
O debate sobre o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para folgar um, voltou ao centro da agenda nacional após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) propostas que tratam da redução da jornada de trabalho e da revisão do regime atual. Embora a discussão ainda esteja em fase inicial no Congresso, seus possíveis efeitos já acendem um sinal de alerta em setores altamente dependentes de mão de obra, como turismo e hotelaria.
As propostas reunidas incluem duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs), apresentadas pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Ambas defendem a limitação da jornada a 36 horas semanais, com possibilidade de reorganização do modelo de descanso hoje predominante. O avanço do tema ocorre em meio à mobilização de centrais sindicais, à resistência de parte do setor empresarial e ao esforço do Congresso para se associar a pautas de forte apelo social às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.
Um setor que funciona todos os dias
No turismo, a discussão ganha contornos específicos. Hotéis, resorts, parques temáticos, cruzeiros, bares, restaurantes, empresas de receptivo e transporte turístico operam sete dias por semana, muitas vezes em regime contínuo. Por isso, a escala 6×1 se consolidou historicamente como padrão, especialmente em áreas operacionais como recepção, governança, alimentos e bebidas, cozinha e manutenção.
Caso as propostas avancem para modelos que garantam mais dias de descanso consecutivos, o setor poderá enfrentar desafios relevantes, como a reestruturação de turnos, o aumento de custos e a necessidade de ampliação de equipes. O impacto tende a ser ainda mais sensível para pequenas e médias empresas, que já convivem com margens apertadas, forte sazonalidade e dificuldades na contratação de mão de obra.
Hotéis que já mudaram a escala
Mesmo antes de qualquer definição legal, parte da hotelaria brasileira já começou a testar novos formatos de jornada, antecipando tendências e conectando a discussão à gestão de pessoas e à agenda ESG.
Um dos casos mais emblemáticos é o Palácio Tangará, hotel de luxo localizado na zona sul de São Paulo, que anunciou a adoção da escala 5×2 para toda a operação, substituindo o antigo modelo 6×1. A mudança, segundo informações divulgadas, representa um investimento anual relevante, tratado pela empresa como estratégico, com foco em retenção de talentos, saúde mental e melhoria do clima organizacional.
Outro exemplo é o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, que implementou a escala 5×2 para cerca de 90% dos funcionários após décadas operando no formato tradicional. A decisão foi apresentada como resposta direta à dificuldade de atração e retenção de mão de obra e à busca por maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Redes como Blue Tree Hotels e Hplus Hotelaria também já adotaram ou testam modelos alternativos de escala em diferentes unidades, reforçando a percepção de que a revisão da jornada deixou de ser uma exceção e começa a se consolidar como tendência no setor.
ESG e o “S” que ganha protagonismo
Embora a agenda ESG no turismo historicamente tenha maior foco em ações ambientais, como eficiência energética e redução de resíduos, o debate sobre jornada de trabalho fortalece o pilar social, cada vez mais observado por investidores, clientes corporativos e parceiros internacionais.
Medidas como a ampliação dos dias de descanso, jornadas mais equilibradas, políticas de bem-estar e saúde ocupacional e a redução do desgaste físico e emocional passam a ser entendidas como indicadores concretos de sustentabilidade, especialmente em um setor intensivo em serviço e relacionamento humano.
Nesse contexto, a revisão da escala deixa de ser apenas uma discussão trabalhista e passa a integrar decisões estratégicas ligadas à governança, à reputação e à competitividade das empresas do setor.
Reflexos na experiência do turista
Na prática, os impactos da mudança de escala vão além da área de recursos humanos. Funcionários mais descansados tendem a oferecer um atendimento mais atento, empático e consistente, elemento-chave para a experiência do hóspede e do turista. Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual serviço e hospitalidade são diferenciais decisivos, o bem-estar das equipes passa a ser percebido como parte integrante do próprio produto turístico.
Cautela e transição
Ao mesmo tempo, entidades empresariais defendem cautela na condução do debate. A avaliação é que alterações abruptas na legislação podem pressionar custos e comprometer a competitividade, especialmente em destinos com menor fluxo turístico ou com escassez de mão de obra qualificada. Por isso, o setor acompanha a tramitação das propostas defendendo flexibilidade, negociação coletiva e períodos de transição que respeitem as particularidades regionais e a forte sazonalidade do turismo brasileiro.
Mais do que uma pauta trabalhista
Com o avanço do tema no Congresso e a crescente valorização de práticas ESG, a discussão sobre o fim da escala 6×1 deixa de ser apenas uma questão trabalhista e ganha contornos estruturais para toda a cadeia do turismo. Para hotéis, bares, restaurantes, operadoras e empresas de serviços turísticos, o debate já se desloca do “se” para o “como”: como adaptar operações, custos e cultura organizacional a um modelo de trabalho mais equilibrado, eficiente e sustentável no longo prazo.







