IA da Meta que pesquisa e reserva viagens acende alerta sobre impactos no Turismo
Novo assistente pessoal já realiza tarefas de viagem e começa a chamar atenção de investidores (Reprodução/Getty Images/Minh Connors)

O avanço dos agentes de inteligência artificial sobre a jornada de compra começa a chamar a atenção do turismo. Lançado pela Meta em 8 de setembro, o Muse é capaz não apenas de pesquisar opções de viagem, mas também de executar tarefas em nome do usuário, incluindo busca, comparação, reserva e gerenciamento de passagens. A possibilidade de a tecnologia assumir etapas que hoje passam por sites e aplicativos de companhias aéreas, hotéis e plataformas de reservas já repercute entre investidores e empresas do setor.

A velocidade de adoção inicial ajuda a explicar a atenção. Segundo dados da Sensor Tower divulgados pela imprensa internacional, o aplicativo acumulou cerca de 730 mil downloads nos primeiros cinco dias após o lançamento e ultrapassou 2,5 milhões em menos de duas semanas, considerando iOS e Android. O Muse também chegou ao primeiro lugar entre os aplicativos gratuitos da App Store nos Estados Unidos. O acesso, porém, ainda é limitado, e o lançamento inicial está concentrado no mercado norte-americano.

A diferença em relação aos assistentes tradicionais está na capacidade de executar ações. A própria Meta descreve o Muse como um agente pessoal que “não apenas responde perguntas, ele realmente executa o trabalho”. A ferramenta pode, por exemplo, receber uma solicitação para organizar uma viagem, pesquisar alternativas, apresentar as opções e seguir com a compra após a aprovação do usuário. Segundo a companhia, o agente pede confirmação antes de ações sensíveis, como compras, e mantém um registro das atividades realizadas.

No turismo, uma das primeiras aplicações concretas envolve a integração com a Duffel, empresa de tecnologia que fornece infraestrutura de reservas aéreas por meio de APIs. A conexão permite consultar inventário em tempo real, comparar tarifas, reservar voos, cancelar bilhetes e administrar alterações na viagem. Segundo a Duffel, a plataforma dá acesso a mais de 500 companhias aéreas.

O agente também pode acessar diretamente sites de companhias aéreas. Nesses casos, utiliza seu próprio navegador para executar as etapas da operação e solicita a participação do viajante quando são necessários login, autorização ou outra ação que dependa do usuário.

Pressão sobre o modelo das OTAs

É justamente essa capacidade de executar a compra que despertou preocupação entre empresas que tradicionalmente concentram parte da jornada de pesquisa e reserva. O modelo das OTAs, como Expedia e Booking.com, depende em grande medida de atrair o consumidor para seus ambientes digitais, onde ele pesquisa, compara produtos e conclui a transação.

Com um agente de IA assumindo essas etapas, o viajante pode realizar a pesquisa e chegar à compra sem necessariamente acessar diretamente as plataformas. Em vez de navegar por diferentes páginas para comparar tarifas e condições, basta informar destino, datas e preferências para receber opções compatíveis.

A preocupação já apareceu nos mercados financeiros. Em 23 de setembro, as ações da Expedia recuaram 7,72%, enquanto Airbnb caiu 7,56% e Booking Holdings perdeu 5,07%, em meio às discussões sobre os possíveis efeitos dos agentes de IA sobre o segmento. O movimento ocorreu em um contexto mais amplo de volatilidade do mercado, mas a possibilidade de mudanças no fluxo de reservas esteve entre os fatores acompanhados pelos investidores.

No dia anterior, Expedia e Booking Holdings também haviam registrado quedas de 3,7% e 3,9%, respectivamente. Em sentido oposto, as ações da Meta avançaram 11,4% em 21 de setembro e acumulavam alta superior a 20% desde o lançamento do Muse naquele momento.

Estimativas de mercado apontam que os efeitos dos agentes de IA podem alcançar diferentes setores. Uma análise citada pela imprensa financeira estima entre US$ 30 bilhões e US$ 50 bilhões o potencial relacionado à transformação da cadeia de transações, considerando segmentos como viagens, comércio eletrônico, transporte por aplicativo e entrega de alimentos.

Outra análise, publicada pela Barron’s, calcula que uma transferência de 5% a 10% dos negócios para agentes de IA poderia representar mais de US$ 5 bilhões em perda de receita para esses setores. As cifras são projeções para um cenário futuro e não representam perdas já registradas pelas empresas de viagens.

O Muse ainda está em estágio inicial de adoção, com acesso limitado, o que também restringe conclusões sobre mudanças no comportamento dos consumidores.

Expedia integra reservas ao Muse

Enquanto a novidade chama a atenção dos investidores, a Expedia anunciou uma integração com o agente da Meta. A parceria permitirá que usuários nos Estados Unidos pesquisem e reservem hotéis pelo Muse.

O viajante poderá informar destino, datas e preferências de hospedagem, receber alternativas e concluir a reserva no ambiente do assistente. A Expedia continuará responsável pela operação, enquanto o pagamento será realizado por meio do Muse. A data de disponibilização da funcionalidade ainda não foi informada.

A Expedia já vinha trabalhando com a Meta em outra frente. As empresas testam anúncios conversacionais no feed das plataformas da companhia, permitindo que o viajante inicie o planejamento de uma viagem ou faça perguntas antes de avançar para a reserva. A empresa também participa de iniciativas de reservas por agentes de IA de outras companhias, incluindo recursos agentivos do Google.

Muse amplia recursos e chega aos óculos com IA

O agente também será incorporado a outras experiências da Meta. Durante o Meta Connect 2026, realizado em 23 de setembro, a companhia anunciou sua integração aos óculos com inteligência artificial. Com o recurso, os usuários poderão fazer solicitações por voz sem precisar recorrer ao celular.

Entre os exemplos apresentados pela Meta estão consultar o preço de um voo, marcar compromissos e realizar compras. A companhia informou ainda que os óculos poderão utilizar o Muse para executar diferentes tarefas a partir dos comandos recebidos.

*Com informações de Reuters, PhocusWire, Barron’s, Yahoo Finance, Sensor Tower, Meta e Duffel.