
Previsto em contrato para entrar em operação em fevereiro de 2024, o trem que ligará os terminais do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, à Linha 13-Jade da CPTM segue sem data oficial de inauguração para o público geral. Apesar de estar em fase de testes desde dezembro e já transportar funcionários do aeroporto e de companhias aéreas, o sistema acumula uma sequência de adiamentos e se tornou alvo de questionamentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Responsável pela construção e pela operação do modal, o consórcio AeroGRU afirma que a abertura ao público deve ocorrer ainda nos primeiros meses de 2026. “Existe um rito e estamos na etapa final. Isso não deve passar de três a quatro meses”, declarou o diretor de Operações do consórcio, Eduardo Chrysostomo. Segundo ele, assim que a data exata for definida, haverá comunicação oficial.
O AeroGRU sustenta que o sistema já demonstra “plena capacidade técnica para a entrega e operação completa”. Desde 1º de outubro, mais de 15 mil simulações de desempenho e segurança teriam sido realizadas, incluindo viagens sem passageiros no trecho de Guarulhos. Ainda assim, a operação segue restrita e sem prazo definitivo para abertura ao público.
Certificação internacional e entraves técnicos em Guarulhos
O principal motivo apontado pelo consórcio para o atraso é a complexidade do processo de certificação internacional de segurança, especialmente a obtenção do selo Safety Integrity Level 4 (SIL-4), considerado o nível máximo mundial de segurança para sistemas automatizados de transporte.
Segundo Chrysostomo, a certificação é exigência contratual e envolve auditorias conduzidas por duas empresas internacionais independentes. O sistema conta com múltiplos mecanismos de segurança redundantes, capazes de interromper a operação em milissegundos em caso de falha. “É a mesma certificação de um submarino, um avião ou uma usina nuclear”, comparou o executivo.

O trem utiliza a tecnologia Automated People Mover (APM). De acordo com Diego Abs, gerente de tecnologia da Aerom, trata-se do primeiro people mover do mundo a buscar a certificação SIL-4. “Não havia experiência prévia que mostrasse o prazo que isso demandaria. Quando o contrato foi firmado, esse tempo não foi considerado”, afirma.
Especialistas confirmam que o processo é, de fato, demorado. Para Luis Kolle, presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô, a certificação pode levar de um a três anos. “Tudo precisa ser testado, comprovado e revisado por equipes independentes. Poucos sistemas no Brasil atingem esse nível de exigência”, diz.
Problemas com fornecedores e questionamentos da Anac
Além da certificação, o AeroGRU atribui parte do atraso a ajustes técnicos e comerciais com a fornecedora de motores Innomotics. Em documentos enviados à Anac, o consórcio afirmou que as tratativas eram indispensáveis para alinhar o cronograma às condições técnicas e contratuais, evitando novas reprogramações.
Em nota, a Innomotics declarou que trabalha para cumprir os prazos e ressaltou que seu escopo se limita aos equipamentos elétricos e ao sistema de operação autônoma, que dependem de outros sistemas fora de sua responsabilidade.
A Anac, no entanto, tem sido mais cautelosa. Em relatório de 6 de janeiro, a agência afirmou que não havia “elementos suficientes que permitam considerar confiável qualquer prazo de conclusão” nem comprovação de capacidade técnica plena naquele momento. Desde maio de 2024, a autarquia mantém um processo aberto para apurar o atraso, que pode resultar em multa à concessionária, conforme a duração total do descumprimento contratual.
Operação limitada e incidentes
Atualmente, o aeromóvel opera apenas em caráter de testes, das 17h30 à meia-noite, com um único trem (o de cor verde) e intervalos de 20 minutos. O trajeto completo entre a CPTM e o Terminal 3 leva cerca de 10 minutos. A promessa é reduzir o tempo para seis minutos quando dois trens estiverem em operação simultânea.
O segundo veículo, de cor laranja, segue em testes sem passageiros e tem previsão de entrar em operação apenas em abril. Um terceiro trem, azul, também está previsto em contrato, mas ainda não entrou em fase operacional.
No dia 15 de janeiro, um dos testes precisou ser interrompido devido ao alto volume de chuvas em Guarulhos. Funcionários que estavam a bordo tiveram de desembarcar diretamente sobre os trilhos, episódio que reforçou as preocupações em torno da segurança e da robustez do sistema.
Histórico de atrasos e disputas regulatórias
A ideia de um transporte sobre trilhos entre os terminais de Guarulhos existe desde 2012, quando a GRU Airport assumiu a concessão do aeroporto. No entanto, as obras só começaram em janeiro de 2022, após anos de discussões sobre modelo de execução, financiamento e estrutura contratual. O Tribunal de Contas da União chegou a suspender versões anteriores do projeto.
Nos últimos dois anos, o cronograma foi sucessivamente revisto: fevereiro de 2024, outubro de 2024, fevereiro de 2025, agosto de 2025. Nenhum dos prazos foi cumprido. Em outubro de 2024, a Anac chegou a emitir um aviso de condição irregular contra a GRU Airport por reiterado descumprimento de exigências e recomendações.
A concessionária afirma acompanhar de perto a implantação do sistema e diz prezar pela segurança. Já o Ministério de Portos e Aeroportos informa que a fiscalização do contrato é atribuição da Anac.
Quando o público poderá usar o trem de Guarulhos?
Segundo informações mais recentes repassadas verbalmente pelo AeroGRU à Anac e ao Estadão, a expectativa é abrir o sistema ao público até 31 de março de 2026, ainda que em operação parcial. A operação plena, com certificação completa e funcionamento em horário ampliado, está prevista para agosto de 2026 — prazo que, mais uma vez, é visto com cautela pelos órgãos reguladores.
Enquanto isso, passageiros que querem chegar a Guarulhos seguem dependendo dos ônibus gratuitos para circular entre os terminais de um dos aeroportos mais movimentados da América Latina, à espera de um trem que, embora tecnicamente promissor, ainda não conseguiu sair do papel no ritmo previsto.
*Com informações de O Estadão.







