Expo LGBT+
Famtours, capacitação e mais informação são apontados como caminhos para transformar interesse em vendas (Divulgação/LGBT+ Expo)

Há quase duas décadas acompanho de perto a evolução do turismo LGBTQIA+ no Brasil. E uma das mudanças mais interessantes que tenho testemunhado é que, pouco a pouco, deixamos de discutir se esse mercado é relevante para começar a discutir algo muito mais importante: como podemos aproveitar todo o seu potencial?

Uma nova sondagem realizada pela Embratur, em parceria com a Associação Internacional de Turismo LGBt+ (IGLTA), traz dados que ajudam a responder a essa pergunta.

O levantamento ouviu 34 empresas associadas à IGLTA e analisou a relação desses profissionais com o Brasil, os destinos e experiências que já comercializam, o interesse pelo país e os desafios que ainda existem para transformar esse interesse em vendas.

E há uma mensagem bastante clara nos resultados: o Brasil desperta interesse. E existe uma enorme oportunidade para ampliarmos nossa presença na prateleira internacional do turismo LGBT+.

O Brasil já está na prateleira

Entre as empresas que já comercializam destinos brasileiros, o Rio de Janeiro aparece com impressionantes 95,65% das citações, seguido por São Paulo, com 73,91%, e Foz do Iguaçu, com 47,83%.

Manaus, Recife, Salvador, Fernando de Noronha, Florianópolis, Fortaleza e Gramado também aparecem entre os destinos comercializados.

Isso mostra que o Brasil já possui uma presença importante nesse mercado. Mas também revela algo que considero ainda mais interessante: temos muito espaço para crescer.

A pesquisa mostra que 39,13% dos entrevistados pesquisam o Brasil frequentemente e 17,39% muito frequentemente. Ou seja, há profissionais internacionais procurando informações, buscando produtos e tentando entender melhor o que o nosso país pode oferecer.

Agora precisamos transformar essa curiosidade em conhecimento e, principalmente, conhecimento em vendas.

Não somos apenas Carnaval e praia

Existe uma percepção, muitas vezes construída de fora para dentro, de que o turismo LGBTQIA+ está concentrado em Carnaval, festas, bares e vida noturna.

É claro que esses produtos são extremamente importantes. O Carnaval LGBTQIA+ foi apontado por 78,26% dos entrevistados como uma experiência atrativa, enquanto bares, festas e vida noturna chegaram a 65,22% e praias e destinos de descanso a 60,87%.

Mas os números que mais me chamaram a atenção estão em outro lugar.

Quando perguntados sobre as experiências que poderiam fazer o Brasil entrar em seus portfólios, 81,82% indicaram roteiros histórico-culturais. O turismo de luxo apareceu com 63,64%, enquanto ecoturismo e aventura e experiências gastronômicas foram citados por 54,55% cada.

Isso é muito significativo.

O viajante LGBT+ quer conhecer o Brasil. E quer conhecê-lo em toda a sua diversidade.

Quer história, cultura, gastronomia, natureza, aventura, luxo, praias e grandes eventos. Exatamente como qualquer outro viajante, mas com uma diferença fundamental: ele também quer ter a segurança de saber que será respeitado e bem recebido ao longo de toda a experiência.

É aí que entra a qualificação do nosso turismo.

O potencial está nos 72,73%

Talvez um dos números mais importantes da pesquisa seja este: 72,73% das empresas participantes afirmaram que pretendem apresentar o Brasil como destino para o público LGBTQIA+.

Para mim, esse número vale mais do que uma simples estatística.

Ele mostra que existe uma porta aberta.

O Brasil possui atributos turísticos extraordinários e uma diversidade cultural e natural difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo. O que precisamos fazer é garantir que o trade internacional conheça esses produtos, confie em nossos fornecedores e saiba como comercializá-los.

Como destacou Clovis Casemiro, gerente de membros da IGLTA para América do Sul e Portugal, a pesquisa comprova o potencial do Brasil e reforça a importância da parceria entre Embratur e IGLTA para transformar esse interesse internacional em vendas e viagens concretas.

E é justamente aí que vejo um dos maiores desafios — e também uma das maiores oportunidades.

Da curiosidade para a venda

Metade dos entrevistados apontou o pouco conhecimento sobre os destinos brasileiros como um dos desafios para a comercialização. Outros 41,18% citaram questões políticas ou sociais.

Isso significa que ainda temos trabalho a fazer.

Não basta dizer que o Brasil é diverso, acolhedor e maravilhoso. Precisamos mostrar. Precisamos levar os profissionais internacionais para conhecer nossos destinos, nossos hotéis, nossos receptivos e nossas experiências.

Não por acaso, 76,47% dos participantes apontaram famtours e press trips como ações importantes para aproximar o produto brasileiro desse mercado. O mapeamento de serviços especializados foi citado por 55,88% e a ampliação das informações sobre os destinos por 52,94%.

Na prática, o caminho é bastante objetivo: capacitar, aproximar e criar relacionamento.

Quem vende um destino precisa conhecê-lo.

Quem conhece um produto consegue apresentá-lo melhor.

E quem confia no fornecedor tem muito mais segurança para colocá-lo na frente do seu cliente.

O turismo LGBT+ é uma oportunidade para o Brasil

Costumo dizer que o turismo LGBTQIA+ não deve ser visto apenas como um nicho, mas como uma importante oportunidade de negócios para o turismo brasileiro.

E isso não significa criar um turismo paralelo.

Significa olhar para o mercado com inteligência e entender que existem milhões de viajantes LGBT+ no mundo escolhendo destinos, hotéis, restaurantes, experiências e operadores todos os dias.

Também significa entender que inclusão e negócios podem — e devem — caminhar juntos.

Quando um hotel se prepara para receber um casal LGBTQIA+, ele não está criando um produto apenas para esse casal. Está aprimorando sua hospitalidade.

Quando um destino capacita sua cadeia turística para receber diferentes perfis de viajantes, ele se torna mais preparado para receber todos.

Quando uma operadora amplia seu portfólio com produtos pensados para esse público, ela está simplesmente respondendo a uma demanda real do mercado.

E quando o Brasil se apresenta internacionalmente como um destino capaz de receber o viajante LGBTQIA+ com segurança, respeito e qualidade, estamos falando de promoção turística, geração de negócios e competitividade internacional.

Temos uma história para contar

Entre os participantes da pesquisa, 44,12% consideram o Brasil um destino acolhedor para viajantes LGBTQIA+ e 20,59% o consideram muito acolhedor.

Esse é um ponto de partida importante.

Mas acredito que o Brasil pode contar uma história ainda maior.

Uma história que não se resume ao Carnaval do Rio, às praias ou à vida noturna de São Paulo. Uma história que passa pela Amazônia, pelo Pantanal, pelas cidades históricas, pela gastronomia, pelo luxo, pelo ecoturismo, pelas festas populares, pelo vinho, pela aventura e por tantos outros produtos que fazem do Brasil um dos destinos mais diversos do planeta.

A parceria entre Embratur e IGLTA, ao transformar percepção de mercado em inteligência, promoção e capacitação, pode ajudar justamente nesse processo.

E vejo essa primeira sondagem como um excelente ponto de partida.

Depois de tantos anos acompanhando o desenvolvimento do turismo LGBTQIA+ no Brasil, considero muito positivo ver que a conversa está avançando. Já não precisamos apenas convencer o mercado de que existe uma demanda. Precisamos mostrar ao mundo tudo aquilo que o Brasil tem para oferecer a esse viajante.

O interesse internacional já existe.

A vontade de colocar o Brasil na prateleira também.

Agora temos a oportunidade de transformar esse interesse em roteiros, reservas, experiências, empregos, negócios e desenvolvimento para nossos destinos.

O Brasil tem muito a ganhar com o turismo LGBTQIA+. E o mundo está cada vez mais interessado em descobrir tudo o que temos para oferecer.