
Viena deu mais um passo para aumentar a arrecadação ligada ao turismo e entrou no centro de um debate que vem ganhando força em diversos destinos europeus. A capital da Áustria decidiu elevar o imposto cobrado sobre hospedagens de 3,2% para 5% desde o início de julho. A medida, porém, não será definitiva. O município já confirmou que a alíquota voltará a subir e chegará a 8% no mesmo período do próximo ano.
Segundo a prefeitura, o objetivo é garantir recursos para manter a qualidade dos serviços públicos diante do crescimento acelerado do número de visitantes. A decisão, no entanto, provocou reação imediata de representantes da hotelaria e das agências de viagens, que afirmam que o aumento pode reduzir a competitividade da cidade em relação a outros destinos europeus.
Crescimento do turismo impulsiona decisão
As autoridades municipais justificam que o turismo exerce uma pressão crescente sobre a infraestrutura urbana, exigindo investimentos em mobilidade, limpeza, segurança, espaços públicos e conservação do patrimônio histórico.
Os números ajudam a explicar a decisão. Dados oficiais do Turismo de Viena mostram que a cidade ultrapassou a marca de 20 milhões de pernoites em 2025, crescimento de aproximadamente 6% em comparação ao ano anterior. Há cerca de duas décadas, esse volume era de 8,8 milhões de hospedagens.
Com a nova alíquota prevista para 2027, Viena passará a ter uma das maiores taxas turísticas da Europa. Apenas Amsterdã, que cobra 12,5% sobre o valor da hospedagem, ficará à frente da capital austríaca nesse ranking.
Uma exceção foi mantida pela legislação municipal. Pessoas que permanecerem hospedadas por mais de três meses consecutivos continuarão isentas da cobrança do imposto turístico.
Setor de turismo critica aumento de impostos
A decisão foi recebida com preocupação por representantes da indústria do turismo. A Associação Austríaca de Hotéis considera que o momento econômico não favorece novos aumentos de impostos.
O porta-voz da entidade, Martin Stanits, afirmou à agência AFP que “matar a galinha dos ovos de ouro não é uma boa ideia”. Segundo ele, as autoridades locais estariam tentando “compensar os seus défices orçamentais à custa do turismo”.
Stanits também argumenta que os hotéis enfrentam uma combinação de custos elevados com energia, alimentação, salários e carga tributária, cenário que reduz a margem financeira das empresas do setor.
As críticas também partiram das agências de viagens. O presidente da Associação Austríaca de Agências de Viagens, Gregor Kadanka, afirmou que a sucessão de novos impostos pode tornar o país menos competitivo no mercado internacional.
Entre as medidas apontadas está a tributação sobre passagens aéreas. Atualmente, a Áustria cobra uma taxa de 12 euros por bilhete, que sobe para 30 euros em voos com distância inferior a 350 quilômetros.
Segundo Kadanka, essa política já produz reflexos na malha aérea. Ele cita o caso da Ryanair, que passou a priorizar operações em Bratislava, capital da Eslováquia, localizada a cerca de 80 quilômetros de Viena.
Na avaliação do dirigente, “Viena está a perder o seu brilho”, enquanto cidades como Praga e Budapeste tendem a ganhar competitividade por aplicarem taxas menores aos visitantes.
Prefeitura afirma que turistas também devem contribuir
O município defende que o aumento da tributação representa uma forma de dividir os custos da manutenção da cidade entre moradores e visitantes.
Em declaração à AFP, Isabella Rauter, assessora de imprensa do gabinete de turismo de Viena, afirmou que “o turismo está a utilizar as infraestruturas de primeira classe da cidade mais do que nunca e também beneficia da sua manutenção e expansão, por isso, é compreensível que contribua com a sua parte”.
Segundo a administração municipal, o imposto também representa um investimento na qualidade do destino turístico e beneficia tanto os visitantes quanto a população local.
Mesmo diante da pressão causada pelo crescimento do turismo, Viena continua figurando entre as cidades com melhor qualidade de vida do mundo. Após liderar por três anos consecutivos o ranking da Economist Intelligence Unit (EIU), caiu para a segunda colocação, atrás apenas de Copenhague. No levantamento da revista Monocle de 2026, aparece na quarta posição, atrás de Tóquio, Copenhague e Lisboa.
Tendência avança por diferentes destinos europeus
O aumento dos impostos em Viena acompanha uma tendência observada em diversos destinos turísticos da Europa, que buscam reduzir os efeitos do turismo de massa e ampliar a arrecadação.
Em Veneza, visitantes que entram na cidade sem pernoitar pagam uma taxa de acesso durante parte do ano. Roma passou a cobrar ingresso para visitar a Fontana di Trevi, enquanto Verona implantou cobrança para acesso à tradicional varanda conhecida como Casa de Julieta.
Barcelona endureceu regras para o aluguel de imóveis destinados ao turismo e também reduziu o número de cruzeiros autorizados a operar na cidade. Paris, Lisboa, Porto e Florença adotaram restrições ao alojamento local e criaram novas normas para a circulação de tuk-tuks.
Fora da Europa, o Japão também ampliou a tributação sobre turistas, elevando a taxa cobrada dos passageiros na saída do país.
As medidas mostram que governos locais buscam equilibrar o crescimento da atividade turística com a preservação da infraestrutura urbana e da qualidade de vida dos moradores. Ao mesmo tempo, representantes do setor alertam que o aumento contínuo dos custos pode influenciar a escolha dos viajantes, favorecendo destinos que mantêm uma carga tributária menor.







