
Pouco mais de três meses após assumir o comando da The Walt Disney Company, Josh D’Amaro começou a implementar mudanças que indicam os rumos da empresa para os próximos anos. O executivo, que assumiu o cargo de CEO em março de 2026 após a saída de Bob Iger, concentra sua estratégia na integração dos negócios da companhia, na ampliação da atuação digital e na simplificação da estrutura corporativa. As primeiras iniciativas da nova gestão envolvem áreas consideradas estratégicas para o futuro da empresa, como streaming, televisão, esportes, tecnologia, parques temáticos e produtos de consumo.
Em entrevista ao The Wall Street Journal, D’Amaro informa que pretende promover uma mudança cultural dentro da organização, baseada em maior velocidade na tomada de decisões e disposição para assumir riscos. “Acho que, se você conversar com qualquer pessoa dentro desta organização sobre o que estou tentando fazer culturalmente, é velocidade e disposição para assumir riscos”, afirma Josh D’Amaro. A declaração sintetiza uma gestão que busca acelerar processos em uma empresa que reúne negócios de entretenimento, mídia, esportes, turismo e experiências presenciais.
Streaming passa a ocupar posição central
Uma das prioridades estabelecidas pelo novo CEO é ampliar o papel do Disney+ dentro do ecossistema da companhia. Em vez de funcionar apenas como plataforma de streaming, o serviço passa a ser tratado como um ponto de conexão entre diferentes áreas da Disney, incluindo parques temáticos, produtos licenciados, jogos eletrônicos e eventos esportivos.
Segundo D’Amaro, a empresa possui um conjunto de propriedades intelectuais e ativos que permitem criar uma experiência integrada para os consumidores. O executivo observa que concorrentes vêm ampliando investimentos em esportes ao vivo e propriedades intelectuais, enquanto a Disney já reúne esses ativos em seu portfólio. “A equação é bastante clara. Temos aquilo que todos querem. Vamos usar isso para criar uma experiência para os fãs o mais integrada possível”, declara.
Para viabilizar esse objetivo, a companhia iniciou a integração das plataformas tecnológicas utilizadas por diferentes unidades de negócios. A proposta é permitir que a empresa compreenda melhor o comportamento dos consumidores em diferentes pontos de contato, como visitas aos parques, consumo de conteúdo em streaming e aquisição de produtos licenciados.
Também passam a participar das reuniões relacionadas ao Disney+ executivos responsáveis pelos parques temáticos e pela divisão de produtos de consumo. Além disso, a empresa investe em melhorias no aplicativo para facilitar a navegação entre filmes, atrações dos parques, jogos eletrônicos e outras experiências ligadas às marcas Disney, Pixar, Marvel, Lucasfilm e ESPN.
Reestruturação reduz divisões internas
Outra frente de trabalho envolve mudanças organizacionais. Historicamente, a Disney operava com áreas relativamente independentes, como cinema, televisão, parques, produtos licenciados e plataformas digitais. A nova administração busca aproximar essas unidades. Entre as alterações anunciadas está a centralização das atividades de marketing sob a liderança do diretor global de marketing, Asad Ayaz.
Ao mesmo tempo, os negócios de cinema, televisão e streaming passam a responder diretamente à presidente da companhia, Dana Walden. Outra mudança significativa envolve os videogames. A divisão deixa de fazer parte da área de produtos de consumo e passa a integrar o setor de entretenimento, refletindo a importância crescente desse mercado para a estratégia da empresa.
Segundo D’Amaro, a reorganização continuará nos próximos meses. “Vocês continuarão vendo mudanças para criar uma organização que seja a mais adequada possível para o futuro que imaginamos”, afirma. Como consequência da reestruturação, aproximadamente mil funcionários foram desligados. Segundo o Wall Street Journal, pessoas próximas à empresa avaliam que novos cortes poderão ocorrer à medida que o processo de integração entre departamentos avance e a companhia continue buscando ganhos de eficiência.
ESPN permanece como ativo estratégico
Outra decisão relevante da nova gestão envolve a manutenção da ESPN dentro do grupo Disney. Nos últimos anos, analistas e executivos do mercado discutiram a possibilidade de venda de canais de televisão tradicionais diante da queda no número de assinantes da TV por assinatura.
Durante o processo de transição da presidência executiva, a empresa reavaliou o papel desses ativos. Segundo o jornal norte-americano, a conclusão foi que ESPN, ABC e FX possuem maior valor estratégico para os planos digitais da companhia do que representariam em uma eventual venda.
A avaliação considera que eventos esportivos ao vivo e produções televisivas continuam sendo importantes para aumentar o engajamento dos assinantes do Disney+. Séries produzidas pelo FX, como Shōgun, e programas exibidos pela ABC permanecem relevantes para ampliar o consumo de conteúdo dentro da plataforma. Ao mesmo tempo, a ESPN ocupa posição central na estratégia de crescimento do streaming esportivo.
A companhia reconhece que os direitos de transmissão tendem a se tornar mais caros nos próximos anos devido à concorrência entre empresas tradicionais de mídia e plataformas de tecnologia. Mesmo assim, a administração considera que manter esses direitos fortalece o posicionamento digital da Disney.
Primeiro embate político marca início da gestão
Os primeiros 100 dias de Josh D’Amaro também foram marcados por uma disputa envolvendo a Federal Communications Commission (FCC), agência reguladora das comunicações dos Estados Unidos. A controvérsia ocorreu após a FCC solicitar a renovação antecipada das licenças das emissoras de televisão da ABC controladas pela Disney.
A medida foi anunciada depois de comentários feitos pelo apresentador Jimmy Kimmel sobre a primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump. O presidente da FCC, Brendan Carr, relacionou a decisão a uma investigação envolvendo políticas de diversidade, equidade e inclusão adotadas pela empresa. A Disney rejeita essa justificativa. Em documentos apresentados ao órgão regulador, a companhia argumenta que a iniciativa representa uma tentativa de restringir a liberdade de expressão por meio de procedimentos administrativos.
A empresa também contesta uma investigação envolvendo o programa The View, sustentando que medidas dessa natureza podem limitar o debate político. Segundo o Wall Street Journal, a postura adotada recebeu apoio de parte dos funcionários da Disney, que aguardavam a forma como o novo CEO conduziria sua primeira crise política.
Josh D’Amaro assume a liderança da Disney em um momento de transformação da indústria do entretenimento. Após duas décadas marcadas por grandes aquisições conduzidas por Bob Iger, incluindo Pixar, Marvel, Lucasfilm e parte da 21st Century Fox, o desafio da nova administração consiste em integrar esses ativos em uma estratégia digital capaz de gerar crescimento sustentável.
Além de ampliar a participação do Disney+ no relacionamento com consumidores, o executivo aposta na aproximação entre as diferentes áreas da companhia para criar uma operação mais integrada e alinhada às mudanças no comportamento do público. Ao mesmo tempo, a empresa busca equilibrar investimentos em tecnologia, streaming, esportes, parques temáticos e produção de conteúdo diante de um cenário de maior competição global.







