Filas, atrasos e voos vazios: o início turbulento do EES na Europa
Sistema começa com filas de até 3 horas e passageiros impedidos de embarcar (Reprodução/Paris Aéroport)

O primeiro fim de semana após a implementação completa do Entry/Exit System (EES), novo sistema de controle de fronteiras da União Europeia, foi marcado por caos em aeroportos, longas filas e passageiros impedidos de embarcar, revelando os desafios operacionais da nova exigência para viajantes de fora do bloco. Dados iniciais, publicados pela EuroWeeklyNews, apontam que mais de 27 mil viajantes já tiveram a entrada recusada no Espaço Schengen desde o início da operação.

Em vigor desde 10 de abril, o EES substitui o carimbo no passaporte por um registro digital que inclui coleta de dados biométricos, como impressões digitais e reconhecimento facial. A promessa era de mais eficiência e segurança, mas, na prática, os primeiros dias mostraram um cenário bem diferente.

Filas, atrasos e voos sem passageiros

Relatos de diversos aeroportos europeus apontam tempos de espera superiores a três horas nos controles de fronteira. Em hubs importantes como Amsterdã, Bruxelas e Cracóvia, passageiros enfrentaram filas extensas e lentidão no processamento, com impacto direto nas operações aéreas.

Os atrasos foram tão significativos que alguns voos partiram sem passageiros. Em Bruxelas, uma aeronave decolou sem nenhum viajante a bordo no momento do fechamento do portão, enquanto outro voo saiu com dezenas de passageiros ausentes. Já em Milão, mais de 100 pessoas ficaram em terra após não conseguirem completar os procedimentos a tempo.

Casos extremos e prejuízo aos viajantes

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu com um voo da easyJet entre Milão e Manchester. Dos 156 passageiros previstos, apenas 34 conseguiram embarcar. Entre os afetados estava uma família britânica que, mesmo chegando ao aeroporto com três horas de antecedência, perdeu o voo após enfrentar filas e inconsistências no controle de passaportes. Sem alternativas imediatas, eles precisaram gastar mais de £1.600 em uma nova rota, com conexão em Luxemburgo, chegando ao destino com 24 horas de atraso.

Além do impacto financeiro, passageiros relataram situações de exaustão física, com casos de mal-estar durante a espera prolongada.

Suspensões pontuais e improvisos

Diante do acúmulo de passageiros, alguns aeroportos chegaram a suspender temporariamente a aplicação do EES para aliviar as filas. Foi o caso de Lisboa, Porto e Faro, em Portugal, onde o sistema foi interrompido por algumas horas no dia 11 de abril antes de ser retomado.

Mesmo assim, medidas paliativas não foram suficientes para evitar gargalos. Em muitos casos, equipamentos automatizados não estavam sendo plenamente utilizados, enquanto processos manuais aumentavam ainda mais o tempo de atendimento.

EES já registra milhares de recusas de entrada

Além dos impactos operacionais nos aeroportos, os primeiros dados do sistema também começam a revelar seu efeito no controle migratório. Segundo informações da Comissão Europeia, o EES já contabilizou mais de 27 mil recusas de entrada em países do Espaço Schengen.

As negativas foram registradas em diversos destinos, incluindo Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Grécia e Holanda – todos entre os principais pontos de entrada de viajantes de fora da União Europeia.

Ainda de acordo com os dados, mais de 52 milhões de passagens de fronteira foram registradas na fase inicial do sistema. As recusas, no entanto, não são decisões automatizadas: o EES apenas coleta e organiza as informações dos viajantes, que são posteriormente analisadas por agentes de fronteira responsáveis pela decisão final.

Entre os principais motivos para a negativa de entrada estão documentação inválida, falta de comprovação do propósito da viagem, recursos financeiros insuficientes e problemas relacionados a vistos ou permissões.

Pressão do setor aéreo e risco para o turismo

Entidades da aviação e companhias aéreas reagiram rapidamente. Associações do setor defendem maior flexibilidade na aplicação do sistema, incluindo a possibilidade de suspensão total em momentos de congestionamento extremo.

A crítica central é que o tempo estimado de cerca de 70 segundos por passageiro não se confirma na prática, especialmente em períodos de pico. A obrigatoriedade de coleta biométrica completa na primeira entrada e, em alguns casos, repetida de forma indevida, tem ampliado os gargalos.

O cenário preocupa especialmente às vésperas da alta temporada de verão europeu. Para o setor, há risco de danos à imagem da Europa como destino turístico global, além de impactos na aviação e nas viagens corporativas.

Período de adaptação deve continuar

Autoridades europeias já alertavam que a fase inicial exigiria adaptação. A expectativa é que o processo se torne mais ágil após o primeiro registro dos viajantes, quando apenas uma parte dos dados biométricos precisará ser confirmada.

Ainda assim, o início turbulento do EES indica que ajustes operacionais serão necessários no curto prazo para evitar que os problemas se intensifiquem nos próximos meses.

Aplicativo EES pode agilizar o processo

Como alternativa para reduzir o tempo de espera, a União Europeia lançou o aplicativo Travel to Europe, que permite o pré-registro de dados e biometria até 72 horas antes da chegada.

A ferramenta ainda não está disponível em todos os países, mas deve ser expandida gradualmente. Mesmo com o cadastro antecipado, o viajante ainda precisará passar pela verificação presencial na fronteira.

O app pode ser encontrado na App Store ou Google Play.

*Com informações de Independent, The Sun, GCT e The Portugal News