
O tráfego aéreo mundial deve alcançar a marca de 10 bilhões de passageiros em 2026, segundo projeção apresentada pelo Conselho Internacional de Aeroportos (ACI World) nesta segunda-feira (28), durante o WAGA 2026, realizado em Lima, no Peru. Para acompanhar a expansão prevista para as próximas décadas, estimativas preliminares da entidade indicam a necessidade de mais de US$ 4 trilhões em investimentos em capacidade aeroportuária até 2055.
Os números foram apresentados durante coletiva de imprensa com Justin Erbacci, diretor-geral da ACI World; Rafael Echevarne, diretor-geral da ACI-LAC; e Juan José Salmón, presidente do Conselho de Administração da ACI-LAC e CEO da Lima Airport Partners. O encontro integra a programação do ACI-LAC / ACI World Annual General Assembly & Exhibition, que reúne mais de 650 participantes na capital peruana.
No primeiro semestre deste ano, o tráfego global chegou a 4,7 bilhões de passageiros. Apesar dos desafios geopolíticos e econômicos enfrentados pelo setor, a ACI World espera encerrar 2026 com aproximadamente 10 bilhões de viajantes. Para 2047, a projeção se aproxima dos 20 bilhões.
“Estamos a caminho de quase 20 bilhões até 2047. Nossas estimativas são de que a demanda nos levará a dobrar nosso tráfego até 2047. Portanto, a demanda global por viagens não está em questão”, afirmou Erbacci.
América Latina cresce acima da média global
A América Latina e o Caribe aparecem em posição de destaque nessa expansão. Segundo Erbacci, o crescimento do número de passageiros na região durante o primeiro semestre de 2026 foi mais de três vezes superior à média mundial.
O diretor-geral da ACI World também destacou a posição de Lima no mercado regional. O aeroporto da capital peruana aparece como o sexto da América Latina e Caribe em número de passageiros e o quinto em movimentos de aeronaves, mantendo trajetória de crescimento.
A região também vem ampliando iniciativas relacionadas à experiência dos passageiros. Neste ano, 58 aeroportos latino-americanos e caribenhos participaram do Airport Service Quality (ASQ), programa da ACI que mede a satisfação dos viajantes diretamente nos terminais. Dez aeroportos da região receberam, ao todo, 21 prêmios referentes ao desempenho de 2025.
Na sustentabilidade, o Aeroporto de Lima renovou sua certificação de carbono de nível 3, enquanto 117 aeroportos da América Latina e Caribe já participam do programa de acreditação de carbono citado pela entidade durante a apresentação.
ACI cobra planejamento antes de crise de capacidade
Com a perspectiva de praticamente dobrar o número de passageiros nas próximas duas décadas, a ACI World defende que governos antecipem decisões de infraestrutura antes que a falta de capacidade se transforme em um gargalo para o setor.
“Pedimos aos governos e formuladores de políticas que planejem o crescimento antes que ele se torne uma crise”, afirmou Erbacci.
Uma das frentes defendidas pela entidade é a modernização das regras para distribuição de slots nos aeroportos mais congestionados. Segundo o executivo, as diretrizes que sustentam o atual modelo foram formuladas há mais de 50 anos e não acompanharam integralmente a expansão e as transformações da aviação.
A ACI World defende maior transparência na distribuição dos slots, maior participação dos aeroportos nas decisões de acesso e uma estrutura que considere os resultados proporcionados aos passageiros, comunidades e economias.
Outra preocupação é o financiamento da expansão. Estimativas preliminares apresentadas pela entidade indicam que serão necessários mais de US$ 4 trilhões para construir a capacidade aeroportuária demandada até 2055.
“Os ministérios da Fazenda devem olhar além da receita imediata e reconhecer o maior valor econômico que a conectividade cria”, disse Erbacci.
A entidade também defendeu estruturas regulatórias estáveis para estimular investimentos de longo prazo e maior participação do capital privado no financiamento da infraestrutura necessária para acompanhar o crescimento da aviação.
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Liberalização entra no debate na América Latina
Para Rafael Echevarne, a expansão do transporte aéreo latino-americano também passa por mudanças no ambiente regulatório. Durante a coletiva, o diretor-geral da ACI-LAC defendeu a liberalização e a desregulamentação do transporte aéreo como caminhos para estimular o tráfego na região.
A discussão ocorre em um momento no qual a América Latina apresenta recuperação e expansão do tráfego, ao mesmo tempo em que enfrenta a necessidade de modernizar e ampliar sua infraestrutura aeroportuária.
Outro ponto levantado foi a participação do investimento privado nesse processo. A avaliação apresentada durante a coletiva é que o capital privado terá papel relevante diante do volume de recursos necessário para modernizar terminais e acompanhar o crescimento projetado para as próximas décadas.
SITA coloca dados e IA no centro da transformação dos aeroportos
Na sequência da coletiva da ACI, a SITA apresentou sua visão sobre o papel da tecnologia na transformação dos aeroportos. O conceito apresentado foi o de uma “plataforma orquestrada”, na qual sistemas que atualmente operam de maneira separada passam a compartilhar informações para melhorar a operação e a experiência dos passageiros.
A proposta combina dados, inteligência artificial, identidade digital, biometria e diferentes sistemas aeroportuários. Segundo a apresentação, um dos desafios atuais é justamente conectar informações armazenadas em plataformas independentes.
A SITA destacou que dados isolados têm capacidade limitada de apoiar a gestão dos terminais. A integração dessas informações permitiria análises em tempo real e uma tomada de decisão mais rápida diante de alterações na operação.
A inteligência artificial aparece nesse modelo como uma ferramenta de apoio aos profissionais. Durante a apresentação, foi ressaltado que a tecnologia pode processar informações que mudam minuto a minuto e ajudar equipes a responder a situações capazes de provocar interrupções, sem substituir o elemento humano na operação aeroportuária.
Biometria e identidade digital avançam na jornada
A transformação tecnológica também acompanha mudanças no comportamento dos passageiros. Segundo os dados apresentados pela SITA durante a coletiva, 95% dos viajantes demonstram disposição para compartilhar credenciais digitais por meio de sistemas eletrônicos e dispositivos móveis.
Nesse cenário, sistemas biométricos e de identidade digital ganham espaço em diferentes etapas da jornada. A proposta é reduzir processos fragmentados e permitir que informações acompanhem o viajante ao longo de sua passagem pelo aeroporto.
A integração tecnológica também pode contribuir para ampliar a capacidade dos terminais sem depender exclusivamente da expansão física. A ideia apresentada pela SITA é utilizar dados e automação para aproveitar melhor a infraestrutura disponível e tornar os processos aeroportuários mais eficientes.
Tecnologia também mira receitas não aeronáuticas
A estratégia vai além das operações de embarque e desembarque. A SITA destacou que a integração de informações pode ajudar aeroportos a compreender melhor o comportamento dos passageiros e ampliar receitas provenientes de atividades comerciais.
A análise de padrões de compra, buscas e consumo, respeitando os parâmetros de privacidade aplicáveis, permite identificar características dos passageiros e direcionar ofertas de produtos e serviços dentro dos terminais.
Esse modelo de retail analytics integra a visão de aeroporto como uma plataforma conectada, na qual infraestrutura física, operações, tecnologia, companhias aéreas, autoridades e atividades comerciais compartilham informações.
A discussão ganha importância diante das projeções apresentadas no WAGA 2026. Com o tráfego mundial caminhando para aproximadamente 20 bilhões de passageiros anuais em 2047, investimentos em infraestrutura e adoção de novas tecnologias aparecem como duas frentes para preparar os aeroportos para um volume de viajantes que poderá ser praticamente duas vezes maior que o atual.






