Mobilidade urbana expõe o custo invisível das viagens corporativas
Mobilidade urbana ainda escapa das políticas corporativas e amplia desafios de gestão (Freepik/PressFoto)

Apesar dos avanços tecnológicos na gestão de viagens corporativas, uma etapa essencial da jornada dos colaboradores ainda permanece fora do controle das empresas: a mobilidade urbana. Enquanto organizações investem em plataformas para gerenciamento de passagens aéreas, hospedagem, prestação de contas e automação de processos, os deslocamentos terrestres continuam, em grande parte, acontecendo à margem das políticas corporativas, gerando impactos sobre custos, segurança, compliance e experiência dos viajantes.

O alerta foi reforçado por uma pesquisa realizada pela Global Business Travel Association (GBTA), em parceria com a Grab, que entrevistou 1.200 viajantes corporativos no Sudeste Asiático. O levantamento revelou que 83% dos profissionais utilizam serviços de transporte terrestre fora da política da empresa ou de fornecedores homologados. Ao mesmo tempo, 95% recorrem a aplicativos de mobilidade, mas apenas 58% afirmam contar com algum tipo de gestão corporativa formal para esses deslocamentos.

Embora o estudo tenha sido conduzido em países asiáticos, a própria GBTA avalia que esse comportamento tende a se repetir em mercados onde os aplicativos de transporte têm forte presença, como ocorre na América Latina e no Brasil.

Para Carolina Gaete, Diretora Comercial e Parcerias Globais da Voetur Viagens, os números evidenciam uma lacuna crescente nos programas corporativos. “Existe hoje uma falsa sensação de controle nas viagens corporativas. Muitas empresas acreditam que têm total visibilidade da jornada porque monitoram passagens aéreas, hospedagem ou até prestação de contas. Mas, na prática, uma parte relevante da experiência do viajante acontece fora desses controles, especialmente nos deslocamentos urbanos. É justamente nesse trecho que surgem desafios relacionados à segurança, compliance, gestão de despesas e experiência do colaborador”.

Segurança e bem-estar também entram na equação

Os dados da pesquisa mostram que os desafios vão além da gestão financeira. Para 32% dos entrevistados, circular por locais desconhecidos é o principal fator de estresse durante uma viagem de trabalho. Além disso, 44% associam os trajetos terrestres a sentimentos negativos, como pressa, insegurança e incerteza.

A preocupação com a proteção dos profissionais também se destaca. Três em cada quatro viajantes consideram a segurança um critério decisivo na escolha do serviço de transporte. Entre os recursos mais valorizados estão a verificação de motoristas, ferramentas de suporte em situações de emergência e o compartilhamento do trajeto em tempo real.

Na avaliação da Voetur Viagens, esses indicadores reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre os programas corporativos, tradicionalmente concentrados na negociação de passagens e hospedagem.

“Durante muitos anos, a discussão sobre gestão de viagens corporativas esteve concentrada em negociar tarifas e controlar acordos. Hoje, a conversa é mais ampla. As empresas precisam entender toda a jornada do viajante. Quando o colaborador sai de sua casa, embarca e desembarca, ele continua representando a organização e continua exposto a riscos operacionais, de segurança e até de produtividade. A mobilidade corporativa precisa deixar de ser vista como um detalhe logístico para ocupar um papel estratégico dentro dos programas de viagem”, destaca Gaete.

Fragmentação gera custos e reduz eficiência

Além dos riscos relacionados à segurança, a falta de integração entre sistemas também traz impactos operacionais e financeiros. Segundo o estudo, quase metade dos entrevistados leva mais de 20 minutos para registrar despesas referentes ao transporte terrestre após cada deslocamento. Outros 57% admitem adiar esse processo, o que aumenta a possibilidade de inconsistências, atrasos nos reembolsos e perda de visibilidade sobre os gastos corporativos.

Esse cenário contrasta com o atual movimento do setor em direção à transformação digital. Dados recentes da própria GBTA apontam que 92% dos gestores de viagens pretendem utilizar recursos de inteligência artificial para aprimorar análises preditivas e tornar a administração dos programas corporativos mais eficiente.

Para Carolina Gaete, porém, o principal desafio não está apenas na adoção de novas tecnologias, mas na integração entre todas as etapas da jornada. “É curioso observar que o setor discute inteligência artificial, automação e hiperpersonalização, mas ainda convive com processos hiper fragmentados justamente em uma das etapas mais frequentes da viagem. O desafio não é apenas tecnológico. Trata-se de integrar informações, dar mais previsibilidade ao viajante e oferecer às empresas uma visão completa da jornada para que decisões sejam tomadas com base em dados e não em percepções”, conclui.

À medida que as empresas buscam equilibrar eficiência operacional, controle de despesas, segurança e bem-estar dos colaboradores, a mobilidade urbana tende a assumir um papel cada vez mais estratégico nas políticas de viagens corporativas. O que antes era tratado apenas como um deslocamento entre compromissos passa a ser reconhecido como uma etapa decisiva para garantir produtividade, conformidade e uma gestão mais completa de toda a experiência do viajante.