
Como o turismo pode crescer sem deixar de considerar os impactos sobre os destinos e as pessoas que vivem neles? Essa é uma das questões que devem orientar as decisões do setor nos próximos anos, segundo o futurista Peter Kronstrøm, fundador do Horizons Institute.
O tema estará em pauta na Travel Conference 2026, que acontece nos dias 21 e 22 de novembro, em São Paulo, durante a palestra “O Turismo em 2030”. O encontro reúne profissionais do setor em dois dias de palestras, oficinas e conexões entre quem vende e promove destinos, com mais de 20 palestrantes confirmados.
Em sua participação, Kronstrøm abordará como as mudanças tecnológicas, os novos comportamentos dos viajantes e as particularidades de cada lugar podem influenciar os rumos do turismo até o fim da década. Para o futurista, antecipar o futuro não significa apostar em uma única tendência, mas compreender diferentes cenários e avaliar como as escolhas feitas hoje podem afetar empresas, viajantes e comunidades.
Inteligência artificial precisa gerar valor para o viajante
Entre as forças que devem influenciar o setor até 2030, Kronstrøm destaca a inteligência artificial (IA), que já transforma etapas como pesquisa, planejamento e organização de viagens. Uma pesquisa global da Booking.com, realizada em 2025 com 37.325 participantes de 33 mercados, mostrou que 89% dos entrevistados pretendiam usar IA no planejamento de viagens futuras.
O dado representa uma intenção declarada, não necessariamente o uso efetivo da tecnologia. Na avaliação do especialista, o desafio para as empresas é transformar essas ferramentas em melhorias concretas no atendimento, sem comprometer a qualidade das informações ou a relação com o cliente.
“Vejo aplicações úteis na pesquisa, na tradução, na organização de informações e nas dúvidas repetitivas. Mas a pergunta para uma agência é concreta: o tempo poupado melhora o atendimento ou apenas aumenta o volume que a mesma equipe precisa administrar?”, questiona.
Kronstrøm recomenda testar as ferramentas com revisão humana e acompanhar indicadores como tempo de execução, erros e resolução de problemas. Informações sobre acessibilidade, documentação e condições de reserva precisam continuar corretas, e o cliente deve saber quem responde quando algo falha. A tecnologia, portanto, precisa ser avaliada pelos resultados que entrega, e não apenas por sua adoção.
Crescimento também exige atenção aos destinos
Outro desafio é adaptar a atividade às condições de cada lugar, considerando fatores como clima, infraestrutura, custos e qualidade de vida dos moradores. Essa discussão também aparece no relatório Tourism Trends and Policies 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que aborda a distribuição dos benefícios do turismo e a participação das comunidades locais.
Um exemplo prático é o CopenPay, iniciativa de Copenhague que oferece recompensas a visitantes por determinadas atividades e escolhas ligadas ao cuidado com a cidade. O programa informou ter reunido 25 mil participantes em 2025. Para Kronstrøm, iniciativas desse tipo ajudam a discutir como o comportamento dos turistas pode ser incentivado, embora a adesão, por si só, não comprove benefícios duradouros para os moradores.
O Brasil oferece um contexto relevante para essa reflexão. O país registrou aproximadamente 9,3 milhões de chegadas internacionais em 2025, segundo dados do Ministério do Turismo. Já a pesquisa PNAD Contínua Turismo 2024, do IBGE, aponta que 96,7% das viagens relatadas por moradores do país tiveram destinos nacionais. Os indicadores mostram dimensões diferentes do mercado e ajudam a lembrar que o turismo brasileiro não depende apenas dos visitantes estrangeiros.
“Vejo oportunidades na natureza e nas muitas culturas brasileiras, com autoria de quem vive cada lugar. Isso exige decisões: que experiência oferecer, para qual público, a que preço e em qual escala? Mais visitantes não são automaticamente a melhor resposta para todo destino. Comunidades também precisam poder definir limites e recusar propostas”, afirmou.
Para as empresas, o especialista recomenda começar por questões concretas, como informação confiável, preços claros, transporte, acessibilidade e qualidade do atendimento. A partir daí, a proposta é testar novas ofertas com parceiros locais e acompanhar não apenas os custos, mas também a remuneração e a satisfação de moradores e visitantes.
O futuro do turismo não cabe em um único perfil de viajante
Além da tecnologia e dos impactos econômicos, Kronstrøm chama atenção para a diversidade de expectativas de quem viaja. Enquanto algumas pessoas procuram descobertas, contato com a natureza e encontros capazes de mudar perspectivas, outras querem uma experiência confortável, segura e sem complicações.
“Há espaço para descoberta, natureza e encontros que mudam perspectivas. Também há espaço para uma viagem fácil, segura e agradável, da qual a pessoa volta descansada, sem precisar se transformar. Não quero transformar férias em mais uma obrigação de desempenho”, disse.
Essa perspectiva também ajuda a distinguir problemas de serviço, como preços pouco claros, transporte inseguro e barreiras de acessibilidade, de situações que fazem parte da descoberta de um lugar novo, desde que sejam escolhas do viajante. Como resume o futurista, “nem toda conveniência empobrece a viagem; nem todo desconforto a torna profunda”.
Para ele, a mudança decisiva até 2030 está na maneira de avaliar os resultados do setor: “A mudança que considero decisiva é ampliar a maneira como avaliamos o sucesso do turismo: junto às chegadas e à receita, observar a qualidade do trabalho, o acesso e o que permanece para quem recebe”.
A reflexão que pretende levar à conferência é direta: “Que turismo queremos que faça parte da vida de cada lugar, e do que estamos dispostos a abrir mão para construí-lo?” Peter Kronstrøm na Travel Conference 2026 Dinamarquês de nascimento e brasileiro de coração, Peter Kronstrøm vive no Brasil há 15 anos e é fundador do Horizons Institute, consultoria especializada em estudos de futuro e estratégia.
Durante uma década, liderou a operação latino-americana do Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS). Sua atuação inclui palestras e encontros com organizações como ABETA e Sebrae, com foco no futuro do turismo, na relação com a natureza e nas transformações dos modos de viver e viajar. Sua ligação com o Brasil também é pessoal: a natureza e a diversidade cultural do país continuam alimentando sua curiosidade e sua reflexão sobre outras maneiras de viver e viajar.
Na Travel Conference 2026, sua palestra propõe ampliar o debate sobre o futuro do setor para além de previsões isoladas, relacionando tecnologia, comportamento dos viajantes e realidade dos destinos. A discussão busca contribuir para que os profissionais avaliem não apenas o que pode mudar até 2030, mas também quais decisões podem começar a tomar desde já.







