
VALETA, MALTA – A participação dos jovens nas decisões do setor de Viagens e Turismo precisa ir além de programas de estágio e ações pontuais. O caminho passa por oferecer oportunidades reais de carreira, ampliar a presença das novas gerações nos espaços de decisão e incorporar suas perspectivas à construção de um setor mais sustentável. Essa foi a mensagem central do painel Next Gen Reset: The Leaders of Tomorrow, realizado nesta sexta-feira (09), durante o WTTC Global Summit 2026, em Malta.
O encontro reuniu Glenn Micallef, comissário europeu para Equidade Intergeracional, Juventude, Cultura e Esporte; Gloria Guevara, presidente e CEO do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC); e três jovens representantes de uma iniciativa que levou cerca de 100 estudantes de 16 universidades e 40 nacionalidades ao evento, em La Valeta.
Durante a discussão, os participantes apresentaram três recomendações elaboradas a partir das contribuições dos estudantes: criar caminhos para o crescimento profissional e a liderança, fortalecer uma comunidade global de jovens talentos e promover valores compartilhados com foco no desenvolvimento sustentável.
WTTC quer alcançar 100 mil estudantes com iniciativa lançada em Malta
Gloria Guevara anunciou durante o painel a ‘Malta Youth Initiative’, movimento criado para aproximar estudantes e jovens profissionais da indústria global de Viagens e Turismo. A meta apresentada é alcançar 100 mil estudantes em um curto período, ampliando o contato entre as novas gerações e as empresas do setor.
A iniciativa responde a uma das prioridades identificadas pelo WTTC em consultas com mais de 200 CEOs: a força de trabalho. Segundo Gloria, os líderes consultados apontaram a necessidade de encontrar formas mais efetivas de engajar os jovens e mostrar o Turismo como uma oportunidade de carreira.
“Precisamos descobrir como engajar vocês e garantir que enxerguem Viagens e Turismo como uma oportunidade para suas carreiras”, afirmou a executiva, ao defender que os jovens participem das conversas sobre o futuro do setor.
Gloria também destacou a dimensão das oportunidades profissionais que podem surgir. Segundo ela, o Turismo deverá gerar 89 milhões de empregos nos próximos dez anos, em diferentes níveis e áreas de atuação. Para aproveitar esse potencial, afirmou, é necessário ouvir os jovens, trabalhar em conjunto e garantir que tenham espaço nas decisões.
A executiva lembrou ainda que sua própria formação não foi inicialmente ligada ao Turismo: ela estudou engenharia da computação e, posteriormente, direcionou sua carreira para o setor. A experiência foi citada como exemplo da diversidade de trajetórias profissionais possíveis na indústria.
Jovens pedem mais oportunidades de liderança e responsabilidade
A primeira recomendação apresentada no painel, por Yoosef Al Harty, estudante de Omã, foi intitulada Pathways to Grow, Lead and Give Back — caminhos para crescer, liderar e retribuir. A proposta defende que os jovens tenham acesso não apenas à primeira oportunidade profissional, mas também a projetos relevantes, funções de liderança e responsabilidades concretas ao longo da carreira.
Al Harty destacou a importância de criar oportunidades contínuas de aprendizado em diferentes áreas, como destinos, marketing e hotelaria. Também defendeu que o impacto dos programas voltados à juventude seja mensurável, com indicadores como estágios, mentorias, projetos para destinos, parcerias e avanço de jovens para posições de responsabilidade.
A ideia é criar um ciclo no qual profissionais que tenham avançado na carreira possam contribuir com a formação da próxima geração, tornando o desenvolvimento de lideranças uma estrutura contínua, e não uma iniciativa isolada.
Gloria concordou com a importância de estágios e mentorias e apontou a mobilidade internacional como um dos desafios que precisam ser enfrentados. Segundo ela, o WTTC trabalha com empresas e governos para facilitar oportunidades de intercâmbio profissional, incluindo questões relacionadas a vistos de estudantes, estágios e trabalhadores temporários.
A dificuldade de circular entre países ou até mesmo entre diferentes unidades de uma empresa pode limitar o acesso a experiências importantes para o desenvolvimento profissional, observou a executiva.
Formação e mobilidade são essenciais para atrair talentos
A segunda recomendação, apresentada por Jaron Johnston, estudante da California State University Monterey Bay, nos Estados Unidos, propôs a criação de uma comunidade global de jovens profissionais. A ideia é manter as conexões estabelecidas durante o encontro e transformá-las em uma rede de colaboração, aprendizado e mentoria.
Johnston ressaltou que participar de um evento com líderes globais permite aos estudantes acompanhar como as decisões são tomadas e compreender melhor os desafios da indústria.
Para Glenn Micallef, a construção de uma carreira no Turismo depende de oferecer aos jovens uma perspectiva concreta de futuro. Não basta apresentar o setor como uma opção de emprego: é necessário demonstrar que ele permite desenvolver competências, alcançar objetivos profissionais e construir uma trajetória de longo prazo.
“É preciso desenhar o setor conosco. Vocês precisam estar à mesa”, afirmou o comissário europeu, defendendo a participação dos jovens na construção das políticas e estratégias para a indústria.
Micallef também apontou a importância de investir em formação e infraestrutura educacional voltadas às competências exigidas pelo mercado. Como exemplo de mobilidade e troca de experiências, citou o Erasmus+, programa da União Europeia que permite a estudantes vivenciar oportunidades de aprendizado em outros países.
Gloria acrescentou que empresas de hotelaria, companhias aéreas e aeroportos já oferecem programas de treinamento, mas ressaltou a necessidade de tornar essas oportunidades mais conhecidas e acessíveis. Segundo ela, a iniciativa do WTTC também pretende organizar e documentar as possibilidades existentes para facilitar o acesso dos jovens.
A executiva destacou ainda que o Turismo oferece oportunidades de progressão profissional e experiências internacionais, mas reconheceu que é necessário trabalhar com formuladores de políticas públicas para enfrentar as barreiras que ainda limitam a mobilidade.
Sustentabilidade aparece como valor para as novas gerações
A terceira recomendação foi apresentada por Maria Celeste Ticona Alcazar, estudante peruana da ESCP Business School. Com o título Shared Values and Sustainable Growth — valores compartilhados e crescimento sustentável, a proposta defendeu maior alinhamento entre os valores dos jovens e os das organizações do setor.
Segundo Alcazar, as novas gerações querem compreender o futuro da indústria, participar ativamente de sua construção e trabalhar em empresas cujas ambições estejam alinhadas às suas convicções. A estudante ressaltou que a sustentabilidade deve ser vista não apenas como uma responsabilidade, mas também como uma oportunidade de inovação.
Para ela, os jovens precisam ser reconhecidos não somente como os futuros viajantes, mas como agentes de transformação no presente, com voz, responsabilidades e capacidade de influenciar decisões.
A recomendação recebeu apoio de Gloria, que destacou a importância de proteger os recursos naturais dos quais o próprio Turismo depende. A executiva relacionou o tema às prioridades estratégicas do WTTC para o crescimento do setor.
Ao encerrar sua participação, Micallef deixou duas mensagens: aos jovens, pediu que aproveitem a oportunidade para expressar suas perspectivas; às empresas e autoridades, fez um apelo direto para que confiem nas novas gerações e lhes deem espaço para contribuir.
“Confiem nos jovens. Mostrem que acreditam neles”, afirmou.
Turismo precisa ampliar o diálogo entre gerações
A presença de cerca de 100 estudantes de 16 universidades e 40 nacionalidades foi destacada pelos organizadores como parte de um esforço para aproximar os jovens dos principais líderes da indústria. Os participantes foram selecionados para integrar a iniciativa e compartilhar recomendações discutidas coletivamente antes do painel.
As propostas apresentadas apontam para uma mudança na forma como o setor pode se relacionar com as novas gerações: em vez de tratá-las apenas como público consumidor ou futura força de trabalho, incorporá-las à construção de estratégias, à inovação e às decisões sobre o desenvolvimento do Turismo.
Para o WTTC, o desafio agora é transformar as recomendações em oportunidades concretas, ampliando o acesso à formação, à mentoria, à mobilidade e a posições de liderança. A Malta Youth Initiative foi apresentada como o início de um movimento mais amplo de engajamento da juventude na indústria global de Viagens e Turismo.
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