Flórida, o produto: entre a vitrine e os bastidores, quem segura esse rojão?
Como o trade brasileiro pode (re)posicionar o principal destino dos brasileiros nos EUA em tempos de dólar alto, tensões políticas e novas oportunidades (Divulgação/Personal RGE)

Agosto não começou de brincadeira. Impossível não falar de momentos de tensões geopolíticas, negociações comerciais, imigração restrita, desafios de imagem e alta do dólar, além de novas taxas de visto. Muitas coisas não estão no nosso controle, outras estão. Por isso, proponho que a gente pense como o trade brasileiro pode (re)posicionar a Flórida como produto turístico estratégico e rentável.

Esse olhar de bastidor sobre esse produto-destino que conhecemos tão bem e muitas vezes, equivocadamente, tratamos com “mais do mesmo” é que precisamos estar atentos. É necessário demonstrar que você consegue planejar experiências completas. Mas também entendo que precisamos reposicionar o estado de forma mais estratégica, empática e informada. Para isso, conversei com gente que está na linha de frente da operação local desde 1990, como a Marianna Silva, presidindo a operadora Personal RGE, que é especialista em Flórida e esta baseada em Orlando operando o destino com maestria. Marianna Silva, presidente da Personal RGE, atua há mais de três décadas operando a Flórida com foco no viajante brasileiro. “Vender bem é vender experiência com inteligência.”

Sabendo que destinos turísticos também são produtos e, como tal, precisam de uma operação afiada, reputação bem gerida, vendas consistentes e, claro, rentabilidade, eu pergunto: como está esse produto? Segundo a Marianna, “a Flórida ainda é um best-seller, mas precisa ser vendida com mais inteligência”, destaca. “A gente trabalha com DMCs na Flórida que oferecem experiências incríveis com guias brasileiros, ou seja, de tours em português no Kennedy Space Center até roteiro de bike em Wynwood. Isso é que encanta”.

Se fosse uma operação logística, a Flórida estaria em dia: aeroportos em expansão, rede hoteleira robusta, atrações para todos os gostos e bolsos, além de uma boa conectividade com o Brasil. Mas quem opera o destino sabe que o bastidor exige mais atenção. O custo operacional subiu junto com o dólar. E é impossível ignorar os gargalos estruturais que começam a aparecer: transporte público limitado, crise no sistema de saúde, filas na imigração, inflação nas tarifas e uma agenda política que às vezes bate de frente com os princípios mais básicos de hospitalidade.

Enquanto isso, o passageiro quer fluidez e emoção. O operador precisa ter repertório e parceiros locais com bom conhecimento, porque não basta vender um destino, é preciso operar uma experiência. Como bem pontuou o Marcos Peres na entrevista anterior para o Conexão Flórida, “a Flórida precisa se preparar de verdade para a Copa do Mundo. Não só com estádios, mas com estrutura para receber gente do mundo todo com dignidade.”

Se antes o turista brasileiro via a Flórida como um destino “fácil”, hoje ele pensa duas vezes antes de passar pela imigração americana. O problema é que a gestão de reputação, como em qualquer produto, precisa de consistência. E a imagem do estado sofre quando a política vira protagonista. “Já perdemos passageiros europeus que desmarcaram viagem. Mas outros tantos viajam mesmo assim. E de maneira geral, o brasileiro não cancela sonho assim tão fácil, ele se adapta”, reforça Marianna. Segundo dados do Visit Florida, mais de 1,1 milhão de brasileiros desembarcaram no estado em 2024. A abertura do Epic Universe, da Universal, novos voos e grandes eventos como o Mundial de Clubes e a Copa América mantêm o ritmo de vendas aquecido.

Mas há um porém: a conversão está mais cara e mais difícil. Operadores e agentes de viagem relatam incertezas cambiais, complexidade no visto e uma comunicação que nem sempre fala a língua do público latino. É por isso que o operador precisa ser mais que um vendedor: precisa ser um tradutor cultural. Mostrar que há acolhimento, que existem guias brasileiros, experiências em português, suporte local. Como lembra Marianna, “o nosso passageiro quer mais do que parque e outlet”. De acordo com a presidente da Personal RGE, a rentabilidade está em vender mais que hospedagem: está em vender narrativa, experiência e pertencimento. Está em transformar cada visita em um ciclo de retorno. E nisso, o trade brasileiro é peça-chave. “Um jogo do Orlando City, uma aula culinária em Miami ou uma visita aos distritos de arte valem mais do que um roteiro engessado” comenta Marianna da Personal RGE.

O que o trade brasileiro precisa saber (e fazer)

  • O brasileiro ainda vem — mas precisa de acolhimento, informação e valor;
  • Futebol, NBA, shows e eventos são novas âncoras de vendas — especialmente para famílias e grupos;
  • Criar pacotes com experiências personalizadas (como entrada com jogadores, acesso exclusivo a estádios ou bastidores) pode ser o diferencial;
  • O novo parque da Universal (Epic Universe) vai virar jogo: é hora de se antecipar;
  • E atenção à narrativa: o marketing precisa mostrar que a Flórida ainda é para todos.

Com a abertura do Epic Universe, a Universal inaugura uma nova fase para o turismo de entretenimento na Flórida — e desafia operadores a atualizarem seus roteiros e narrativas.

Se estivéssemos em uma reunião de branding, meu slide diria: reposicione agora — ou prepare-se para perder espaço para concorrentes mais abertos, acolhedores e estrategicamente afinados.

E você, operadora, agente, profissional do turismo, tá com a Flórida na ponta da língua?