
O Reino Unido vai testar mudanças nas trajetórias de voos para reduzir um dos efeitos menos conhecidos da aviação sobre o clima: os chamados contrails, rastros de condensação deixados pelos aviões que, em determinadas condições atmosféricas, podem persistir e formar nuvens de cristais de gelo capazes de reter calor.
A iniciativa, chamada Operation Blue Skies, será realizada pelo governo britânico em parceria com o Google e terá duração de 30 meses. O projeto será concentrado na área de controle oceânico de Shanwick, no Atlântico Norte, uma das principais rotas utilizadas por voos entre a Europa e a América do Norte.
Reino Unido testa ajustes de altitude
Durante os períodos de teste, controladores de tráfego aéreo do Reino Unido poderão orientar centenas de aeronaves a realizar pequenos ajustes de altitude, de até cerca de 2 mil pés, para evitar regiões da atmosfera com maior probabilidade de formação de contrails persistentes. A previsão é que os testes ocorram em cerca de 20 a 40 dias por temporada durante os próximos dois invernos.
A tecnologia do Google será utilizada para identificar antecipadamente as áreas mais favoráveis à formação desses rastros. A ideia é que os aviões possam alterar ligeiramente suas trajetórias, em vez de seguir necessariamente a rota ou altitude mais eficiente apenas do ponto de vista do consumo de combustível.
A estratégia do Reino Unido já foi testada em operações envolvendo companhias aéreas individualmente. A nova etapa amplia o experimento para uma área inteira do espaço aéreo, permitindo avaliar se a técnica pode ser aplicada em escala maior.
O que são os contrails?
Os contrails, abreviação de condensation trails, são formados quando o vapor d’água e outras partículas presentes no escapamento dos motores encontram condições específicas de temperatura e umidade em grandes altitudes. Em algumas situações, os cristais de gelo permanecem na atmosfera e podem evoluir para nuvens semelhantes a cirros.
O impacto climático desses rastros ainda envolve incertezas científicas importantes, mas o governo do Reino Unido reconhece que os efeitos não relacionados ao CO₂ da aviação podem ter participação significativa no aquecimento. Um grupo ligado à força-tarefa britânica Jet Zero recomendou justamente a realização de testes em larga escala no Atlântico Norte.
Pesquisas recentes também apontam potencial para que a chamada evitação de contrails seja uma ferramenta relativamente rápida de redução do impacto climático da aviação. Um estudo publicado na Nature Communications estima que, embora a mudança de trajetória possa provocar um pequeno aumento no consumo de combustível, a redução do aquecimento causado pelos contrails pode superar esse efeito.
Impacto para os voos
Para os passageiros que estiverem no Reino Unido, a mudança não significa que os aviões passarão a fazer grandes desvios ou que haverá alteração generalizada nos tempos de viagem. O objetivo é trabalhar com pequenos ajustes de altitude e trajetória, feitos quando as condições atmosféricas indicarem risco de formação de contrails persistentes.
A iniciativa também representa uma mudança de abordagem para a sustentabilidade da aviação. Em vez de atuar apenas sobre o consumo de combustível e as emissões de CO₂, o projeto busca considerar também os efeitos climáticos não relacionados ao carbono produzidos durante o voo. A IATA ressalta que esses impactos dependem fortemente de onde e quando as emissões são liberadas e que ainda há lacunas científicas importantes sobre sua dimensão.
Números do projeto do Reino Unido
- 30 meses: duração prevista para o teste.
- 20 a 40 dias por temporada: período estimado de testes em cada inverno.
- Até 2 mil pés: ajuste de altitude que poderá ser utilizado pelas aeronaves participantes.
- Atlântico Norte: região escolhida para o experimento.
- Shanwick: área de controle oceânico que concentra grande volume de voos transatlânticos.







