
A Europa enfrenta um cenário de atenção no abastecimento de combustível para a aviação. Levantamento divulgado pela Reuters mostra que as reservas disponíveis de querosene de aviação são suficientes para menos de 30 dias de consumo, mesmo após o aumento das importações, da produção das refinarias e da utilização dos estoques estratégicos. A combinação entre baixos volumes armazenados e a instabilidade no Oriente Médio amplia as preocupações sobre a capacidade do continente de manter o fornecimento caso ocorram novas interrupções nas rotas internacionais de energia.
Segundo a análise da agência, a Europa permanece como a região mais vulnerável diante de um eventual agravamento da crise geopolítica envolvendo o Estreito de Ormuz, passagem considerada estratégica para o transporte marítimo de petróleo e derivados.
Dados da consultoria Energy Aspects mostram que, no início de junho, os estoques europeus somavam aproximadamente 38 milhões de barris de combustível para aviação. Nos Estados Unidos, para efeito de comparação, as reservas alcançavam cerca de 99 milhões de barris, evidenciando uma diferença significativa na capacidade de resposta diante de possíveis interrupções no mercado internacional.
Dependência de importações aumenta vulnerabilidade do continente
Mesmo com esforços para reforçar o abastecimento, a Europa continua dependente de combustível importado. Nos últimos meses, o continente ampliou as compras de querosene de aviação provenientes dos Estados Unidos, Canadá, Nigéria e países asiáticos, além de elevar a produção em refinarias ainda em operação.
Segundo dados da empresa Kpler, apenas em junho foram importados cerca de 673 mil barris por dia de combustível para aviação. Trata-se do maior volume registrado desde outubro de 2025.
Apesar desse aumento, especialistas ouvidos pela Reuters avaliam que essas medidas apenas reduziram temporariamente a pressão sobre o mercado, sem eliminar a fragilidade estrutural da cadeia de abastecimento.
A própria Reuters afirma que a Europa segue como a região “mais exposta” a uma eventual escassez de combustível para aviação caso ocorram novas restrições nas exportações internacionais.
Fechamento de refinarias reduziu capacidade de produção
Grande parte da vulnerabilidade atual é resultado das mudanças ocorridas nas últimas décadas no setor de refino europeu.
Diversas refinarias foram desativadas ao longo dos anos por questões econômicas, ambientais e de competitividade, reduzindo a capacidade local de produção de derivados de petróleo, entre eles o querosene utilizado pelas companhias aéreas.
Como consequência, países como Reino Unido, França e Alemanha passaram a depender cada vez mais de fornecedores externos para atender à demanda crescente do transporte aéreo.
Segundo a Reuters, esses três mercados aparecem entre os mais suscetíveis aos impactos de uma eventual interrupção prolongada no fornecimento internacional.
Estreito de Ormuz permanece no centro das preocupações
O principal ponto de atenção continua sendo o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde circula mais de 20% do petróleo e do gás natural transportados por navios em todo o mundo.
Nos últimos meses, o aumento das tensões entre Irã, Estados Unidos e Israel elevou os riscos para a navegação na região.
Após confrontos militares registrados no primeiro semestre, o estreito chegou a operar com restrições antes de uma reabertura parcial decorrente de um acordo de cessar-fogo. Entretanto, novos episódios de instabilidade voltaram a ser registrados no início de julho, reacendendo o temor de novas interrupções no fluxo de petróleo e combustíveis.
Qualquer bloqueio prolongado pode afetar diretamente o envio de derivados para a Europa, aumentando os custos logísticos e reduzindo a disponibilidade de combustível para o setor aéreo.
Produção cresceu, mas margem continua limitada
Informações da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que, no fim de maio, os estoques provisórios de querosene de aviação estavam cerca de 10% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
Ao mesmo tempo, as refinarias ampliaram em aproximadamente 30% a produção desse combustível.
Apesar da recuperação, a avaliação apresentada pela Reuters é que o continente dispõe de “apenas um mês de folga”, margem considerada estreita diante das incertezas provocadas pelo cenário geopolítico internacional.
Isso significa que qualquer interrupção relevante nas cadeias globais de fornecimento poderá reduzir rapidamente os estoques disponíveis, especialmente durante períodos de maior demanda por viagens aéreas.
Mercado acompanha impacto sobre a aviação
Até o momento, não há registro de cancelamentos de voos provocados pela falta de combustível nos aeroportos europeus. No entanto, operadores do setor acompanham a evolução dos estoques e do mercado internacional de petróleo diante do risco de novas oscilações.
Além do abastecimento, uma eventual redução na oferta pode pressionar o preço do querosene de aviação, um dos principais componentes dos custos operacionais das companhias aéreas.
Caso o cenário de instabilidade persista, empresas do setor poderão enfrentar aumento nas despesas operacionais, situação que pode refletir no planejamento das rotas e na precificação das passagens, dependendo da duração das restrições e da capacidade de reposição dos estoques.
Especialistas acompanham principalmente a evolução da situação no Oriente Médio e o funcionamento do Estreito de Ormuz, considerado peça-chave para a estabilidade do mercado global de energia. Enquanto o fluxo internacional permanece sujeito às tensões geopolíticas, a Europa continua dependendo de importações para manter abastecido um dos maiores mercados de aviação do mundo.







