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Agências e Operadoras / Aviação / Destinos

CVC rumo aos 50: transformações e ‘renascimento’ preparam a gigante do turismo para nova fase

Resultados abaixo da expectativa, erros contábeis, ações em queda, renúncia de CEO e futuro incerto em meio aos primeiros impactos da pandemia de Covid-19. Esta era a realidade que fez de março de 2020 um dos períodos mais delicados na trejetória da CVC Corp. A maior empresa de turismo do Brasil enfrentava uma crise administrativa no mesmo momento em que se iniciava a maior crise da história do setor.

O cenário criou incertezas sobre o futuro da companhia e gerou desconfiança não só em acionistas e no mercado, algo que se refletia na queda de mais de 80% no valor das ações no ano, mas também em fornecedores, colaboradores, agentes de viagens e clientes. No fim de maio, a CVC Corp comemorava seu aniversário de 48 anos de maneira não muito agradável, anunciando ao mercado um novo atraso na divulgação dos resultados de 2019 devido a confirmação de erros contábeis nos balanços dos últimos anos.

Hoje, pouco mais de 14 meses do início desta tempestade, a realidade é totalmente oposta. Durante o último ano a companhia passou por uma grande reestruturação, que englobou saída de executivos, mudanças na estrutura interna e ações para o fortalecimento de caixa. O trabalho de resgate da credibilidade e de restruturação da dívida para garantir a continuidade da CVC Corp ocuparam quase que totalmente o primeiro ano de Leonel Andrade como CEO da companhia.

Leonel Andrade, CEO da CVC

Leonel Andrade, CEO da CVC, comandou o processo de reestruturação e transformação da companhia.

“Tivemos que trabalhar em diversas frentes para resgatar a credibilidade da companhia. Primeiro, junto com mercado e reguladores, depois com os investidores. Isso ficou claro com a necessidade de capitalização. Por fim, com os credores, porque tiveram dívidas que precisaram ser renegociadas. Este resgate ocupou muito do meu tempo, e terminamos o ano com tudo em dia e dívida renegociada”, informou o CEO em entrevista recente ao M&E.

Cumprir a primeira etapa deste desafio, no entanto, foi fundamental para que o executivo pudesse repetir com confiança em entrevistas, eventos e teleconferências de resultados a frase que virou uma de suas marcas: “A CVC sairá da crise mais forte do que entrou”.

Agora é nossa hora de olhar e cuidar da companhia através de negócios inovações e futuro” – Leonel Andrade

“Como a empresa estava sendo bem resgatada, tomamos a decisão de manter 100% o operacional. Não desmontamos nenhuma estrutura e nenhuma linha de negócios. Isso nos trouxe ao momento atual, que é de muita crença de que a CVC vai sair muito mais forte. Após as renegociações das dívidas em novembro, foi eliminado o risco de continuidade da empresa. Agora é nossa hora de olhar e cuidar da companhia através de negócios inovações e futuro”, completa Leonel.

Com este discurso otimista, a CVC Corp chega nesta sexta-feira (28) ao seu aniversário de 49 anos com fôlego para alcançar o objetivo traçado pela atual gestão, de passar de uma empresa especializada em turismo para uma empresa especializada em turistas.

Para os próximos 12 meses, rumo aos 50 anos, a companhia já traçou planos inovadores. Projetos de sustentabilidade, diversidade no quadro de colaboradores e a chamada “transformação digital” são alguns dos pilares sobre os quais a CVC Corp vem construindo uma nova fase para garantir uma posição de protagonismo não só na retomada do turismo, como também no futuro a longo prazo do setor.

“Leonel vem fazendo um trabalho excepcional, mudando conceito, porque o mundo mudou”- Guilherme Paulus

Esta trajetória de transformação é chancelada inclusive pelo criador da companhia, Guilherme Paulus. “Leonel vem fazendo um trabalho excepcional, mudando conceito, porque o mundo mudou. Não só a pandemia, mas estruturas de companhias aéreas, navios, hotéis e a força bruta da internet para venda e a CVC está se remodelando a cada dia”, destaca o empresário.

Guilherme Paulus, fundador da CVC e da GJP Hotels mediará o painel

Guilherme Paulus, fundador da CVC

EXPANSÃO

Nascida em 28 de maio de 1972, a CVC iniciou sua trajetória na rua Cesário Mota, em Santo André (SP), com a venda de passagens de Varig, Cruzeiro, Vasp e vendas diretas de passagens aéreas para o exterior. Na época, os sócios Carlos Vicente Cerchiari, Legi Augusto Cerchiari e Guilherme Paulus entravam em um mercado no qual as grandes operadoras eram Abreu, Polvani e Meliá.

Guilherme Paulus e Valter Patriani em frente a uma loja da CVC nos anos 90. (Reprodução/Facebook)

Guilherme Paulus e Valter Patriani em frente a uma loja da CVC nos anos 90. (Reprodução/Facebook)

Em alguns anos, a companhia expandiu seu portfólio, acompanhando a profissionalização do setor, com a criação de receptivos, ampliação dos circuitos e criação de pacotes, produto que a empresa passou a dominar ao longo das décadas seguintes. Inauguração das primeiras lojas, fretamento de aviões e pacotes internacionais foram grandes conquisas que consolidaram a empresa com o principal nome do Turismo no Brasil. Em 2000, a empresa inaugurava sua primeira loja virtual, dando os primeiros passos em um mercado que se tornaria vital na década seguinte.

Em 2009, já consolidada com a principal empresa de turismo do País, o controle da CVC foi adquirido pelo Grupo Carlyle, que daria início ao processo que culminaria na abertura de capital da companhia.

CVC linha do tempo

Entre 2013 e 2019 o ciclo de mudanças e expansão da empresa foi sem precedentes da indústria de turismo do Brasil. O primeiro ano ficou marcado pela abertura de capital da empresa, e os anos seguintes por um processo agressivo de aquisições.

Foram incorporadas ao grupo Rextur Advance e Submarino Viagens (2015), Experimento Intercâmbio (2016), além de Trend e Visual Turismo, em 2017, ano que marcou também o nascimento da Holding CVC Corp. Em 2018, a empresa iniciou os investimentos internacionais, com a compra das empresas argentinas Bibam Group e Ola. O ciclo de compras se encerrou em 2019, com a aquisição da Esferatur e da OTA Almundo, totalizando mais de R$ 1,5 bilhão em investimentos.

UNIDADES DE NEGÓCIO CVC CORP

O ano também marcou grandes mudanças com as saídas no início do ano Luiz Eduardo Falco da presidência da Companhia, dando lugar ao até então CFO, Luiz Fernando Fogaça e de Valter Patriani.

INÍCIO DA CRISE

Luis Fernando Fogaça, que assumirá o cargo de presidente, Luiz Eduardo Falco, passará a ocupar um lugar no Conselho, e Leopoldo Saboya, que ocupará o posto de CFO

Luis Fernando Fogaça e Leopoldo Saboya ao lado do ex-CEO Luiz Eduardo Falco. Os dois executivos renunciaram em meio a crise da companhia.

O ano de 2019, porém, terminou de maneira negativa. O balanço do terceiro trimestre ficou abaixo das expectativas do mercado e gerou uma forte desvalorização nas ações da companhia. Somou-se a isso uma série de fatores externos prejudiciais, como a forte alta do dólar, os reembolsos decorrentes do fim das operações da Avianca Brasil e o óleo nas praias do Nordeste, que afetou as viagens para a região.

Os problemas cresceram no início de 2020. No fim de fevereiro, a empresa anunciou que foram constatados erros nos balanços da companhia entre 2015 e 2019, o que acabou adiando por duas vezes a divulgação dos resultados de 2019. O impacto inicial previsto, que era de R$ 250 milhões, acabou se mostrando maior: R$ 362 milhões, de acordo com o balanço de 2020 divulgado em agosto.

Queda das ações da CVC no mês de março

Queda das ações da CVC no mês de março de 2020. Papéis chegaram a ficar abaixo dos R$ 7 .

Após a divulgação dos erros, o CEO Luiz Fernando Fogaça renunciou ao cargo, seguindo o CFO, Leopoldo Saboya, que havia saído após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, ainda em novembro. No mesmo mês, já com ações em baixa, a companhia se deparou com o início das restrições provocadas pela pandemia, o que levou as ações da companhia para o menor patamar da história.

REESTRUTURAÇÃO E “RENASCIMENTO”

Luciano Guimarães, diretor das unidades B2B da CVC Corp

Luciano Guimarães, diretor das unidades B2B da CVC Corp

Em meio a este cenário, Leonel Andrade foi convidado para assumir a companhia em 1º de abril de 2020. E as mudanças foram rápidas e profundas. Quando entrou no cargo, o CEO tinha 19 diretores que se reportavam diretamente a ele. Neste processo ficou marcada a unificação das marcas B2B, iniciada em maio e oficializada em fevereiro deste ano por Leonel Andrade.

Em poucos meses este número foi reduzido a quatro: Luciano Guimarães no B2B (Rextur, Trend, Esferatur e Visual), Emerson Belan no B2C (CVC Brasil, Experimento, Submarino Viagens, Almundo e Experimento), posteriormente substituído por Daniela Bertoldo, Sylvio Ferraz, em produtos, e Fábio Mader, na CVC Argentina (Ola, Bibam e Almundo).

Daniela Bertoldo diretora executiva de Negócios B2C da CVC Corp no Brasil

Daniela Bertoldo diretora executiva de Negócios B2C da CVC Corp no Brasil

As mudanças aconteceram em profundo processo de readequação da estrutura, que acarretou na saída de mais de 200 colaboradores, incluindo nomes de peso, como Rogério Mendes, Orlando Palhares, Cris Jayme, Lucimar Reis, Sueli Ruotolo, Rodrigo Galvão e Emerson Belan, somente na CVC, além de Maurício Favoretto e Esequiel Santos (Trend), Beto Santos (Esferatur).

DÍVIDA E FORTALECIMENTO DE CAIXA

O fim de 2020 foi de importantes acontecimentos no campo financeira. A CVC concluiu um processo de aumento de capital, fortemente aderido pelos acionistas da companhia, que em um voto de confiança na reestruturação aprovaram o processo e investiram em mais ações. “Graças aos acionistas, a companhia está bem viva. Eles fizeram um aporte de R$ 700 milhões no ano passado e para este ano quase R$ 400 milhões”, pontual Leonel.

Em novembro, a companhia também conclui um processo de renegociação de dívidas na ordem de R$ 1,5 bilhão, o que junto ao aumento de capital deu fôlego e sustentabilidade para o caixa. A Standard & Poor’s, que havia rebaixado a nota da companhia para brCCC- em julho, elevou a classificação para brB no fim de novembro.

Essa recuperação da confiança foi fundamental para aumentar os negócios e parcerias da companhia no último ano. “Começamos a ter vantagens competitivas porque o mercado enxerga que vamos sobreviver. Quando o trade e fornecedores de um modo geral olham e percebem que a CVC está viva e tem capacidade financeira, preferencialmente vai fazer negócios conosco. Como o Rock in Rio e a Copa do Mundo, que vamos vender. Incluo também os fretamentos para o final do ano. É fundamental para esses eventos e empresas olharem quem estará vivo lá na frente e com capacidade operacional. Todos os dias fechamos negócios para o futuro e com boas condições”, completa Leonel.

TRANSFORMAÇÃO TECNOLÓGICA

Após a reestruturação, a companhia passou a focar em novas iniciativas e na revisão de processos, o que incluiu a eliminação de erros provocado pela falta de integração entre as unidades de negócios. Neste contexto foi lançado o projeto MAPA, que se estrutura em bases como unificação de sistemas e fim dos trabalhos manuais de integração. O objetivo é ter uma companhia totalmente digitalizada em dois anos.

“A empresa fez uma opção, ao longo dos últimos anos, em aquisições muito fortes e consistentes, mas não fez nenhum investimento em sinergia, nenhum investimento em back office e nenhum investimento relevante em tecnologia, ou o fez de forma não unificada, talvez com um planejamento não adequado. O que a gente tem hoje é uma confusão, uma colcha de retalhos. Temos enormes plataformas e sistemas que mal se falam entre si e dificultam a vida do cliente. Então é isso que é o Projeto Mapa, transformar tudo isso em uma coisa única”, explicou Leonel, durante o Investor Day CVC, realizado em fevereiro.

Projeto Mapa CVC

Atualmente, 37% dos sistemas de Back Office da CVC Corp ainda estão fora da Diretoria de Operações. A previsão é incorporar 100% do sistema até o 2º semestre. Com a unificação, a CVC estima um corte de 35% nos custos da área.

Neste contexto de digitalização, outro plano é implementar a precificação dinâmica de seus produtos, baseada em algoritmos e inteligência artificial. Esse formato de precificação levará em conta elementos como cliente, canal, produto, interesse e sazonalidade, para atingir um balanço adequado entre volumes e margens.

Precificação dinâmica - CVC

NOVAS INICIATIVAS

Somam-se a esta transformação, diversas mudanças que colocam a companhia um passo a frente das concorrentes em termos de inovação. Do ponto de vista de produto, um destaque é a VHC Hospitality, produto de aluguel de casas de temporada da companhia que passou a contar com fortes investimentos. A perspectiva é chegar a 8 mil propriedades no portfólio nos próximos cinco anos.

Outras iniciativas de destaque estão na fidelização, com a criação cartão co-branded, CVC Itaucard, com benefícios, descontos em diárias de hospedagens, locação de carro, seguro viagem, passagens aéreas e demais produtos/serviços em viagens nacionais e internacionais oferecidos pela CVC.

Cartão será da bandeira Visa

Cartão tem da bandeira Visa

Pensando no cenário home-office, vivido atualmente, a CVC também planejou inovações no B2B, com a criação do Agente Autônomo de Turismo, um programa para que agentes de viagens independentes possam vender produtos da CVC Corp. O projeto será gerido pela RexturAdvance, unidade B2B do grupo. A nova plataforma é direcionada para profissionais com conhecimento do segmento de viagens que buscam mais flexibilidade de trabalho, um nicho em crescimento, principalmente em decorrência da mudança no modelo de negócio.

Por fim, outro destaque será a mudança nas lojas físicas, que será anunciada em breve, com a inclusão de elementos interativos e com o investimento em digitalização para melhorar a experiência do cliente.

DIVERSIDADE E SUSTENTABILIDADE COMO PILARES

Leonel Andrade, CEO da CVC Corp, durante o lançamento do REprograma

Leonel Andrade, CEO da CVC Corp, durante o lançamento do REprograma

Mas as mudanças que marcam o 49º aniversário da CVC não se resumem a questões operacionais, digitais, financeiras e administrativas, ou seja, ao negócio em si. As preocupações ambientais e sociais também foram incluídas como pilares do desenvolvimento da companhia, a posicionando no hall de grandes empresas que se modernizaram nos últimos anos.

Um grande passo foi dado no início desta semana, com o lançamento de um programa desafiador de sustentabilidade e diversidade, o “Reprograma CVC”. Resultado de um ano de pesquisa, o projeto tem como objetivos reduzir danos ao meio ambiente provocados pelas viagens, a preservação cultural e ambiental dos destinos e a reeducação dos turistas. Já a partir de 2022, a CVC Corp pretende engajar diferentes partes interessadas por meio do “Projeto Viagem Sustentável, que promoverá uma série de mudanças nos processos internos da companhia, refletindo diretamente nos roteiros de turismo.

Rachel Maia, durante a apresentação do REprograma. Empresária e conselheira da CVC Corp anunciou a meta de ter 20% de negros em cargos de liderança.

Rachel Maia, durante a apresentação do REprograma. Empresária e conselheira da CVC Corp anunciou a meta de ter 20% de negros em cargos de liderança.

Mas a grande inovação está no campo da diversidade. A CVC Corp anunciou o compromisso de ter negros em pelo menos 20% dos cargos de liderança até 2030, além de contar com 50% do quadro de colaboradores represente a diversidade. O novo posicionamento marca a adesão da companhia ao Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU). Até 2023, a CVC Corp vai promover um aumento de no mínimo 10% no número de negros no quadro de colaboradores. Além da raça, o pilar da diversidade engloba a inclusão de pessoas com deficiência (PCD), gênero, com mais representatividade feminina em cargos de liderança e mais representatividade LGBTQI+ nos quadros da empresa

ESPECIALIZADA EM CLIENTES

Com todas as mudanças, a companhia se posiciona rumo aos 50 anos com uma marca de valores estabelecidos e com uma imagem de solidez administrativa e financeira. O processo de inovação e transformação tem como intenção estabelecer um relacionamento completo com investidores, colaboradores e, principalmente, clientes.

“A companhia sempre teve na sua estratégia o alto conhecimento de turismo, portanto é uma companhia baseada em canais e produtos. Nós temos que ser uma companhia baseada em clientes. Conhecer e ser a maior companhia especializada em turistas do mundo. Na há sentido em criar um canal digital e não ter altíssimo conhecimento do cliente. A minha maior prioridade de curto prazo é o conhecimento dos clientes”, afirma Leonel Andrade.

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