Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Song Wei, vice-diretor-geral do Centro da China de Intercâmbio Cultural Internacional e Promoção do Turismo, durante encontro Brasil-China (Giulia Jardim/M&E)

SÃO PAULO – O Brasil recebeu mais de 113 mil turistas chineses entre janeiro e agosto de 2026, volume que já supera o total registrado durante todo o ano passado e representa crescimento de 73% em relação ao mesmo período de 2025. Os dados da Embratur, apresentados pelo coordenador de mercados internacionais da agência, Alisson Andrade, durante o encontro Brasil-China, realizado nesta terça-feira (29), em São Paulo, mostram a aceleração do mercado e ajudam a dimensionar o potencial discutido no evento.

Reunindo representantes dos governos dos dois países, empresas e profissionais do turismo, o encontro discutiu como transformar esse movimento em negócios. Na prática, o desafio colocado ao trade brasileiro vai além de atrair o viajante chinês: envolve adaptar produtos, canais de distribuição, tecnologia, pagamentos e atendimento às características de um mercado que percorre milhares de quilômetros para chegar ao Brasil.

A expansão do fluxo também vem acompanhada de iniciativas institucionais para fortalecer a relação entre os dois mercados. Segundo Augusto Rocha, secretário nacional de Políticas Públicas do Ministério do Turismo, o governo federal criou, em maio de 2026, um grupo de trabalho de turismo Brasil-China com o objetivo de estruturar ações para ampliar a atração de turistas e investimentos chineses no país.

Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Augusto Rocha, secretário nacional de Políticas Públicas do Ministério do Turismo, durante o encontro Brasil-China (Giulia Jardim/M&E)

Entre as iniciativas citadas por Rocha estão ações de promoção realizadas na China, incluindo uma reunião com a Associação de Serviços de Viagem da China, que reuniu mais de 3 mil agentes de viagens, além de encontros com companhias aéreas para discutir novas rotas diretas e com a Trip.com para ampliar a divulgação do Brasil. O Ministério também lançou um guia de investimentos em mandarim, com projetos do setor turístico brasileiro que somam potencial de US$ 4,5 bilhões, e estruturou o programa ADS China, que habilitou 325 agências brasileiras para atender grupos de turistas chineses no país.

A aproximação ocorre em um momento de expansão das viagens chinesas e de fortalecimento da relação bilateral. Segundo dados apresentados durante o encontro, a China registrou 167,9 milhões de viagens internacionais em 2025. O país também passou de 629 milhões de viagens domésticas em 1995 para 6,52 bilhões no ano passado, enquanto o número de passageiros aéreos domésticos avançou de 120,9 milhões para 680,8 milhões entre 2005 e 2025.

Para o Brasil, esse cenário representa uma oportunidade que vai além do crescimento das chegadas. Segundo Alisson Andrade, dados da Trip.com apontam alta de mais de 130% nas buscas pelo Brasil na plataforma, indicando um interesse que ainda pode se converter em novas viagens. “Não só o aumento efetivo, mas o aumento de busca ainda maior. A gente falava pelo nosso parceiro Ctrip, do grupo Trip.com, e nos passou o dado de que houve um aumento de mais de 130% de buscas de Brasil na plataforma deles”, afirmou.

Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Painel I do encontro Brasil-China reuniu representantes do turismo brasileiro e chinês para discutir o crescimento do fluxo de viajantes e as oportunidades de negócios entre os dois mercados (Giulia Jardim/M&E)

Do potencial ao produto

O avanço do fluxo e do interesse pelo Brasil abre espaço para ampliar as vendas, mas também exige adaptações do mercado brasileiro. Para aproveitar esse movimento, os participantes destacaram a necessidade de preparar produtos e canais de distribuição capazes de operar dentro do ecossistema chinês, além de entender melhor os hábitos e as expectativas desse viajante.

Marco Di Ruzze, VP da BRT Group, destacou que o aumento das vendas de produtos brasileiros ainda ocorre de maneira tímida, apesar do avanço do fluxo. Segundo ele, existe uma procura crescente por conteúdo e inspiração sobre o Brasil entre empresas chinesas, o que abre espaço para uma aproximação maior entre fornecedores dos dois países.

Nesse processo, a relação entre empresas aparece como um dos pontos centrais. A participação em famturs e outras iniciativas que permitam aos profissionais chineses vivenciar o destino brasileiro também foi apontada como ferramenta para melhorar a construção dos produtos. A experiência direta, segundo a discussão, pode ajudar operadores e agentes a incorporar ao portfólio elementos que tenham maior aderência ao consumidor chinês.

A necessidade de construir relações de confiança também foi destacada no painel. Antes de colocar um produto à venda, empresas brasileiras e chinesas precisam conhecer seus parceiros, entender como trabalham e estabelecer canais para desenvolver conjuntamente as ofertas.

A questão ganha peso diante da dimensão das plataformas chinesas. Fábio Mader, CEO da CVC, destacou que ampliar a presença do Brasil nesse mercado exige compreender não apenas o comportamento do viajante, mas também a estrutura tecnológica por meio da qual os produtos são distribuídos.

Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Mariana Aldrighi, doutora em Geografia e professora e pesquisadora da USP; Fábio Mader, CEO da CVC; Marco Di Ruzze, VP da BRT Group; Guilherme Morais, country manager da UnionPay; e Zou Meiqi, vice-gerente de Vendas da Air China (Giulia Jardim/M&E)

Segundo Mader, essa adaptação é necessária para que os fornecedores brasileiros consigam se conectar a grandes empresas chinesas, que atuam em diferentes mercados e exigem integração entre sistemas. “O entendimento da cultura chinesa é fundamental para que possamos ter sucesso ao mostrar o Brasil. E isso passa pelo uso de tecnologia”, afirmou.

Pagamento entra na jornada do turista

Outro aspecto prático discutido no encontro foi a experiência de pagamento. Guilherme Morais, representante da UnionPay, destacou os avanços na integração entre o sistema brasileiro e os meios de pagamento utilizados pelos chineses.

Segundo ele, uma das dificuldades observadas após a retomada das viagens era justamente a adaptação do visitante chinês ao sistema de pagamentos brasileiro. A integração com o Pix passou a permitir que turistas utilizem o celular e o próprio ecossistema de pagamentos com o qual já estão familiarizados.

O executivo afirmou que a mudança reduz uma barreira que, até pouco tempo atrás, levava turistas chineses a sacar dinheiro em espécie diante da dificuldade de utilização de seus meios habituais. A discussão também apontou para o movimento inverso: a criação de soluções que permitam aos brasileiros utilizar o Pix durante viagens à China.

Conectividade precisa acompanhar demanda

A expansão do mercado também coloca a conectividade aérea no centro da discussão. Durante o painel, os participantes destacaram que a distância entre Brasil e China deixou de ser necessariamente um impeditivo para o viajante, mas a disponibilidade de assentos pode se tornar um limitador para o crescimento.

A avaliação é que, à medida que a demanda aumenta, será necessário ampliar a capacidade aérea para sustentar o fluxo. Caso contrário, a maior procura pode esbarrar em oferta restrita e preços menos competitivos.

Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav Nacional, durante o encontro Brasil-China (Giulia Jardim/M&E)

Para o trade, portanto, o desafio não está apenas em convencer o chinês a escolher o Brasil. É necessário garantir que, uma vez tomada a decisão de viajar, ele encontre um produto adequado, consiga comprá-lo pelos canais que utiliza, tenha facilidade para pagar e encontre estrutura para ser atendido durante a viagem.

Turista chinês movimenta mais e permanece mais

Os dados apresentados pela Embratur também reforçam o peso econômico desse mercado. Segundo Alisson Andrade, o turista chinês gasta, em média, US$ 6.779 por viagem ao Brasil e permanece aproximadamente 22 dias no país. Para ampliar esse fluxo, a Embratur trabalha em duas frentes: no B2B, em parceria com operadores chineses para inserir o Brasil em seus portfólios, e no B2C, com ações voltadas diretamente ao consumidor. A China também foi incluída entre os mercados prioritários do plano de marketing internacional do Brasil.

Andrade destacou ainda o potencial de aproximar turismo de negócios e lazer. A estratégia é aproveitar a presença de empresários chineses que já viajam ao Brasil a trabalho para estimular a extensão da permanência e criar oportunidades para futuras viagens de lazer. “Vem ao Brasil fazer negócio e passa mais tempo no Brasil, ela vai ficar conquistada pelo país e certamente vai querer voltar e trazer a sua família”, afirmou.

A estratégia começa a ganhar espaço na própria Abav Expo. Pela primeira vez, o programa de buyers da feira reúne compradores chineses para rodadas de negócios com operadores, hotéis e outros fornecedores brasileiros. Paralelamente, a Embratur levou ao evento 11 especialistas em Brasil de 11 países que estão entre os principais mercados emissores do destino.

Relação precisa ir além da promoção

A discussão apontou ainda para uma perspectiva de longo prazo. Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo e especialista em gestão, políticas públicas e desenvolvimento econômico no setor, defendeu que a aproximação entre Brasil e China avance da promoção pontual de destinos para uma estratégia permanente de cooperação, envolvendo turismo, investimentos, infraestrutura, cultura e conhecimento.

Turismo chinês cresce no Brasil e desafia trade a adaptar produtos e serviços
Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo e especialista em gestão, políticas públicas e desenvolvimento econômico no setor, durante o encontro Brasil-China (Giulia Jardim/M&E)

Na avaliação apresentada durante o encontro, a experiência chinesa na formação de ecossistemas turísticos pode servir de referência para o Brasil, enquanto a diversidade natural e cultural brasileira cria oportunidades para o desenvolvimento de novos produtos destinados ao visitante chinês. Lummertz também defendeu que a relação entre os dois países seja sustentada por planejamento de longo prazo e continuidade entre diferentes governos.

Na abertura do encontro, a presidente da Abav Nacional, Ana Carolina Medeiros, também destacou que o avanço do fluxo bilateral representa uma oportunidade concreta para o trade, mas exige maior conhecimento sobre o mercado chinês e adaptação da oferta. “Para viabilizar e potencializar a visitação para qualquer destino, a atuação dos distribuidores é fundamental. Temos que aprender com profundidade como atender a este gigante de missões turísticas, criando produtos e serviços que conversem com suas necessidades e atendam a este mercado com a gentileza e a alegria tão brasileiras.”