
SÃO PAULO – A CVC Corp está passando por uma transformação que, segundo Fabio Mader, CEO da companhia, vai muito além de uma reestruturação de custos ou de uma mudança pontual de sistemas. A proposta é construir uma “nova CVC”, mais simples, tecnológica, eficiente e preparada para atender o consumidor independentemente do canal pelo qual ele chega à companhia.
Em entrevista ao M&E durante a Abav Expo 2026, Mader afirmou que os três pilares definidos no início de sua gestão — cliente no centro, transformação digital e desalavancagem financeira — continuam orientando a companhia. A diferença é que, ao longo dos últimos meses, a transformação ganhou velocidade e passou a atingir praticamente todas as áreas da empresa.
“Se você pegar departamentos da empresa e falar com o departamento hoje da companhia: ‘Como é que você fazia três meses atrás?’, era completamente diferente. Ou seja, eu não estou falando de janeiro para hoje. Estou falando de três meses para hoje: a empresa é completamente diferente.”
Para o executivo, a CVC entra agora em uma fase de simplificação estrutural, tecnológica e cultural. A meta é reduzir a complexidade operacional e permitir que a companhia invista mais em tecnologia, pessoas e, principalmente, na experiência do cliente.
Três pilares, uma transformação
Embora a estratégia tenha sido organizada em três pilares, Mader afirma que a transformação atual atravessa todos eles. A reestruturação contribui para a eficiência financeira, a tecnologia muda a forma de operar e o cliente permanece como o eixo central.
“O pilar central é o pilar do cliente“.
A proposta, portanto, não é substituir serviço por tecnologia. É utilizar a tecnologia para entregar um serviço melhor e mais eficiente.
“Nós não queremos perder a companhia que entrega o melhor serviço para o cliente de viagens. Esse atributo é nosso, da CVC, esse atributo é nosso da Rextur Advance e esse atributo é nosso na Visual. A Visual traz o atributo de serviço. Nós somos especialistas em cuidar das viagens do nosso cliente, seja corporativo, seja em lazer.”
O desafio, na visão do CEO, é adaptar essa especialidade a um mercado que mudou. O consumidor pode iniciar uma compra pelo site, pela loja física, pelo agente de viagens, por uma plataforma B2B ou até por uma ferramenta de inteligência artificial. Para Mader, o canal é secundário diante da experiência entregue.
“Não importa se o cliente vai comprar no site, não importa se compra no e-commerce, não importa se compra da loja física, não importa se compra do agente de viagem ou se vem através da IA ou através de um algoritmo. O que importa é o cliente: independente de onde ele encontrar, ele sempre vai ter a melhor experiência com a CVC Corp.”
De mais de 100 sistemas para três
Um dos exemplos mais concretos dessa transformação está na tecnologia. A CVC trabalha atualmente com mais de 100 sistemas e pretende chegar a apenas três grandes plataformas: uma para lazer, uma para o Reserva Fácil da consolidação e outra para o mercado corporativo, o OBT.
A simplificação dos sistemas é parte de um processo maior de eliminação de legados e redução de burocracia. Mas Mader também aponta uma segunda transformação, mais difícil de medir: a cultural. A intenção é fazer com que os funcionários passem a trabalhar de maneira diferente à medida que novas ferramentas e processos são incorporados. E essa mudança, segundo o executivo, não terá uma linha de chegada.
“A única certeza que eu tenho é que nós vamos terminar 2027 completamente diferentes do que começamos 2027. Essa é a certeza. Porque daqui a três meses nós vamos estar em mais uma evolução. Daqui a seis meses eu vou estar em outra“.
Na visão de Mader, o papel da liderança será justamente fazer com que as equipes acompanhem essa velocidade.
“Não é que você conseguiu fazer isso. Nós estamos cuidando para que você faça isso melhor e amanhã você vai fazer melhor. E essa é a empresa do futuro”, explicou.
Recuperação judicial nunca esteve no radar
Em meio às mudanças estruturais, Mader também aproveitou a entrevista para afastar especulações que circularam ao longo do ano sobre uma eventual recuperação judicial da CVC.
Segundo o CEO, a hipótese nunca foi discutida internamente. Ele afirma que a companhia tinha recursos para honrar seus compromissos e que o reperfilamento da dívida foi uma oportunidade de melhorar a estrutura financeira, e não uma medida decorrente de uma situação de insolvência.
“Recuperação judicial a companhia nunca, nunca pensou. Não faz sentido. Então a gente nunca discutiu recuperação judicial. Nunca foi pauta”.
O mesmo vale, segundo Mader, para rumores de uma eventual aquisição da CVC. O executivo afirma que a companhia nunca recebeu uma proposta para compra total ou parcial. Como empresa de capital aberto, ele lembra que uma eventual oferta teria de ser comunicada ao mercado e seguir os procedimentos previstos para esse tipo de operação.
“Do nosso lado a gente nunca recebeu nenhuma proposta a respeito de alguém adquirir parte ou total. Nunca foi discutido isso dentro da companhia”, concluiu.
Reestruturação não terminou
Questionado sobre novas mudanças, Mader não trata a reestruturação como um projeto pontual com começo, meio e fim. Para ele, alterações de estrutura serão consequência natural da transformação tecnológica e operacional.
A mudança recente na estrutura internacional é um exemplo. Segundo o CEO, a companhia primeiro precisou estabelecer relações com fornecedores fora do Brasil e agora avança para uma etapa em que precisa voltar a desenvolver produtos, automatizar processos e estar mais próxima dos agentes de viagens. É uma mudança de perfil da organização.
“O que nós esperamos é uma empresa competitiva em preço, uma empresa bastante eficiente e uma empresa que vai ser referência em tecnologia”.
Mader afirma que a CVC pretende atuar no lazer e no corporativo, nos ambientes online e offline, mas mantendo o cliente como centro da estratégia.
Visual e Multimarcas entram na simplificação
A integração da Visual com a Multimarcas também faz parte desse projeto de simplificação da CVC Corp. Questionado sobre a movimentação, Mader afirma que a decisão foi acertada e elimina sobreposições de sistemas, estruturas e equipes.
“Quando a gente uniu os dois ambientes, é parte do processo de simplificação da CVC”.
A estratégia também procura tornar mais clara a arquitetura das marcas para o agente de viagens. De um lado, a companhia busca atrair profissionais interessados em trabalhar com a marca CVC e transformar suas agências em lojas da rede. De outro, mantém soluções para quem prefere atuar de forma multimarca.
A própria CVC passou a investir mais em marketing e relacionamento para mostrar ao agente as vantagens de fazer parte de seu ecossistema, incluindo tecnologia, geração de leads e investimentos de marca.
“Você quer fazer parte desse ambiente legal. Você é super bem-vindo. Não, eu quero ser multimarca, quero trabalhar com várias empresas. Legal. Eu também tenho uma empresa que vai te proporcionar isso e também vai competir com essa empresa, te dando tecnologia e o serviço que o agente de viagens merece”.
Para Mader, o objetivo não é obrigar o agente a escolher um único modelo, mas criar soluções para diferentes perfis profissionais dentro do ecossistema da companhia.
Rextur Advance amplia base e aposta em autonomia
Entre as marcas B2B da CVC Corp., a Rextur Advance continua como um dos principais vetores de crescimento. Mader afirma que a consolidadora manteve o protagonismo no mercado e adicionou cerca de 2 mil novos clientes à base. A expansão é atribuída, principalmente, à tecnologia e à simplificação da entrada de novos agentes na plataforma.
O próximo passo, segundo o CEO, é ampliar a autonomia do profissional. Hoje, a Rextur Advance já permite que o agente faça alterações de viagem pelo WhatsApp, e a empresa pretende avançar para que cada vez mais processos possam ser executados diretamente pelo cliente B2B.
“A gente está investindo muito dinheiro em tecnologia para dar mais autonomia para o agente de viagens, para que ele faça tudo sozinho. Que ele tenha liberdade de fazer no momento que ele quiser”, revelou Mader.
A lógica é transformar a tecnologia em uma ferramenta de produtividade do agente e não apenas em uma vitrine de produtos.
A transformação do agente de viagens
É justamente nesse ponto que a visão de Mader extrapola a própria CVC Corp. Para o executivo, o agente também está diante de uma mudança estrutural provocada pela tecnologia e pela inteligência artificial.
A companhia pretende atuar como parceira desse profissional durante essa transição, oferecendo ferramentas que reduzam tarefas operacionais e permitam que ele se concentre no que considera seu principal diferencial: o atendimento e a construção da viagem.
Nesse cenário, as marcas B2B , especialmente Rextur Advance, mas também as demais empresas do grupo, ganham papel estratégico. A ideia é que tecnologia, produto e serviço sejam combinados para aumentar a autonomia do agente, ao mesmo tempo em que a CVC simplifica sua própria estrutura.
A “nova CVC” desenhada por Mader, portanto, não é apenas uma companhia com menos sistemas ou menos burocracia. É uma empresa que pretende usar tecnologia para preservar e potencializar aquilo que considera seu principal ativo: o serviço. E a transformação, segundo ele, está apenas começando.







