
SÃO PAULO – Logo após a cerimônia de abertura da WTM Latin America 2025, uma roda de conversa especial reuniu grandes nomes do carnaval brasileiro para discutir o samba como uma potente ferramenta de inovação, resistência e inclusão. O encontro, mediado por Milton Cunha, contou com a participação das presidentes Angelina Basilio (Rosas de Ouro) e Solange Cruz (Mocidade Alegre), além da pesquisadora Cláudia Alexandre, autora do premiado livro Exu, Mulher.
Milton abriu a conversa com uma fala emocionante e repleta de contexto histórico, relacionando a origem do samba com a força criativa das periferias brasileiras no início do século XX.
“O samba é um valor cultural do povo brasileiro. Numa feira que trabalha o turismo, a inteligência artificial, o encontro humano, o samba é perfeito para essa abertura. Por quê? Rio de Janeiro, 1900. O povo periférico da cidade, a negritude, o povo nordestino, essa periferia estava jogada à própria sorte. Ela tinha que lutar para encontrar o seu lugar no mundo. A partir disso, os periféricos, não tendo dinheiro para ir ao lazer do centro da cidade, banho de mar à fantasia, bailes de carnaval glamurosíssimos, esse povo periférico ficou nos seus barracos e do limão fez a limonada. Eles criaram o seu próprio divertimento, que era o quê? O batuque. Batucando, eles criaram os grêmios recreativos escola de samba. Eles não sabiam que estavam inaugurando a grande trajetória centenária do tambor, que iria se transformar na maior vitrine cultural do Brasil para o mundo.”
Durante o bate-papo, Cláudia Alexandre destacou o papel histórico das escolas de samba como territórios de resistência e ancestralidade negra. “As escolas de samba são territórios negros, assim como os terrenos de Candomblé, como os terrenos da Capoeira, do Maracatu, de tantas expressões vindas desse povo negro que ainda persistem e resistem.”
Ela também exaltou o papel feminino na sustentação dessas estruturas comunitárias. “As mulheres ocupam uma posição central no grêmio recreativo escola de samba. Elas são a ligação do ancestral com o povo de hoje. A mulher carrega o mistério. É em volta dela que se dá a escola de samba.”
Já Solange Cruz, presidente da Mocidade Alegre, ressaltou a importância da presença das escolas de samba em espaços como a WTM. “É uma honra estar participando com vocês, sair um pouco da nossa caixinha para estar aqui conversando com quem sabe futuros parceiros para essa tecnologia do carnaval de São Paulo ainda há de crescer cada vez mais.”
Angelina Basilio, presidente da Rosas de Ouro, celebrou a vitória recente no Carnaval 2025. “Sou uma mulher branca, presidente da Sociedade Rosas de Ouro, atual campeã do Carnaval. Apesar da Sociedade Rosas de Ouro ter 8 títulos no grupo especial, eu participei de todos.”
O encontro mostrou como o samba, mais do que uma manifestação artística, é uma tecnologia social desenvolvida por mãos negras e periféricas, com uma proposta de mundo onde todos cabem — e onde a alegria também é resistência. “A escola de samba é uma ferramenta humana para fazer a vida ser mais bonita”, resumiu Milton Cunha.
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