Sou carioca. Moro no Rio de Janeiro e, como profissional do turismo, vivo diariamente o contraste entre o potencial extraordinário dessa cidade e a sua dura realidade. Nesta terça-feira (28), mais uma vez, o Rio parou — não por um evento esportivo, nem por uma celebração cultural, mas por medo. Sessenta e quatro mortos, ônibus sequestrados, vias interditadas, famílias trancadas em casa. Um dia de terror que, além de destruir vidas, corrói a imagem e a confiança em um dos destinos turísticos mais emblemáticos do planeta.

Trabalho com turismo há anos e acompanho, com orgulho, os recordes que o setor vem batendo em 2025. O Brasil vive um momento histórico: nunca recebemos tantos visitantes estrangeiros, nunca estivemos tão em evidência no cenário internacional. O Rio de Janeiro, com suas belezas incomparáveis — do Pão de Açúcar ao Cristo Redentor, das praias à boemia cultural —, tem tudo para liderar esse crescimento. Mas como defender um destino em que o medo toma conta das ruas e a violência ocupa o espaço que deveria ser da convivência e da esperança?

Conheço inúmeras pessoas — amigos, colegas, brasileiros de outros estados, e até moradores do interior do próprio Rio — que não têm coragem de visitar a capital. Muitos sonham em conhecer o Maracanã, caminhar pelo Boulevard Olímpico, ver o pôr do sol no Arpoador, mas desistem diante das manchetes que ecoam no mundo inteiro. Cada ônibus incendiado, cada via bloqueada, cada tiroteio em horário comercial reforça a ideia de uma cidade sem controle. E essa é uma perda que não se mede apenas em números — é uma ferida na alma do turismo carioca.

O turismo é, antes de tudo, sobre liberdade: o direito de ir e vir, de circular, de sonhar com novos lugares e experiências. Quando essa liberdade é ameaçada, não são apenas os visitantes que perdem — nós, moradores, também. Hoje, ver as principais vias interditadas, famílias presas em casa, escolas e comércios fechados é sentir que nosso cotidiano foi sequestrado junto com os ônibus. É viver sob tensão constante, como se a cidade estivesse refém de algo que ultrapassa a segurança pública e atinge diretamente nossa dignidade.

A violência não é um problema apenas do Rio — é uma questão nacional, e deve ser tratada como tal. O governo federal precisa entrar nessa luta. Não se trata de política, mas de responsabilidade. O enfrentamento ao crime organizado exige integração, estratégia e recursos que ultrapassam a capacidade de um governo estadual. A ausência de apoio federal, em situações como a de hoje, é mais do que omissão — é um abandono. Nenhum estado deve combater sozinho uma guerra que é de todos nós.

Como moradora e especialista em turismo, sei o quanto é árduo reconstruir uma imagem. Cada dia como este apaga meses — ou anos — de trabalho de promoção internacional. O turista que vê o Rio em chamas pelas telas da televisão não distingue operação policial de guerra urbana; ele simplesmente risca o destino do mapa. E, junto com ele, vai embora a renda que sustenta famílias, empresas, guias, restaurantes e hotéis.

O Rio é uma cidade de contrastes, sim, mas também é de resistência. Continuamos a acreditar, a trabalhar, a mostrar ao mundo que o turismo pode ser uma força de transformação — se houver segurança, união e coragem política. O que falta não é beleza nem potencial; falta vontade real de resolver o que, há décadas, é empurrado para debaixo do tapete.

Hoje, o que mais desejo é poder andar pelas ruas da minha cidade com o mesmo orgulho que sinto ao falar dela em feiras e eventos pelo mundo. O turismo é um instrumento de paz, de encontro, de desenvolvimento. Mas ele só floresce onde há segurança, respeito e confiança.

Até quando? Essa é a pergunta que todos nós, cariocas, fazemos — não apenas como cidadãos, mas como brasileiros que acreditam no poder do turismo para reconstruir o que a violência insiste em destruir.

Natália Strucchi é diretora de Redação do Mercado & Eventos.