Hopi Hari reconhece “lacuna” e retoma ajuda à jovem que sofreu trauma na Montezum; entenda
A parceria contempla o Passaporte Hopi Hari, que dá acesso a todas as atrações regulares do parque (Divulgação)

O Hopi Hari informou nesta terça-feira (22) que voltará a custear as despesas relacionadas aos cuidados essenciais de Júlia Bossoni, de 21 anos, que sofreu um traumatismo cranioencefálico depois de andar na montanha-russa Montezum. Segundo o parque, os pagamentos serão retroativos à data em que a jovem recebeu alta do hospital em Vinhedo, no interior de São Paulo.

A decisão foi anunciada depois que a família relatou que o suporte financeiro oferecido pelo parque havia sido interrompido após a alta hospitalar. A mãe de Júlia, Danielle Rimolli, afirmou que representantes do Hopi Hari haviam se comprometido a ajudar com despesas como fraldas, medicamentos e cadeira de rodas, mas que a comunicação com a advogada da família deixou de ocorrer.

Em nota, o parque reconheceu que houve uma “lacuna” na assistência entre a saída de Júlia do hospital em Vinhedo e o início do período de recuperação da jovem em Londrina, no Paraná. O Hopi Hari afirmou que, diante disso, irá assumir novamente os custos relacionados aos cuidados essenciais.

O caso também está sendo acompanhado pelo Ministério Público de São Paulo. A família entrou com ações nas áreas cível e criminal para discutir as responsabilidades e o pagamento de indenização.

Família arrecadou R$ 70 mil para tratamento

Júlia ficou internada por 57 dias depois do acidente. Durante esse período, segundo a família, o Hopi Hari arcou com despesas de hospedagem, alimentação e outros custos relacionados à permanência dos familiares em Vinhedo. Depois da alta, porém, a família afirma que o apoio financeiro não ocorreu como havia sido combinado. De acordo com Danielle, o único pagamento realizado posteriormente foi de R$ 7 mil, destinado ao transporte de ambulância da jovem até o Paraná.

Para garantir o atendimento com uma equipe de neurocirurgiões que não fazia parte da cobertura do plano de saúde, familiares organizaram uma vaquinha. Foram arrecadados R$ 70 mil para bancar o tratamento.

O estado de saúde de Júlia também apresentou novas complicações. A jovem precisou ser internada novamente entre 4 de agosto e 5 de setembro, período em que passou por novos procedimentos cirúrgicos na cabeça.

Segundo a mãe, durante uma cirurgia para recolocar a calota craniana, os médicos encontraram uma complicação decorrente do primeiro procedimento de emergência. O couro cabeludo havia aderido diretamente ao cérebro, exigindo uma intervenção que levou mais de cinco horas.

A jovem também desenvolveu hidrocefalia e precisou passar por outros procedimentos. Após as novas cirurgias, a família relata que houve uma regressão no quadro.

“Ela não está como estava antes dessas cirurgias. Regrediu. Os movimentos, a fala e as reações ficaram bem limitados”, afirmou Danielle. Atualmente, Júlia faz sessões diárias de fisioterapia, fonoaudiologia e eletromodulação.

Laudo aponta movimento brusco durante a atração

Um laudo médico citado pela família aponta que o traumatismo cranioencefálico ocorreu em decorrência de um mecanismo de contragolpe durante o percurso da Montezum. Segundo o neurocirurgião Victor Batistela, movimentos de aceleração, desaceleração e rotação da cabeça podem provocar o rompimento de vasos sanguíneos no cérebro.

A Montezum é uma montanha-russa de madeira inaugurada em 1999. A atração tem cerca de 42 metros de altura, percurso de pouco mais de um quilômetro e pode atingir até 103 km/h. O acidente envolvendo Júlia não é o primeiro caso relacionado à atração que chegou à Justiça ou foi relatado por visitantes.

Em 2018, Nathalia Assenjo Motta sofreu uma lesão na região cervical depois de andar na Montezum. Segundo o relato da professora, o movimento durante uma curva provocou um efeito de “chicote” no pescoço. Ela precisou passar por cirurgia e recebeu 12 pinos e duas hastes na região cervical. Nathalia recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas ficou com restrições na mobilidade do pescoço. O Hopi Hari pagou uma indenização por danos materiais.

“Fisioterapias, hidroterapia que eu tive que pagar particular, que o plano não cobre. Eu tenho essas dores absurdas e preciso tomar remédios fortíssimos”, relatou Nathalia em entrevista ao g1.

Outro caso ocorreu em 2014, quando Márcio ficou tetraplégico depois de andar na Montezum. Segundo o advogado João Erhardt, um laudo apontou que o quadro neurológico estava relacionado ao movimento de “chicote” durante o percurso. Márcio morreu em 2023, em decorrência de complicações relacionadas a uma infecção urinária.

Além dos casos que chegaram à Justiça, uma plataforma de avaliação de consumidores reúne pelo menos 40 registros feitos nos últimos dois anos por pessoas que afirmam ter sofrido lesões depois de andar na Montezum. Os relatos mencionam dores no pescoço, problemas nos joelhos e fraturas nas costelas.

Ministério Público investiga o caso

A situação de Júlia também entrou no radar do Ministério Público de São Paulo. A investigação busca apurar as circunstâncias do acidente e eventuais responsabilidades relacionadas ao episódio. O processo de indenização movido pela família continua em tramitação. O Hopi Hari afirmou que essa questão seguirá os “trâmites naturais” da Justiça.

Em comunicado, o parque também destacou que prestou atendimento logo após o episódio, realizou os primeiros socorros no ambulatório da atração e encaminhou Júlia para a Santa Casa de Vinhedo.

A empresa afirmou ainda que acompanhou o atendimento médico e manteve contato com os familiares durante o período de internação em Vinhedo. Sobre a assistência após a alta, o parque disse ter identificado a lacuna no atendimento e informou que as despesas essenciais de Júlia serão novamente custeadas, com efeito retroativo à data da alta hospitalar.

A definição dos valores e das demais responsabilidades, no entanto, permanece relacionada aos processos em andamento.

*Com informações de G1