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Representantes da hotelaria questionam falta de diálogo e impactos do aumento anunciado pela OTA (Freepik)

Após a representação protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra a Booking, entidades da hotelaria brasileira detalharam ao Mercado & Eventos os motivos que levaram o setor a questionar o aumento das comissões cobradas pela plataforma. A ação foi apresentada por cinco associações, que pedem a suspensão da elevação da taxa do Preferred Partner Program para 18% e a abertura de uma investigação sobre possíveis infrações à concorrência.

Na avaliação das associações, a medida foi implementada sem negociação prévia e com prazo reduzido para adaptação dos hotéis. As entidades também questionam as justificativas apresentadas pela OTA para o reajuste, argumentando que não houve demonstração clara de benefícios capazes de compensar o aumento dos custos para os empreendimentos. Além disso, defendem que o Cade investigue possíveis impactos concorrenciais relacionados à posição da empresa no mercado de reservas on-line. Confira os posicionamentos das entidades envolvidas na ação.

BLTA: “Justificativas genéricas e sem benefícios mensuráveis”

CEO Camilla Barretto avalia produtividade da participação em eventos internacionais (Divulgação/BLTA)
Camilla Barretto, da BLTA (Divulgação/BLTA)

Para a CEO da BLTA, Camilla Barretto, o principal problema está na falta de transparência sobre os benefícios que justificariam o aumento das comissões.

“Não houve diálogo. As justificativas apresentadas são genéricas. Eles falam em ‘novas soluções financeiras’ e suporte em vários idiomas, mas não especificam qual é o benefício real e mensurável que o hotel brasileiro vai receber em troca desse aumento de custo.”

Segundo a executiva, o reajuste ocorre em um momento de pressão sobre os custos da hotelaria e pode afetar diretamente a capacidade de investimento dos empreendimentos. “A plataforma responde por uma parcela enorme das reservas de muitos hotéis e, além disso, ocorre num momento em que o setor já enfrenta pressões de custos com passagens aéreas, inflação e incertezas tributárias.”

Camilla também alerta para possíveis reflexos nos preços ao consumidor. “Quando a margem do hotel é espremida dessa forma, a capacidade de investir em infraestrutura, treinamento e qualidade de serviço diminui. Além disso, parte desse custo extra inevitavelmente acaba sendo repassada para o preço das diárias.”

Ao comentar as expectativas em relação ao Cade, ela defendeu uma análise aprofundada do caso. “Esperamos que o Cade atue para reequilibrar essa relação. A petição pede a suspensão imediata desse aumento de 18% até que o mérito seja julgado, além de uma investigação profunda sobre o abuso de posição dominante e o uso de cláusulas de paridade tarifária, que impedem os hotéis de oferecerem preços melhores em seus próprios canais diretos.”

ABIH Nacional: “O hotel tem pouca margem real de escolha”

O que dizem as entidades que acionaram a Booking no Cade? Confira os posicionamentos
Sérgio Pereira Gaspar, presidente da ABIH Nacional (Ana Azevedo/M&E/Editado)

O presidente da ABIH Nacional, Sérgio Pereira Gaspar, afirma que a discussão vai além do reajuste e envolve o equilíbrio da relação comercial entre plataformas digitais e meios de hospedagem.

“A decisão de levar esse tema ao Cade nasce da necessidade de proteger a sustentabilidade econômica da hotelaria brasileira e de garantir equilíbrio em uma relação comercial que se tornou essencial para muitos meios de hospedagem.”

Segundo ele, a mudança anunciada para julho impacta diretamente o planejamento financeiro dos empreendimentos. “O aumento das comissões para 18%, anunciado para vigorar já em julho, chega no meio do exercício, quando muitos empreendimentos já fecharam tarifas, contratos, orçamentos e estratégias comerciais para o ano.”

Gaspar destaca que os impactos tendem a ser mais relevantes para hotéis independentes, pousadas e pequenos empreendimentos. “Quando uma plataforma com grande participação no mercado condiciona melhor posicionamento e alcance comercial ao pagamento de uma comissão mais elevada, o hotel passa a ter pouca margem real de escolha. Ou aceita o novo custo, ou corre o risco de perder relevância nas buscas e, consequentemente, reservas.”

Para o dirigente, o objetivo da representação não é romper relações com a Booking.com, mas garantir condições mais equilibradas para o setor. “O que se busca no Cade não é romper diálogo com a plataforma, nem negar a importância da tecnologia para o setor. O que defendemos é transparência, previsibilidade, proporcionalidade e concorrência justa.”

Ele conclui classificando a discussão como estratégica para a hotelaria nacional. “A hotelaria não pode ficar refém de mudanças unilaterais que elevam custos de forma abrupta e reduzem a capacidade de planejamento dos empreendedores.”

FBHA: ação pede suspensão imediata do reajuste

O que dizem as entidades que acionaram a Booking no Cade? Confira os posicionamentos
Alexandre Sampaio, presidente da FBHA (Divulgação/Marcelo Freire)

A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), uma das entidades que integram a representação apresentada ao Cade, afirma que as justificativas apresentadas pela Booking para o reajuste das comissões não sustentam a mudança anunciada pela plataforma. Na avaliação da federação, os argumentos apresentados pela empresa reforçam justamente a preocupação do setor com a forma como a medida foi implementada.

Segundo a entidade, a informação de que o Brasil era o último mercado das Américas a receber o aumento demonstra que a política comercial foi aplicada de maneira padronizada e sem negociação com os parceiros locais. Já a referência a uma suposta “defasagem de 12 anos” indicaria que os hotéis brasileiros permaneceram vinculados a condições diferentes das praticadas em outros mercados antes da adoção do novo percentual.

A FBHA também destaca que tentou abrir uma nova rodada de diálogo com a plataforma, propondo o adiamento da vigência da medida para janeiro de 2027 e a revisão dos percentuais cobrados. Sem resposta da empresa, as entidades optaram por formalizar a denúncia junto à autoridade concorrencial.

“A Booking.com detém posição dominante inquestionável no mercado brasileiro de reservas on-line e utilizou esse poder para impor, de forma unilateral e com prazo exíguo, um aumento expressivo de custos a parceiros que dependem estruturalmente da plataforma para sobreviver. O Cade tem os instrumentos necessários para coibir esse tipo de conduta e nós confiamos que a autoridade agirá para preservar a concorrência e proteger o setor hoteleiro nacional.”

O que diz a Booking?

Em nota ao Mercado & Eventos, a Booking compartilhou:

“A Booking.com acompanha atentamente as discussões do setor nos mercados em que atua e mantém diálogo aberto com autoridades, entidades da indústria e parceiros de acomodação. Após 12 anos sem alterações nas condições comerciais da plataforma no país, a recente atualização comercial busca alinhar as operações locais às práticas já implementadas pela empresa em diversos mercados no mundo. A partir de 1º de julho de 2026, a taxa padrão no Brasil será de 15%, enquanto a taxa de 18% será aplicada exclusivamente às propriedades participantes do programa Preferencial.”