções com capacidade estimada em 1.700 pessoas. Na Boca do Rio, a Arena Multiuso Antônio Balbino, o Balbinão, também integra os projetos apresentados pela cidade.

Em Pituaçu, as mudanças na orla já estão em andamento. A nova configuração inclui a transformação das barracas, que passam a adotar um perfil mais voltado à gastronomia e aos serviços. A proposta é ampliar a oferta para quem frequenta a região e criar novos espaços de convivência e consumo para moradores e visitantes. 

A estratégia apresentada pela cidade é ampliar o número de atrações disponíveis e criar experiências que possam ser incorporadas aos roteiros turísticos durante todo o ano.


*O M&E viaja com proteção GTA