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Gloria Guevara, presidente e CEO do WTTC, e The Rt. Hon. Justin Trudeau, ex-primeiro-ministro do Canadá, durante o painel “How To Shape The Opportunity Ahead”, no WTTC Global Summit 2026, em Malta

VALETA, MALTA – As escolhas de viagem não dependem apenas de paisagens, atrações ou preços. A forma como um país recebe visitantes, sua reputação internacional e até as relações políticas com outras nações podem influenciar a decisão de quem viaja. O alerta foi feito por The Rt. Hon. Justin Trudeau, ex-primeiro-ministro do Canadá, durante o painel How To Shape The Opportunity Ahead, realizado no segundo e último dia do WTTC Global Summit 2026, nesta sexta-feira (09), em Malta, ao lado de Gloria Guevara, presidente e CEO do Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

Ao abordar os efeitos das tensões entre governos sobre o comportamento dos viajantes, Trudeau citou a queda no fluxo de canadenses para os Estados Unidos em meio ao desgaste da relação entre os dois países. Segundo ele, mesmo com reduções de preços promovidas por empresas do setor para tentar recuperar a demanda, muitos canadenses continuaram escolhendo outros destinos.

“Há sempre escolhas a fazer. E não se trata apenas de paisagens, preços ou de quanto custa um lugar, mas também da reputação e de como as pessoas se sentem em relação a um destino”, afirmou Trudeau durante a conversa.

O ex-premiê destacou que a decisão de viajar também passa pela percepção de acolhimento. Na avaliação dele, quando um país deseja atrair visitantes e os recursos que eles movimentam, precisa demonstrar abertura ao mundo de maneira consistente, não apenas por meio de campanhas de promoção, mas também pela forma como se posiciona e recebe pessoas de outras nacionalidades.

O tema tem implicações diretas para destinos, companhias aéreas, hotéis, operadoras, agências de viagens e demais empresas da cadeia turística. A percepção sobre um país pode influenciar a demanda, enquanto mudanças no comportamento dos viajantes afetam reservas, rotas, ocupação e a distribuição dos gastos turísticos entre diferentes mercados.

Turismo como resposta ao isolamento

Para Trudeau, o papel do Turismo vai além da movimentação econômica. Em um cenário no qual governos e sociedades podem se tornar mais fechados ao contato com outros países, viajar ajuda a aproximar pessoas, ampliar perspectivas e desenvolver empatia.

O ex-primeiro-ministro relembrou experiências profissionais que teve antes de entrar na política, incluindo trabalhos em acampamentos, como guia de rafting e em restaurantes. Para ele, essas vivências contribuíram para desenvolver habilidades de relacionamento, resolução de conflitos e convivência com pessoas diferentes, competências que também fazem parte da formação de profissionais do Turismo e da hospitalidade.

“Esses são os instintos que as pessoas precisam desenvolver”, disse, ao defender a importância de conhecer outras culturas, manter a curiosidade e estar aberto às diferenças.

Ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau diz que tensões políticas influenciam escolhas de destinos turísticos
O debate abordou o impacto das relações internacionais nas viagens, a importância da confiança e o papel do Turismo na aproximação entre países e culturas

A reflexão também se conecta ao mercado de trabalho. Além de gerar empregos em diferentes níveis de qualificação, o Turismo pode oferecer aos jovens experiências práticas de comunicação, negociação e atendimento que contribuem para sua formação profissional e pessoal.

Trudeau também defendeu que o setor tenha mais espaço nas discussões econômicas e estratégicas dos governos. Embora líderes políticos frequentemente conheçam atrações e destinos de seus países, afirmou, o Turismo nem sempre recebe a mesma atenção de outras atividades econômicas quando são definidas prioridades de investimento e políticas públicas.

Relações pessoais também fazem negócios turísticos

Outro ponto central da conversa foi a importância da confiança para construir parcerias duradouras. Com a experiência de quem participou de reuniões do G7, do G20 e de negociações internacionais, Trudeau afirmou que relações pessoais podem ajudar a superar barreiras políticas, institucionais e comerciais.

“Construir conexões pessoais com pessoas da sua indústria e de diferentes setores importa mais do que quase qualquer outra coisa”, afirmou.

Ele lembrou que, durante seu período no governo, conversas diretas com outros líderes foram especialmente importantes em momentos de incerteza, como a pandemia de Covid-19. Em situações sem precedentes, a possibilidade de trocar experiências com pessoas que enfrentavam desafios semelhantes ajudava a discutir caminhos e a compreender diferentes perspectivas.

Essa lógica, segundo Trudeau, também vale para as empresas. Hotéis, companhias aéreas, operadores e outros negócios podem encontrar oportunidades ao conversar com parceiros de outros segmentos, identificar objetivos em comum e construir relações de confiança.

Para ele, os encontros presenciais continuam tendo um papel importante mesmo com os avanços da inteligência artificial e das ferramentas digitais. “Não há substituto para realmente encontrar alguém, conectar-se, compartilhar histórias e estar no mesmo espaço físico”, destacou.

A afirmação reforça a relevância de feiras, congressos e encontros internacionais para além da programação oficial. Além de apresentar produtos e discutir tendências, esses eventos criam oportunidades para conversas informais que podem dar origem a parcerias, negócios e projetos conjuntos.

Um exemplo de como a política pode abrir caminhos

Trudeau também relembrou uma decisão tomada no início de seu mandato, em 2015, quando buscou reverter a exigência de visto para cidadãos mexicanos que viajavam ao Canadá, implementada pelo governo anterior. A mudança, segundo ele, ajudou a reduzir tensões com o México e contribuiu para construir uma relação de cooperação entre os dois países.

Essa aproximação se mostrou útil alguns anos depois, durante as negociações para a revisão do acordo comercial da América do Norte. O episódio foi apresentado como exemplo de como a construção de confiança entre governos pode gerar efeitos que vão além de uma questão específica e contribuir para relações mais amplas.

Ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau diz que tensões políticas influenciam escolhas de destinos turísticos
Justin Trudeau, ex-Primeiro Ministro do Canadá

A mensagem para o Turismo é que a conectividade entre países não se resume à oferta de voos ou à infraestrutura de transporte. A facilidade de viajar, as políticas de entrada, a cooperação entre governos e a percepção de segurança e acolhimento também integram a experiência do visitante.

O legado vai além da popularidade

Questionado sobre liderança e legado, Trudeau afirmou que governar exige tomar decisões difíceis, mesmo quando elas podem reduzir a popularidade de um líder. Para ele, o objetivo deve ser implementar medidas capazes de produzir resultados duradouros, e não apenas preservar índices de aprovação.

Como exemplo de uma iniciativa de seu governo da qual se orgulha, citou a expansão do acesso a creches por C$ 10 por dia no Canadá. Segundo Trudeau, a política beneficia as crianças e as famílias e também tem efeitos econômicos, ao ampliar as condições para que os pais participem do mercado de trabalho e fortalecer o setor de educação infantil.

Ele também mencionou a desinformação como um dos principais desafios enfrentados, especialmente durante a pandemia, pela forma como informações falsas contribuíram para divisões sociais e colocaram a confiança nas instituições sob pressão.

Ao final, deixou uma recomendação aos líderes do Turismo: fortalecer a defesa do setor junto aos governos e demonstrar sua contribuição para a economia e para a sociedade. Para Trudeau, a capacidade de gerar empregos, conectar culturas e construir relações internacionais precisa estar mais presente nas decisões estratégicas dos países.

Ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau diz que tensões políticas influenciam escolhas de destinos turísticos
Gloria Guevara, presidente e CEO do WTTC

Antes de finalizar o painel, Gloria Guevara fez um apela ao estadista: que ele defenda, sempre que possível, em suas relações pessoais com líderes globais, a importância de colocar a pauta turística como um prioridade de governos, como uma atividade economica de relevância, e não apenas como uma programação secundária.

E, para quem pretende conhecer o Canadá, o ex-primeiro-ministro fez uma recomendação pessoal: Montreal, sua cidade natal. Ele destacou a cena gastronômica, a arte e os festivais que movimentam o verão, além da experiência de visitar a cidade durante o inverno. Mas afirmou algo que ouvimos muito de líderes ao redor do planeta: o melhor de um destino, é, na verdade, a sua população. E segundo ele, onde quer que você vá no Canadá, você vai encontrar um canadense, e esse é o grande poder turístico do destino.

A escolha encerrou a conversa com uma mensagem coerente com o argumento central do painel: destinos são feitos de paisagens e atrações, mas também das pessoas, das experiências e das conexões que os viajantes levam consigo.

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