
Minas Gerais chegou a cerca de 33 milhões de turistas em 2025, superou o patamar anterior à pandemia e agora coloca uma nova questão na agenda: como crescer sem perder a identidade dos destinos? A resposta começou a ser construída em Ouro Preto, com o lançamento da Carta do Pilar – Singularidade, Valor e Permanência, documento que reúne dez princípios para orientar os próximos passos do turismo no estado.
Apresentada neste domingo (27), Dia Mundial do Turismo, a Carta retoma uma discussão iniciada em 2021, também em Ouro Preto, quando a celebração da data na Basílica do Pilar marcou um momento de esperança para a retomada do setor após a pandemia.
Cinco anos depois, com o turismo novamente movimentando negócios, empregos e territórios, a proposta é ampliar o olhar para além do número de visitantes e discutir o que permanece nas cidades e comunidades depois da passagem do turista.
“Estamos de volta e cada vez mais convencidos de que, em Minas Gerais, cultura e turismo não podem ser separados. O turismo nasce justamente daquilo que somos: da paisagem, do patrimônio, da fé, da cozinha, das festas, dos saberes e das pessoas”, afirma o secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira.
Crescer, mas deixar valor no destino
Para Leônidas, o desempenho do setor abre uma nova etapa para Minas Gerais. “Minas vive hoje um momento muito forte. Em 2025 chegamos a cerca de 33 milhões de turistas, acima do patamar anterior à pandemia, e o turismo ganhou outra dimensão econômica e territorial. Crescer foi fundamental. A Carta do Pilar surge agora para fazer uma segunda pergunta: crescer como, para quem e deixando o quê nos lugares?”
Entre os princípios defendidos está a maior integração entre turismo e economia local. A ideia é fazer com que hotéis, restaurantes, eventos e demais negócios ampliem a participação de produtores, artesãos, artistas e pequenos empreendedores dos próprios destinos.
“Um hotel pode fazer seu café da manhã contar a história do território, comprando queijo, café, doces, quitandas, frutas e flores de produtores próximos. Um restaurante pode valorizar a cozinha mineira, informar de onde vêm seus ingredientes e colocar agricultores, queijeiros, cozinheiras e pequenos produtores dentro da cadeia do turismo”, destaca o secretário.
A proposta também envolve a distribuição dos benefícios econômicos. Pousadas, por exemplo, podem conectar visitantes a artesãos, guias, feiras, mercados, restaurantes familiares e produtores locais.
“Uma pousada pode indicar ao hóspede o artesão, o guia, o mercado, a feira, o restaurante familiar e o pequeno produtor local, para que o dinheiro circule pela comunidade.”

Fé, patrimônio e natureza
O respeito à identidade dos territórios aparece como outro eixo da Carta. No turismo religioso, a prioridade é preservar as manifestações culturais e os ritos locais.
“A fé vem antes do turismo da fé. Uma procissão, uma missa, um congado ou um jubileu não devem mudar seus ritos para atender ao visitante. O turista é que deve aprender a entrar respeitosamente naquele universo.”
A mesma lógica vale para áreas naturais e patrimônios históricos. “Uma cachoeira, uma gruta, uma vila ou um centro histórico não podem receber indefinidamente até perder justamente aquilo que os tornou especiais. Em certos casos, será necessário organizar horários, capacidade de visitação e circulação.”
A tecnologia também entra na discussão. Para Leônidas, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta de promoção, mas deve respeitar a realidade dos destinos.
“A inteligência artificial pode ajudar muito na promoção dos destinos, mas não deve inventar uma Minas que não existe, alterar paisagens, criar igrejas fictícias ou transformar lugares diferentes numa mesma imagem genérica”, afirma.
Além do número de visitantes
O documento propõe ainda novos indicadores para medir os efeitos do turismo. Além do fluxo de visitantes, a intenção é acompanhar quanto da riqueza permanece no território, a participação dos pequenos negócios, a geração de empregos e a percepção dos moradores sobre a atividade.
“Queremos continuar contando quantos turistas chegam, mas começar também a medir quanto da riqueza ficou no território, quantos pequenos negócios participaram, quantos empregos foram gerados, como o morador percebeu o turismo e como ficaram o patrimônio, a natureza e a identidade local”, explica o secretário.
O lançamento ocorreu na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Ouro Preto, reforçando outra premissa da Carta: o turismo chega a territórios que já possuem história, cultura, relações, crenças e modos de vida próprios.
A proposta abrange não apenas as cidades históricas, mas a diversidade de montanhas, sertões, matas, cerrados, cidades, vilas e comunidades de Minas Gerais.
“Em resumo, queremos que o turismo continue crescendo, mas que cresça melhor. Antes de ser destino turístico, todo lugar é a casa de alguém. E o turismo será realmente bom quando quem vive nessa casa estiver entre os primeiros beneficiários desse desenvolvimento”, conclui Leônidas Oliveira.
Os 10 princípios para o futuro do turismo em Minas Gerais
1. Cultura é vida, não cenário — Valorizar cultura, gastronomia, religiosidade, artesanato e tradições como identidade e patrimônio, e não apenas como produtos turísticos.
2. Quem vive o território participa de seu futuro — Moradores, trabalhadores, produtores, artistas e empreendedores devem participar das decisões sobre o desenvolvimento turístico.
3. Minas são muitas — Reconhecer a diversidade de paisagens, culturas e modos de vida do estado, evitando fórmulas únicas para destinos diferentes.
4. A fé tem seus próprios tempos — Respeitar ritos, calendários, comunidades e tradições nas experiências de turismo religioso.
5. O crescimento deve deixar riqueza onde acontece — Fazer com que os benefícios econômicos do turismo cheguem aos produtores, trabalhadores e pequenos negócios dos próprios destinos.
6. Todo território tem seu ritmo e seu limite — Considerar infraestrutura, saneamento, mobilidade, moradia, patrimônio e capacidade ambiental no planejamento turístico.
7. Paisagem e natureza são uma herança comum — Conciliar turismo de natureza, geração de renda e preservação da biodiversidade e dos recursos naturais.
8. Tecnologia deve revelar diferenças — Usar inteligência artificial e ferramentas digitais para promover e organizar destinos sem distorcer suas realidades.
9. Viajar é estabelecer uma relação — Tratar o visitante como hóspede do território, com respeito às comunidades, culturas, patrimônio, natureza e acessibilidade.
10. É preciso mudar a medida do sucesso — Além de contar visitantes e gastos, medir a riqueza que permanece no destino, a qualidade do trabalho, a preservação do patrimônio e o equilíbrio dos fluxos turísticos.







