Quando a arquibancada vira destino: o boom global das viagens esportivas
Flamengo atrai rubro-negros ao Oriente Médio em dezembro (Luis Acosta/AFP)

O turismo esportivo deixou de ser um nicho e assumiu protagonismo na indústria global de viagens. Dados recentes mostram um movimento consistente de expansão, impulsionado tanto por quem cruza fronteiras para ver seus ídolos em campo quanto por quem escolhe viajar para competir.

O estudo Sports Tourism Market Size, Share & Industry Analysis 2024–2032, da Fortune Business Insights, avaliou o mercado em US$ 618,69 bilhões em 2024 e projeta que o setor ultrapasse US$ 2 trilhões até 2032, avançando a um ritmo médio anual de 16,43%. Já a ONU Turismo reforça a força econômica do segmento ao apontar que cerca de 10% dos gastos mundiais com turismo vêm de experiências ligadas ao esporte.

No Brasil, o cenário também é promissor. A edição mais recente da Revista Tendências do Turismo 2025, do Ministério do Turismo, indica que 40% dos viajantes entre 25 e 34 anos pretendem viajar para assistir a eventos esportivos, dentro e fora do país. Com redes sociais influenciando desejos e transformando experiências ao vivo em símbolos de status emocional e digital, cresce o número de turistas que querem trocar a tela pela arquibancada – e, em muitos casos, até mesmo pelo campo ou pela pista.

Esse movimento não impacta apenas aeroportos, hotéis e restaurantes; ele vem moldando um novo jeito de viajar. O estudo da Fortune Business Insights mostra que o turismo passivo, voltado a espectadores, deve liderar o mercado global e concentrar 59% da demanda, impulsionado por competições como Copa do Mundo, Jogos Olímpicos, Wimbledon e Fórmula 1. Em paralelo, o turismo ativo, que envolve participação direta em maratonas, corridas e torneios amadores, deve seguir em expansão e registrar um CAGR de 16,14% até 2032.

À medida que o público se torna mais disposto a viajar motivado pelo esporte, cresce também a tendência de integrar competições a roteiros mais amplos. A Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, ilustra bem esse comportamento: quem planeja acompanhar a seleção ou grandes partidas já inclui no itinerário cidades como Miami, Los Angeles, Nova York ou Houston, combinando datas de jogos com programas de entretenimento, gastronomia, compras e passeios urbanos.

Cada vez mais, o gosto por esporte e o desejo de viajar caminham juntos. Roteiros esportivos deixam de ser restritos ao estádio ou à arena e passam a abranger experiências culturais e de lazer nas cidades anfitriãs. Agências especializadas já estruturam pacotes que incorporam datas de jogos a viagens completas, alinhando paixão esportiva, descoberta de destinos e impacto econômico para o turismo brasileiro.

Esporte em casa: como eventos no Brasil movimentam o turismo interno

No Brasil, grandes competições e ativações esportivas já funcionam como motores de demanda e ajudam a estender o calendário de viagens domésticas ao longo do ano. O GP de São Paulo de 2026, que inicia vendas em dezembro, reforça o apelo da Fórmula 1 no país e costuma movimentar intensamente a hotelaria e a economia local.

A expansão desse mercado também se manifesta em experiências que extrapolam a arena esportiva. A NBA House, por exemplo, transformou-se em um fenômeno entre os fãs de basquete: transmite jogos, promove atividades imersivas e reúne milhares de torcedores que viajam especialmente para vivenciar a atmosfera das finais da liga.

O movimento se repete com o futebol americano. Após a confirmação de que o Rio de Janeiro receberá, em 2026, um jogo oficial da temporada regular da NFL – o primeiro da liga na América do Sul –, a cidade entrou no radar de torcedores de diversos estados e de países vizinhos.

A nível global, as viagens domésticas seguem liderando o turismo esportivo. De acordo com a Fortune Business Insights, devem representar 65% do mercado em 2025. Essa tendência se reflete no Brasil, onde a melhoria da infraestrutura esportiva e iniciativas governamentais e regionais têm diversificado o portfólio de eventos e ampliado a movimentação de visitantes dentro do próprio país.

Flamengo no Catar: quanto custa acompanhar o time?

Em dezembro, a Copa Intercontinental da Fifa deve impulsionar uma nova onda de viagens ao Oriente Médio, especialmente entre torcedores do Flamengo. O clube estreia no dia 10 de dezembro contra o Cruz Azul, no Estádio Ahmed bin Ali, em Doha. Caso avance, volta a campo nos dias 13 e 17 para disputar a Copa Challenger e, depois, a final. Como todas as partidas acontecem no mesmo estádio, a logística se concentra em um único ponto da cidade, mas isso não significa que a viagem saia barata.

De acordo com levantamento divulgado pela CBN Paraíba, os ingressos variam de R$ 29 a R$ 72 para as primeiras rodadas, enquanto a decisão pode custar de R$ 72 a R$ 365, dependendo da categoria. O maior peso no orçamento, porém, está nas passagens: voos saindo do Rio de Janeiro para Doha variam entre R$ 6.500 e R$ 11.000, valores influenciados pela alta demanda internacional em dezembro.

A hospedagem também exige planejamento. Hotéis de padrão três e quatro estrelas próximos ao estádio têm diárias entre R$ 260 e R$ 780. Considerando uma estadia de até nove dias, tempo suficiente para acompanhar todo o percurso do Flamengo, o custo total pode ficar entre R$ 2.300 e R$ 6.500. A isso se somam alimentação e transporte local.

No fim da conta, quem decidir seguir o Flamengo até o Catar deve preparar um orçamento na faixa de R$ 10 mil a R$ 20 mil para viver a experiência completa. Uma cifra que reforça como o turismo esportivo pode transformar eventos internacionais em verdadeiras operações de viagem.

Cuidados na hora da compra

Com a emoção da viagem, também aumentam os riscos. Especialistas reforçam a importância de evitar empresas que prometem mais do que podem cumprir e lembrar que ofertas muito abaixo do mercado costumam ser sinal de alerta. Para eventos esportivos de grande porte, a recomendação é sempre buscar agências credenciadas e reconhecidas oficialmente, garantindo segurança jurídica e operacional desde a compra até o retorno da viagem.