Clia navio
Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil

BRASÍLIA – A divulgação dos resultados da temporada brasileira de cruzeiros 2025/2026, nesta quarta-feira (26), durante o Fórum Clia Brasil 2026, não ficou restrita aos números do estudo elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Em sua apresentação, o presidente executivo da Clia no Brasil, Marco Ferraz, usou os dados para reforçar uma mensagem central: a presença ou a ausência de cada navio na costa brasileira tem impacto direto sobre a economia, os empregos e o futuro da indústria no país.

A temporada 2025/2026 contou com sete navios, dois a menos do que o ciclo anterior, e registrou uma redução de 235 mil passageiros. O reflexo foi uma queda de 21% no impacto econômico e de 24% nos empregos gerados. Para Ferraz, os números ajudam a dimensionar o peso das decisões tomadas pelas armadoras sobre onde posicionar suas embarcações.

“Cada navio que a gente ganha, ou que a gente perde, envolve R$ 574 milhões e mais de 10 mil empregos”, destacou.

A mensagem, segundo o executivo, é que o objetivo da indústria não deve ser apenas evitar novas perdas, mas criar condições para que mais navios sejam atraídos ao Brasil. “Não queremos perder nenhum e queremos atrair navios para gerar isso positivamente”, afirmou.

Próxima temporada terá oito navios e sete portos de embarque

Depois da redução da oferta em 2025/2026, a próxima temporada brasileira já aponta para uma recuperação. Serão oito navios operando na região, com capacidade que varia de cerca de 2 mil a mais de 6,3 mil hóspedes por embarcação.

A operação terá sete portos de embarque no Brasil: Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, Itajaí, Balneário Camboriú e Paranaguá. A temporada ampliará a capilaridade da oferta para passageiros de diferentes regiões do país.

“Cada navio importa”: perder um navio custa R$ 574 milhões e 10 mil empregos a menos, alerta Marco Ferraz
As ofertas da próxima temporada já foram reveladas

“A gente tem sete portos para serem escolhidos para fazer os seus embarques. Pode escolher o bilhete aéreo que melhor cabe no bolso e nos horários para fazer o embarque nesses navios”, ressaltou Ferraz.

A temporada contará com 187 roteiros e uma oferta superior a 817 mil leitos. Santos, principal porta de entrada da indústria de cruzeiros no país, deverá concentrar 142 escalas. Segundo Ferraz, o movimento previsto pode fazer com que mais de 1 milhão de passageiros passem pelo complexo ao longo da operação, considerando embarques e desembarques.

O Porto de Itajaí também terá papel de destaque, com cerca de 94 escalas de cabotagem, além da movimentação adicional dos navios de longo curso.

A recuperação da oferta, no entanto, não significa que o setor esteja satisfeito. Para a Clia Brasil, o desafio é fazer com que o crescimento deixe de depender de circunstâncias pontuais e se torne estrutural.

“Queremos acabar com a palavra temporada”

Um dos pontos mais enfatizados por Marco Ferraz foi a necessidade de reduzir a forte sazonalidade da atividade no Brasil. Atualmente, a maior concentração das operações ocorre durante os meses de verão no Hemisfério Sul, enquanto os navios seguem para outros mercados no restante do ano.

Para o executivo, o objetivo de longo prazo deve ser transformar o país em uma opção capaz de receber operações permanentes.

“A gente quer terminar, acabar com essa palavra ‘temporada’”, afirmou.

A ambição é que, em um horizonte de três a cinco anos, o Brasil consiga chamar a atenção de alguma companhia para realizar um teste de operação durante todo o ano.

“Eu não duvido que, em um futuro de três a cinco anos, a gente chame a atenção de uma companhia para fazer um teste novamente e ficar o ano inteiro”, projetou.

Para isso, Ferraz reforçou que não basta ampliar a demanda. É necessário tornar o ambiente de negócios mais competitivo em relação aos mercados que disputam os mesmos navios.

Competitividade é mais importante do que ser o destino mais barato

Na visão da entidade, o país não precisa necessariamente se tornar o mercado mais barato do mundo para atrair novas embarcações. O objetivo é reduzir as distorções que hoje tornam a operação brasileira mais complexa e onerosa em comparação com outros destinos.

“Não precisa ser mais barato. Se a gente competir igual para igual, a gente ajuda nossos diretores a vencer isso”, afirmou Marco, ao tratar dos custos de operação.

Entre os principais desafios apontados estão os custos de atracação, a infraestrutura portuária, a oferta de energia elétrica nos portos e a preparação para novos combustíveis.

Clia
Bud Darr e Marco Ferraz citam Port Canaveral como case de sucesso e modelo a ser seguido pelo Brasil

Assim como Bud Darr em resposta a um questionamento do M&E, Marco também citou no palco o exemplo de Port Canaveral, nos Estados Unidos, como referência de planejamento. O porto investiu em infraestrutura, se preparou para receber novos combustíveis e aproveitou sua proximidade com o mercado turístico de Orlando para ampliar sua relevância internacional.

“Se a gente investir, se a gente tiver terminais, energia elétrica, novos combustíveis, a gente vai ter navios”, resumiu.

A discussão envolve também a modernização da infraestrutura. À medida que os navios aumentaram de tamanho e capacidade ao longo das últimas décadas, os portos brasileiros não acompanharam esse crescimento na mesma velocidade.

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Reforma tributária ainda traz “muitas interrogações”

Outro ponto de atenção destacado durante a apresentação foi a reforma tributária. Segundo Marco Ferraz, o setor ainda busca entender como as novas regras serão aplicadas às operações marítimas e aos diferentes serviços envolvidos na atividade.

“Estamos enfrentando isso com muitas interrogações”

Entre as dúvidas estão a tributação relacionada à venda dos cruzeiros e aos produtos e serviços comercializados a bordo. A Clia Brasil mantém conversas com a Receita Federal para compreender as futuras regras e orientar as companhias associadas.

A preocupação está diretamente relacionada à previsibilidade, considerada um dos fatores mais importantes para uma indústria que planeja suas operações com anos de antecedência.

Segundo Ferraz, mudanças inesperadas em custos, impostos, regras ou procedimentos podem comprometer a decisão das armadoras, já que os navios são ativos globais e podem ser deslocados para diferentes mercados.

“Segurança jurídica, previsibilidade, isso afasta muito o Brasil. A gente precisa ter mais essa segurança de que não tem surpresas acontecendo numa operação. Senão, eles não conseguem fechar a conta”, afirmou.

O executivo também chamou atenção para os efeitos de processos trabalhistas e consumeristas, que podem se prolongar por anos e continuar representando custos e incertezas para as empresas mesmo após o encerramento de uma temporada. Estes ‘entraves’ também foram pauta no dia de hoje, durante painel com as armadoras.

Cruzeiro ganha força como alternativa de férias para a classe média – e segue como grande oportunidade para agentes

Além dos desafios relacionados ao ambiente de negócios, Ferraz também destacou mudanças no perfil e na percepção do consumidor brasileiro. Mais da metade dos passageiros entrevistados para o estudo possui renda familiar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, reforçando a importância da classe média para a indústria.

Para Ferraz, o setor vem conseguindo comunicar melhor sua proposta de valor, especialmente por meio dos agentes de viagens. “O cruzeiro é uma grande solução de férias para a classe média, e a gente está conseguindo passar essa mensagem através dos agentes de viagens”, afirmou.

O estudo mostrou que as agências físicas continuam desempenhando papel relevante na escolha do produto. Além das redes sociais, a indicação de amigos e familiares também aparece como um importante fator de influência.

“Cada navio importa”: perder um navio custa R$ 574 milhões e 10 mil empregos a menos, alerta Marco Ferraz
Agências de viagens físicas foram principal canal de informações dos passageiros da última temporada, de acordo com estudo

Esse cenário é favorecido pelo alto nível de satisfação dos passageiros e pelo potencial de repetição da experiência. Segundo os dados apresentados, mais de 98% dos entrevistados afirmaram que a viagem atendeu ou superou suas expectativas.

Outro diferencial destacado por Marco é a possibilidade de conhecer vários destinos em uma única viagem. Para ele, o cruzeiro funciona como uma espécie de “degustação” dos lugares visitados, permitindo que passageiros conheçam cidades e, futuramente, retornem para permanecer mais tempo.

O estudo apontou, por exemplo, que 65% dos passageiros que visitaram determinado destino durante o cruzeiro ainda não o conheciam. Além disso, 71% realizaram algum gasto nas cidades visitadas.

Brasil tem espaço para crescer

Apesar dos obstáculos, Marco Ferraz reforçou que o potencial do mercado brasileiro permanece significativo. Na última temporada, 684 mil brasileiros fizeram cruzeiros em diferentes partes do mundo, colocando o país entre os principais mercados emissores globais.

A penetração dos cruzeiros, no entanto, ainda é pequena quando comparada a mercados mais maduros. No Brasil, apenas 0,35% da população realizou uma viagem de cruzeiro, enquanto esse percentual chega a cerca de 6% nos Estados Unidos e 5,5% na Austrália.

Para Ferraz, há, portanto, espaço tanto para ampliar o número de brasileiros a bordo quanto para aumentar a presença de navios e atrair mais passageiros internacionais.

“Cada navio importa”: perder um navio custa R$ 574 milhões e 10 mil empregos a menos, alerta Marco Ferraz
Clia traça agenda para destravar setor no Brasil

A próxima temporada representa um passo nessa direção, mas o objetivo é transformar a recuperação pontual em um ciclo permanente de crescimento. “Vamos juntos conseguir melhorar nosso ambiente de negócios e atrair cada vez mais navios, gerando mais impacto econômico”, concluiu o presidente executivo da Clia no Brasil.

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