Entre rios, aldeias e tradições, Campo Novo do Parecis revela um novo jeito de conhecer Mato Grosso
Valdirene Paresi e seu marido, o cacique Rony, da Aldeira Wazare (Giulia Jardim/M&E)

CAMPO NOVO DO PARECIS – Conhecer uma aldeia indígena, ouvir histórias contadas por quem vive naquele território, descobrir um jogo tradicional ou simplesmente entrar em um rio cercado pelo Cerrado e pela mata amazônica. São experiências que ajudam a explicar por que o etnoturismo vem ganhando espaço entre os viajantes que buscam novas formas de conhecer o Brasil, colocando cultura, território e comunidade no centro da viagem.

Em Mato Grosso, Campo Novo do Parecis é um dos destinos que vêm construindo essa oferta. A cerca de 410 quilômetros de Cuiabá, o município reúne rios, cachoeiras, trilhas e paisagens naturais com experiências de visitação desenvolvidas pelas comunidades do povo Haliti-Paresi. Por ali, o contato com a cultura indígena acontece de diferentes maneiras e divide espaço com atividades de natureza, gastronomia, artesanato e momentos de convivência.

Embora ainda seja uma experiência nova no imaginário de muitos brasileiros, o etnoturismo já tem uma trajetória construída no país. Desde 2015, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) estabelece diretrizes para a visitação turística em Terras Indígenas, com atenção ao protagonismo das comunidades e à autonomia dos povos na condução dessas atividades. A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), criada em 2012, também reconhece o etnoturismo como uma possibilidade de etnodesenvolvimento e uso sustentável dos recursos naturais.

É nesse cenário que a viagem por Campo Novo do Parecis ganha sentido. Durante a FIT Etno Brasil 2026, o roteiro passou por diferentes comunidades Haliti-Paresi e mostrou que não existe uma única maneira de vivenciar o etnoturismo. Em alguns momentos, a cultura está no centro da experiência; em outros, são os rios, as trilhas e as paisagens que conduzem o visitante. No caminho, entram ainda conversas com moradores, artesanato, gastronomia, brincadeiras e cenas do cotidiano.

E foi justamente essa diversidade que tornou a viagem pelo município tão interessante: a cada aldeia, uma forma diferente de receber, contar sua história e mostrar a relação entre comunidade e território.

Antes de chegar às aldeias, Campo Novo do Parecis já apresenta uma surpresa. A cidade tem uma estrutura maior do que se poderia imaginar para um município do interior e funciona bem como base para explorar a região. Hotéis, restaurantes, comércio e serviços permitem combinar os dias de natureza e etnoturismo com uma estadia confortável.

É a partir dali que começam os deslocamentos pelas comunidades. As distâncias variam bastante: Wazare fica a cerca de 68 quilômetros do centro, Quatro Cachoeiras está a 32 quilômetros e Otyahaliti, na região do Salto Utiariti, a aproximadamente 100 quilômetros.

Aldeia Wazare: cultura, cotidiano e hospitalidade

Na Aldeia Wazare, o contato começa pela conversa. É o cacique Rony Parecis quem recebe os visitantes e apresenta aspectos da cultura e da história da comunidade. Rony está ligado à própria construção do etnoturismo na aldeia e participou do processo que levou à aprovação da Carta de Anuência e do Plano de Visitação para a atividade turística, um marco para o desenvolvimento do segmento em Mato Grosso.

O trabalho feito ao longo dos anos aparece na estrutura encontrada pelo visitante. A aldeia recebe grupos para atividades culturais, mantém uma escola, trabalha com pesca e conta com uma loja de artesanato. Crianças circulam pelo espaço e a família participa da recepção, em uma dinâmica na qual o turismo está inserido no cotidiano da comunidade.

Entre rios, aldeias e tradições, Campo Novo do Parecis revela um novo jeito de conhecer Mato Grosso
Rio para banho na Aldeia Wazare (Giulia Jardim/M&E)

O artesanato é parte importante desse encontro. Além de levar uma peça para casa, o visitante tem a oportunidade de conhecer um pouco das referências e técnicas utilizadas pelos moradores. A gastronomia segue o mesmo caminho. O almoço preparado na aldeia reúne peixe feito na brasa, mandioca, tapioca, arroz e feijão e chega à mesa depois de uma manhã de atividades.

É uma recepção que tem estrutura, mas não perde o caráter de convivência. E talvez essa seja uma das melhores maneiras de entender a proposta da Wazare: apresentar a cultura Haliti-Paresi por meio de atividades organizadas para o visitante, sem separar completamente o turismo da rotina da comunidade.

Otyahaliti: entre tradição e águas do Utiariti

Em Otyahaliti, na região do Salto Utiariti, o ritmo muda. A comunidade reúne diferentes famílias e muitas crianças, e a presença dos moradores torna o ambiente mais movimentado. Entre as atividades apresentadas aos visitantes está o Jikunahati, conhecido como futebol de cabeça, um jogo tradicional que chama atenção pela dinâmica e pela participação da comunidade.

Foi também ali que a cultura Haliti-Paresi pareceu mais presente no cotidiano da visita. Durante o jogo, a língua tradicional era mais utilizada, enquanto crianças e adultos acompanhavam a atividade. A ausência de internet ou sinal de celular completava um cenário em que a atenção estava naturalmente voltada para o que acontecia ao redor.

Entre rios, aldeias e tradições, Campo Novo do Parecis revela um novo jeito de conhecer Mato Grosso
Cacique Narciso, da Aldeia Utiariti (Giulia Jardim/M&E)

As crianças brincavam, subiam em árvores e circulavam pelo espaço. Não era uma experiência de “desconexão” planejada como atração turística, mas uma consequência natural de estar em um lugar sem internet — e, para quem vive em uma grande metrópole, é impossível não perceber a diferença.

Mas foi no banho de rio que o passeio ganhou seu ponto alto. Com o forte calor e depois das atividades realizadas ao longo da semana, entrar na água foi um daqueles momentos que mudam o ritmo da viagem. O banho foi, para mim, a experiência mais marcante de todo o roteiro. A sensação era de alívio imediato, mas também de renovação — como se eu realmente tivesse me reconectado com algo que estava perdido dentro de mim.

É difícil transformar essa sensação em atração turística ou em uma descrição objetiva. O cenário é bonito, claro, mas o que permanece é a experiência de estar ali, dentro do rio, sem pressa. Mais do que qualquer atividade programada, foi aquele momento que fez a viagem ganhar um significado pessoal.

Quatro Cachoeiras: quando o etnoturismo encontra a aventura

Se Otyahaliti teve no rio um dos grandes destaques, Quatro Cachoeiras trouxe uma proposta que desafia o espírito de aventura. Com uma paisagem exuberante, o acesso às quedas d’água é um pouco mais desafiador, feito por uma trilha que, embora considerada de nível fácil a moderado, pode exigir mais de quem não está acostumado a esse tipo de atividade.

Para quem não costuma fazer trilhas, como é o meu caso, o percurso exige atenção, mas também torna o passeio mais divertido. O caminho é úmido e tem bastante lama. É preciso proteger o celular, lidar com os obstáculos e seguir pelo trajeto até chegar à margem da cachoeira. Na prática, é um passeio mais físico, para fazer sem muita preocupação em terminar seco ou com o tênis limpo.

Depois de se entregar à trilha, é hora de aproveitar a estrutura disponível no local. O almoço chega como uma recompensa: churrasco, peixe e farofa ajudam a recuperar as energias antes de seguir viagem. A comunidade conta ainda com banheiros, chuveiro, espaço para alimentação, venda de bebidas e artesanato. Também há possibilidade de camping.

Quatro Cachoeiras inclui ainda elementos culturais, como a pintura corporal, além do contato com histórias e conhecimentos relacionados ao território. Entre as três aldeias visitadas, foi a que mais se aproximou de um roteiro tradicional de aventura, sem deixar de lado a presença e a participação da comunidade.

É justamente essa variedade que ajuda a entender o potencial de Campo Novo do Parecis: as aldeias não oferecem exatamente a mesma experiência e podem atender a diferentes perfis de viajantes.

Um destino para desacelerar — sem abrir mão do conforto

Com tantas possibilidades de passeio, Campo Novo do Parecis não é um destino para ser conhecido às pressas. A combinação entre aldeias, rios, cachoeiras e trilhas permite montar uma programação para vários dias, alternando experiências culturais, atividades de natureza e momentos de descanso. É um roteiro que pode funcionar para famílias, casais, grupos de amigos e também para quem viaja sozinho, especialmente para quem está disposto a sair do circuito mais tradicional de Mato Grosso.

Entre rios, aldeias e tradições, Campo Novo do Parecis revela um novo jeito de conhecer Mato Grosso
Crianças da Aldeira Utiariti se preparam para o banho de rio (Giulia Jardim/M&E)

A logística, porém, precisa entrar no planejamento. A partir de Cuiabá, são cerca de 410 quilômetros até Campo Novo do Parecis, mas a distância também pode ser uma oportunidade para transformar a viagem de carro em parte do roteiro. Nobres, por exemplo, pode entrar como uma parada antes de seguir para Campo Novo. Na região, a Pousada Canaã foi uma das opções de hospedagem que conheci e pode funcionar como uma pausa no caminho, permitindo aproveitar os atrativos de Nobres antes de continuar a viagem.

No fim, talvez seja justamente essa possibilidade de construir a viagem em diferentes etapas que faça Campo Novo valer a distância. É um destino que pede tempo, mas que também oferece motivos para ficar: conhecer, explorar, descansar e, no caminho, descobrir um Mato Grosso que vai muito além dos roteiros mais conhecidos.