
A Copa do Mundo nunca foi apenas futebol. Ela é um dos poucos eventos capazes de mobilizar povos inteiros, que viajam carregando sua identidade na camisa, na bandeira e na memória. O esporte é apenas o veículo. O que move milhões de pessoas é pertencimento.
Talvez por isso, em meio a um mundo cada vez mais polarizado e um Estados Unidos mais complicado, as cenas desta Copa mostrem brasileiros reunidos em torno do Brasil, japoneses em torno do Japão, colombianos em torno da Colômbia e americanos redescobrindo o próprio futebol. Por algumas horas, comunidades inteiras encontram um senso de identidade coletiva.
Para a indústria do turismo, essa movimentação é mais do que uma festa. É um poderoso lembrete de que eventos esportivos são também motores de viagens, experiências e desenvolvimento econômico.
Poucas pessoas entendem essa conexão tão bem quanto Luisa Mendoza.
Fundadora e CEO da Global Tourism Sports & Entertainment (GTSE), empresa formada integralmente por mulheres e especializada em turismo esportivo, Mendoza construiu uma carreira de mais de 25 anos na interseção entre turismo, esportes e desenvolvimento de destinos. Antes de fundar a GTSE, liderou iniciativas internacionais na New York City Tourism + Conventions e se tornou a primeira diretora de Desenvolvimento de Turismo e Esportes do Brooklyn Nets, da NBA.
“Hoje, as pessoas querem viajar com propósito. Elas querem experiências, conexões humanas e memórias que durem a vida inteira”, disse Mendoza em entrevista ao Radar EUA.
Para ela, o crescimento do turismo esportivo ganhou força após a pandemia, quando milhões de pessoas passaram meses privadas de experiências presenciais.
“As pessoas perceberam que lembram mais da viagem, do jogo e do momento vivido com a família do que de qualquer objeto que compraram.”
Segundo Mendoza, essa mudança ajuda a explicar por que o turismo esportivo deixou de ser um nicho e se transformou em uma das grandes oportunidades da indústria de viagens.
O exemplo de Kansas City
Entre os casos que mais chamam a atenção da executiva está Kansas City.
Quando a cidade recebeu jogos da Copa do Mundo de 1994, o empresário Lamar Hunt, então proprietário do Kansas City Chiefs, enxergou uma oportunidade de longo prazo. Investiu no futebol, ajudou a fundar a Major League Soccer e apostou que o esporte se tornaria parte da identidade americana.
Décadas depois, Kansas City colhe os frutos dessa visão.
A cidade se consolidou como um dos principais polos de turismo esportivo do país e voltou a receber jogos desta Copa.
A lição vai muito além do futebol.
Grandes eventos raramente transformam destinos por conta própria. Eles aceleram processos que começaram muitos anos antes. Infraestrutura, reputação e capacidade de receber visitantes são construídas lentamente, com investimento, consistência e visão de longo prazo.
Nenhuma cidade se torna um destino global porque recebeu uma Copa do Mundo. Ela recebe uma Copa do Mundo porque passou anos construindo as condições para isso.
É uma reflexão que também vale para destinos brasileiros que desejam conquistar uma fatia maior do mercado internacional.
Oportunidades além do circuito tradicional
Mendoza também chama atenção para o crescimento de cidades menos óbvias.
Enquanto destinos mais conhecidos como Nova York, Miami e Orlando continuam atraindo visitantes, cidades menores estão usando o esporte para construir novas narrativas, atrair investimentos e conquistar turistas.
“Há muito espaço para cidades menores se posicionarem por meio do esporte.”
Para o mercado brasileiro, a mensagem é especialmente relevante.
A executiva considera o Brasil um dos mercados mais maduros do mundo em turismo esportivo.
“Os brasileiros amam esportes e entendem o valor das experiências.”
Mas ela faz um alerta: ainda existe uma grande oportunidade de educação para o mercado.
“O operador precisa se sentir tão confortável vendendo um jogo da NBA ou da MLS quanto se sente vendendo Disney ou Miami.”
Segundo Mendoza, a confiança é decisiva.
Quando o assunto é turismo esportivo, o consumidor está comprando muito mais do que um ingresso. Está comprando hotel, transporte, atrações, tempo de férias e, principalmente, tranquilidade.
“Turismo esportivo não é sobre o menor preço. É sobre confiança e paz de espírito.”
O mundo se reconectando
A executiva também acredita que esta Copa está ajudando a mudar a percepção internacional dos Estados Unidos.
“Houve muito ruído antes do torneio. Mas agora as pessoas estão vendo outra realidade. Os estádios estão cheios, as cidades estão recebendo visitantes e o mundo está se reconectando através do esporte.”
Pode parecer uma visão otimista em tempos tão divididos. E talvez seja. Mas o turismo, por sua própria natureza, continua apostando na capacidade humana de se encontrar, conhecer e conviver.
As pessoas continuam viajando para estar perto de outras pessoas que compartilham a mesma paixão, a mesma identidade e o mesmo sentimento de pertencimento.
Talvez essa seja a principal lição desta Copa do Mundo.
O estádio pode ser o motivo da viagem.
Mas é o pertencimento que transforma uma partida em memória, uma cidade em destino e uma experiência em algo que o viajante leva consigo muito depois do apito final.
Vai Brasillll! 🇧🇷
O que o trade brasileiro pode aprender com o turismo esportivo?
1. O turista esportivo compra experiências, não apenas ingressos.
O jogo é apenas parte da jornada. Hotel, gastronomia, atrações e experiências locais fazem parte do produto.
2. O esporte ajuda a descobrir novos destinos.
Cidades além do circuito tradicional estão usando o esporte para construir sua reputação internacional.
3. Grandes eventos exigem planejamento de longo prazo.
Os destinos que colhem resultados hoje começaram a trabalhar há muitos anos.
4. Educação é fundamental.
Vender turismo esportivo exige conhecimento, logística e parceiros confiáveis.
5. O brasileiro é um viajante apaixonado por experiências.
Mais do que assistir a um jogo, ele busca criar memórias, viajar em família e viver algo que possa contar e reviver depois.







