São Paulo aposta em roteiros regionais para integrar 284 cidades turísticas
Andrea Matarazzo, Fábio Godinho, Alessandro Azzoni, Ana Biselli Aidar e Virgílio Nelson da Silva Carvalho (Edu Guimarães/ACSP)

O Governo de São Paulo quer mudar a forma como o Estado comercializa seus destinos turísticos. Em vez de apresentar individualmente as 284 cidades classificadas como estâncias ou municípios de interesse turístico, a Secretaria de Turismo e Viagens de São Paulo (Setur-SP) trabalha na criação de 10 a 12 roteiros regionais, reunindo destinos próximos e com diferentes atrativos em produtos turísticos integrados.

A proposta foi apresentada nesta quarta-feira (7) pela secretária de Turismo e Viagens de São Paulo, Ana Biselli Aidar, durante encontro do Núcleo de Turismo do Conselho de Política Urbana e Meio Ambiente (CPMU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A ideia, segundo a secretária, não é concentrar a promoção em apenas algumas cidades, mas fazer com que todos os municípios estejam inseridos em algum dos roteiros.

Para Ana, a mudança parte da necessidade de simplificar a oferta turística paulista. Em vez de o visitante se deparar com centenas de municípios e precisar escolher individualmente onde ir, a estratégia é apresentar conjuntos de destinos com identidade própria.

A secretária resume a proposta como a possibilidade de “vender e estruturar de 10 a 12 destinos”. Um dos exemplos citados é a Serra da Mantiqueira, que poderia integrar São Bento do Sapucaí, Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal em um mesmo produto. Outra possibilidade é o roteiro “fé, serra e mar”, conectando Aparecida a destinos de montanha e do litoral.

A estratégia ocorre em um momento de expansão da atividade turística no Estado. Pelas projeções da Setur-SP, o turismo deve movimentar R$ 369,4 bilhões em São Paulo em 2026, o equivalente a 9,9% do PIB estadual. O setor deve ainda responder por cerca de 1 milhão de empregos diretos e receber 52,8 milhões de visitantes.

Apesar do tamanho da atividade, a maior parte do fluxo permanece concentrada na capital. A regionalização, portanto, aparece como uma das frentes da secretaria para ampliar a distribuição dos visitantes e estimular maior permanência nos destinos do interior.

Mais critério para recursos

Para tirar o projeto do papel, a Setur-SP pretende revisar mecanismos já utilizados na política estadual de turismo. Um deles é o Dadetur, departamento responsável pelo repasse de recursos às estâncias e aos municípios de interesse turístico.

A proposta é considerar, na definição dos repasses, não apenas a classificação dos municípios, mas também a existência de planos municipais e regionais e a capacidade de execução das prefeituras. O objetivo é aproximar a aplicação dos recursos do planejamento turístico de cada território.

A secretaria também pretende ampliar o uso de dados para entender o comportamento dos visitantes. O Centro de Inteligência da Economia do Turismo (CIET) deverá incorporar informações de telefonia móvel para mapear deslocamentos e identificar como os turistas circulam pelo Estado.

A ferramenta poderá ajudar a Setur-SP a entender quais municípios funcionam como portas de entrada, quais são combinados em uma mesma viagem e como os fluxos se distribuem entre diferentes regiões. A estratégia inclui ainda investimentos em turismo náutico e a consolidação de produtos associados a diferentes vocações do Estado. Atualmente, 13 estruturas náuticas estão em operação, entre píeres, rampas e plataformas, enquanto outras 22 estão previstas para o próximo ciclo.

Também estão no radar as rotas temáticas de vinho, café, cachaça, queijo e cerveja. Governança é outro ponto em discussão. A Setur-SP trata com a Casa Civil da organização dos distritos turísticos, que dependem da articulação entre prefeituras, diferentes secretarias e investidores privados.

“Não dá para fazer turismo sem o privado e não dá para fazer turismo sem o público”, afirmou Ana.

A secretária também defendeu uma mudança nos indicadores utilizados para avaliar a atividade. Além do número de visitantes, a pasta quer acompanhar o tempo de permanência, o gasto realizado nos destinos e os impactos sobre a qualidade de vida da população local.

Setor privado cobra continuidade

O debate promovido pela ACSP também levou a discussão para o cenário nacional. Fábio Godinho, que já comandou CVC Corp, GJP Hotels & Resorts e Webjet Linhas Aéreas, apresentou uma avaliação sobre o espaço ocupado pelo turismo na economia brasileira.

Segundo dados do World Travel & Tourism Council (WTTC), viagens e turismo representaram 7,7% do PIB brasileiro em 2025, abaixo da média mundial, próxima de 10%.

“O nosso potencial ainda está muito aquém da média mundial”, afirmou Godinho.

O executivo também avaliou o recorde de entrada de turistas internacionais registrado pelo Brasil. Em 2025, o país recebeu 9 milhões de estrangeiros, maior marca da série histórica da Embratur. Desse total, 3,1 milhões eram argentinos, fluxo impulsionado pela vantagem cambial, considerada por Godinho um fator conjuntural.

Na avaliação do executivo, o principal desafio está na falta de continuidade das políticas públicas voltadas ao turismo. Como alternativa, ele apresentou na ACSP uma proposta própria de plano decenal para o setor, sem vínculo com o governo.

O projeto prevê R$ 217 bilhões em investimentos em infraestrutura urbana, segurança, portos e cruzeiros, aeroportos, conectividade aérea e promoção internacional. A meta é elevar a entrada de estrangeiros no país para 22 milhões e aumentar a participação do turismo no PIB de 7,7% para 13% até 2036.

Enquanto São Paulo discute como organizar sua oferta turística e distribuir melhor os visitantes entre os municípios, a avaliação apresentada pelo setor privado aponta para a necessidade de uma estratégia de longo prazo em escala nacional. Em comum, as duas propostas colocam integração, infraestrutura e continuidade das políticas públicas no centro da discussão sobre o próximo ciclo de crescimento do turismo.