
Em meio ao avanço dos casos de afastamento por transtornos mentais no Brasil, como burnout, três setores começam a concentrar um sinal vermelho cada vez mais claro: hotelaria, marketing e transporte. A combinação de jornadas imprevisíveis, metas agressivas e contato constante com o público tem colocado esses profissionais entre os mais vulneráveis ao burnout, um fenômeno que já deixou de ser exceção para virar parte do debate central nas empresas.
Dados recentes mostram que 4 em cada 10 trabalhadores no país já identificam algum tipo de risco psicossocial no ambiente de trabalho. Não é pouco. E quando o recorte vai para áreas operacionais e de alta exposição, o cenário pesa ainda mais.
O que está por trás do esgotamento nesses setores
A hotelaria vive de experiência. Na prática, significa estar disponível o tempo todo. Turnos irregulares, demandas imediatas e a necessidade de manter um padrão alto de atendimento criam uma pressão silenciosa. O problema não é só físico. É emocional. Lidar com hóspedes exige equilíbrio constante, mesmo quando o próprio profissional já está no limite.
No marketing, a lógica é outra, mas o impacto é parecido. Prazos curtos, metas agressivas e a cultura do “tudo para ontem” fazem parte da rotina. Soma-se a isso a cobrança por criatividade contínua e resultados mensuráveis, muitas vezes em tempo real. A sensação de nunca desligar virou padrão.
Já no transporte, o desgaste tem outra camada. Responsabilidade direta pela segurança, longas jornadas e condições externas que fogem do controle, como trânsito e atrasos, aumentam a tensão diária. É uma pressão constante que dificilmente termina quando o turno acaba.
Burnout deixa de ser individual e vira questão estrutural

Desde 2019, a condição é reconhecida como um fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde. A definição é direta: “uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi gerido com sucesso”. O ponto central aqui mudou. Não se trata mais de fragilidade individual. O olhar agora está nas condições de trabalho.
Um relatório recente aponta que o burnout se manifesta em três frentes principais: esgotamento extremo, distanciamento emocional em relação ao trabalho e queda de desempenho. É quando o profissional começa a se desconectar, mesmo ainda estando presente.
Números mostram que o problema é amplo
Os riscos psicossociais não estão restritos a um tipo de empresa. Eles aparecem em diferentes estruturas. Pequenas empresas registram cerca de 58,7% de incidência desses riscos. Nas médias, o índice passa de 53%. Já nas grandes, volta a subir para cerca de 58,8%. Ou seja, não é sobre tamanho. É sobre cultura, gestão e dinâmica de trabalho.
E nos setores de hotelaria, marketing e transporte, esses fatores se intensificam. São áreas onde a operação não para e onde a cobrança por desempenho é constante.
O que muda com a nova NR-1
A atualização da NR-1, prevista para entrar em vigor em maio, deve pressionar empresas a olharem com mais atenção para a saúde mental dos colaboradores. A norma passa a incluir de forma mais clara os riscos psicossociais dentro das responsabilidades corporativas.
Isso significa que questões como sobrecarga, clima organizacional e jornadas excessivas deixam de ser apenas temas internos e passam a exigir gestão ativa, com monitoramento contínuo, políticas mais claras e ações preventivas no dia a dia.
Burnout: um alerta que já não dá mais para ignorar
O crescimento dos casos de burnout não é um detalhe estatístico. É um reflexo direto da forma como o trabalho vem sendo estruturado.
Hotelaria, marketing e transporte só escancaram o que já está acontecendo em várias áreas. A diferença é que, nesses setores, o impacto aparece mais rápido, com sinais claros de esgotamento, afastamentos frequentes e dificuldade de retenção.
*Com informações de Forbes







