
E se o Brasil passasse a enxergar o turismo não apenas como uma atividade econômica, mas como uma das grandes alavancas de desenvolvimento do país? Vinícius Lummertz, ex-ministro do Turismo e ex-presidente da Embratur, defende uma agenda capaz de transformar viagens em investimentos, conectividade e empregos em todas as regiões brasileiras. À frente da LG-17, holding familiar da qual é presidente, e atuando como conselheiro de empresas nos setores de turismo, finanças, mercado imobiliário e serviços aeroportuários, ele propõe uma visão mais ampla e estratégica para o setor, com potencial para contribuir ainda mais com o crescimento do Brasil.
Confira a entrevista exclusiva sobre o turismo do Brasil:
MERCADO & EVENTOS – O Brasil vive um momento de crescimento na chegada de turistas internacionais. Como transformar esse avanço em resultados duradouros para a economia?
Vinícius Lummertz – O crescimento do turismo brasileiro é muito bem-vindo. Mas precisamos olhar para a velocidade do mundo. Nas projeções divulgadas pelo WTTC em 2025, a contribuição do turismo à economia brasileira cresceria 1,7% ao ano até 2035, contra 3,5% no mundo. Aproximadamente metade. É um alerta: podemos crescer e perder participação. Precisamos buscar, pelo menos, a média mundial.
Em natureza e aventura, devemos superar essa média. Vejo no patrimônio ambiental brasileiro um potencial turístico de liderança planetária. Nossa cultura multiplica essa força, com música, gastronomia, arquitetura, festas e diversidade. Estamos diante de uma megatendência global. A projeção mais recente do WTTC aponta quase 89 milhões de empregos adicionais em turismo e viagens até 2036. Como plataforma de desenvolvimento, o turismo funciona como um delivery de empregos pelo território. O mercado doméstico dá sustentação e escala; o internacional amplia mercados, traz divisas e nos conecta ao mundo.
M&E – O que ainda impede o Brasil de se consolidar entre os principais destinos turísticos do mundo?
Vinícius Lummertz – O turismo brasileiro cresce morro acima. Custos, burocracia e desencontros entre infraestrutura e investimentos seguram o setor. Imagine o que poderíamos fazer colocando esse crescimento em terreno plano. A segurança é fundamental. O visitante precisa estar seguro e sentir que pode caminhar e aproveitar o destino com tranquilidade. Gramado e os polos turísticos de Santa Catarina mostram o valor dessa experiência. Precisamos melhorar conexões, acessos, saneamento e atendimento. O investidor enfrenta crédito caro, licenciamento imprevisível e exigências sobrepostas. Quem pretende construir uma marina, um porto turístico, um parque ou um resort precisa conhecer regras e prazos, com segurança jurídica depois da obra concluída. O que é bom para o morador é bom para o turista. Mas o caminho inverso também existe: investimentos em segurança, infraestrutura e serviços para o turismo podem melhorar a vida dos habitantes e ampliar suas opções de comércio, cultura e lazer.
M&E – Como ampliar a presença do Brasil nos mercados internacionais sem perder oportunidades na América Latina?
Vinícius Lummertz – Cada mercado precisa de uma estratégia. A América Latina favorece proximidade e viagens frequentes. Estados Unidos, Europa e China oferecem outras possibilidades de permanência, consumo, negócios e investimentos. E o brasileiro precisa ter mais condições de conhecer seu país. Temos uma vantagem pouco aproveitada: a simpatia pelo Brasil. Veja a torcida pela seleção em Bangladesh e em Kerala, na Índia. Pessoas que nunca vieram aqui vestem nossa camisa. Isso é soft power: capacidade de atrair e construir vínculos. Nossas novelas já tiveram grande força nessa projeção. Precisamos ampliar esse alcance com filmes e séries nas plataformas internacionais. O cinema americano projetou paisagens, cidades e modos de vida por um século. Produções turcas, espanholas e argentinas mostram o valor desse caminho. Temos histórias fantásticas. Precisamos formar e valorizar roteiristas, desenvolver projetos e canalizar investimentos para contá-las. O Brasil tem conteúdo; precisa projetá-lo. Isso exige alinhar audiovisual, cultura, turismo e comunicação internacional. Podemos fortalecer nossa presença em televisão e plataformas digitais, aprendendo com experiências como a Deutsche Welle, da Alemanha, e a CGTN, da China. Mostrar nossa diversidade com credibilidade amplia uma imagem frequentemente reduzida aos nossos problemas. Mas essa imagem precisa encontrar uma viagem possível. Promoção, conectividade e comercialização devem caminhar juntas.
M&E – Quais segmentos podem gerar maior valor para o país?
Vinícius Lummertz – A combinação entre natureza e cultura é uma das nossas maiores vantagens. O Plano Nacional de Turismo 2024–2027 registra o Brasil em terceiro lugar em recursos naturais e em décimo em recursos culturais. É um patrimônio extraordinário para desenvolver. Defendo o Brasil como país dos parques para o planeta. Conservação, visitação e oportunidades para as comunidades podem integrar uma estratégia territorial. Foz do Iguaçu mostra essa força. Temos possibilidades nos Lençóis Maranhenses, no Jalapão e em tantas regiões. Precisamos ampliar parques temáticos, marinas, portos turísticos, hotelaria internacional e resorts. Esses empreendimentos estruturam destinos e criam mercado para fornecedores e pequenos negócios.
Defendo resorts integrados com cassinos, sob regulação rigorosa, reunindo hospedagem, congressos, comércio e espetáculos, como em Singapura. O objetivo é investimento produtivo e emprego, com prevenção dos danos associados ao jogo. E a cultura precisa estar nessa estratégia. Um festival, um centro histórico ou uma experiência gastronômica pode ser a razão principal da viagem.
M&E – Qual deveria ser a prioridade para o Brasil dar um salto de competitividade no turismo?
Vinícius Lummertz – Melhorar o ambiente de negócios e executar um plano nacional de conectividade aérea. Eliminar gargalos é a prioridade; fazer as partes avançarem juntas é o método. A indústria de viagens viabiliza muitas outras atividades. É uma indústria de competitividade e logística. Por isso, defendo menos impostos e regulação mais simples e flexível. Precisamos considerar o que ela entrega à economia inteira.
O mesmo voo leva o turista, o empresário, o estudante e quem procura atendimento médico. A aviação também movimenta cargas de valor agregado. Com nossas distâncias, rodovias de qualidade desigual e transporte ferroviário de passageiros limitado, ela precisa ser estratégica.
Defendo retirar restrições à cabotagem aérea, começando pelo Norte e Nordeste, permitindo que companhias estrangeiras transportem passageiros entre destinos brasileiros em continuidade a voos internacionais. Essa abertura deve vir com medidas de competitividade para as empresas nacionais, reduzindo desvantagens tributárias, regulatórias e de custos. Abrir mercados exige condições para operar e investir. O capital precisa encontrar razões para vir e permanecer.
M&E – Recentemente, em uma palestra na Turquia, o senhor citou os ecossistemas turísticos. O que são e por que o Brasil precisa desenvolvê-los?
Vinícius Lummertz – Pense num território em que aeroporto, hotelaria, universidade, hospital, comércio, cultura e tecnologia tornam uns aos outros mais fortes. A universidade atrai estudantes e congressos. O centro médico movimenta hospedagem e serviços. Gastronomia, eventos e atrações fortalecem o conjunto. É essa visão multissetorial que precisamos trazer para as decisões. Turismo e viagens, o travel and tourism, integram uma economia do visitante, a visitor economy, que alcança muitos setores. Quando essas relações se aprofundam, surgem fornecedores, especializações e empresas. É o adensamento das cadeias produtivas: mais atividades se conectam e mais valor permanece na região. Gramado mostra essa integração. Por isso insisto na simultaneidade. Não faz sentido o hotel esperar o acesso, o acesso esperar a demanda e a demanda esperar o hotel. Infraestrutura, negócios, formação e promoção precisam avançar juntos.
M&E – Ainda falando sobre o evento da Aliança dos Municípios Turísticos da Rota da Seda, em Istambul, qual foi a mensagem central de sua apresentação?
Vinícius Lummertz – Sobre o evento que você cita, trata-se da Aliança dos Municípios Turísticos da Rota da Seda, da qual sou membro fundador e de que Foz do Iguaçu participa. São 89 cidades de 38 países. Lá, expliquei que ecossistemas turísticos aceleram o desenvolvimento, mas possuir patrimônio não significa estar preparado para receber investimentos. Vamos analisar os fatos.
A Europa consolidou destinos ao longo de décadas. Hoje, polos da China e do Oriente Médio aceleram esse processo com planejamento e investimentos coordenados. Em Jingdezhen, Chengdu e Lijiang, observei a integração entre cultura, infraestrutura, negócios e serviços. Há também um desafio de distribuição. Destinos europeus enfrentam o overtourism: a concentração de visitantes pressiona a infraestrutura e a vida dos moradores. Precisamos desenvolver alternativas e distribuir melhor os fluxos. A cooperação entre cidades pode ajudar — e aí existe uma oportunidade para o Brasil.
O mundo ficou pequeno para um desejo de viajar que cresceu tanto. Temos espaço para novos destinos, preparados para receber visitantes e investimentos e beneficiar a população local.
M&E – O que o turismo pode aprender com o agronegócio brasileiro?
Vinícius Lummertz – A transformar vantagem natural em conhecimento, produtividade e presença internacional. O agro não chegou à sua posição apenas porque temos terra e clima. Houve pesquisa, tecnologia, financiamento, empreendedorismo e continuidade. A Embrapa é uma referência.
No turismo, precisamos de inteligência de mercado, formação, inovação, crédito e projetos preparados. O Plano Safra 2025/2026 anunciou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial; o Fungetur disponibilizou R$ 928 milhões em 2025. São instrumentos distintos, e o Fungetur não representa todo o crédito turístico. A comparação ajuda a discutir nossa ambição.
O agro internacionalizou suas cadeias. No turismo, essa integração está aquém do potencial. A presença de bandeiras internacionais de hotéis é um exemplo: podemos atrair mais redes, operadores e investidores, conectando destinos e fornecedores aos mercados globais. Uma bandeira pode trazer marca, distribuição, padrões de gestão e clientes. Para atrair essa estrutura, precisamos oferecer projetos viáveis e segurança para operar.
Tecnologia e inteligência artificial ajudam a melhorar a gestão, personalizar serviços e levar pequenos negócios a novos mercados. Funções vão mudar, mas a eficiência também permite ampliar atividades e oportunidades. Precisamos preparar as pessoas para isso.
M&E – Na sua visão, o que precisa mudar na Embratur, no Ministério e na representação do turismo?
Vinícius Lummertz – Precisamos de continuidade, recursos e execução. Mudanças frequentes no comando do Ministério e interrupções das ações prejudicam o Plano Nacional de Turismo. Cada gestão deve avançar sobre o que foi construído. Não podemos recomeçar toda hora. O plano precisa estar ligado a investimentos, metas e medidas concretas. Quais projetos serão executados? Com quais recursos? Quem responde pelas entregas e em que prazo? Deve organizar uma carteira de investimentos e as mudanças para destravá-los. O Ministério precisa de orçamento e força de coordenação com transportes, meio ambiente, cultura, educação e desenvolvimento econômico. As emendas parlamentares devem integrar essa estratégia.
Na Embratur, precisamos consolidar autonomia operacional e orçamentária, financiamento permanente, gestão profissional e participação do setor produtivo. Trabalhei pelo projeto inicial de transformação da instituição em serviço social autônomo no governo Temer e pela busca de financiamento. O revogaço e o avanço da Lei de Liberdade Econômica devem integrar essa agenda. E o trade precisa unificar prioridades. A União Nacional do Turismo que proponho é um movimento para assumir compromissos e cobrar continuidade e resultados.
M&E – Como o turismo pode mudar a escala do desenvolvimento do Brasil?
Vinícius Lummertz -Entendendo que viajar é uma conquista civilizatória, individual e coletiva. Amplia repertórios, aproxima sociedades e pode fortalecer a tolerância e o entendimento. Conrad Nicholson Hilton, fundador da rede Hilton, acreditava na capacidade das viagens e do comércio internacional de promover a paz. Essa ideia continua atual. Aviação e tecnologia ampliaram o acesso. À medida que bens duráveis se tornam mais acessíveis, muitas famílias abrem espaço para experiências. A viagem ganha valor como memória, aprendizado e convivência. Nas redes sociais, é compartilhada e revisitada; integra a maneira como as pessoas contam a própria vida. A pandemia mostrou como essa circulação pode ser interrompida. Guerras também fecham destinos e alteram rotas. O Brasil tem uma vantagem relativa: estamos afastados dos principais focos de conflito armado internacional. Isso amplia nossa oportunidade de atrair visitantes e investimentos.
Os obstáculos estão aqui dentro: violência, sensação de insegurança, infraestrutura insuficiente, burocracia e custos. São problemas sobre os quais podemos agir. Caminhar com tranquilidade numa capital brasileira deve ser cotidiano para moradores e visitantes.
Foi essa visão que desenvolvi no livro Brasil: Potência Mundial do Turismo, que escrevi e organizei. Temos patrimônio, empreendedores e demanda. Com planejamento, segurança e execução, o turismo pode ser uma plataforma de desenvolvimento do país. Reconhecer outras identidades fortalece as relações humanas e abre caminhos de entendimento e de paz. O turismo pode fazer muito mais pelo Brasil ; é preciso deixar o turismo trabalhar .







