Amarelo
Vanessa Leal e Pamela Magalhães durante a entrevista Foto: arquivo pessoal

Por que é tão difícil pedir ajuda? E, quando ela chega, por que às vezes também é tão difícil recebê-la?

Enquanto preparava o roteiro para conversar com a psicóloga e escritora Pamela Magalhães, essa foi a primeira pergunta que surgiu. Junto dela, veio a dor de ter perdido meu cunhado enquanto ele enfrentava um profundo sofrimento emocional. Naquele momento, a pergunta deixou de ser apenas uma pauta para o Setembro Amarelo. Ela tocou uma ausência e tudo aquilo que tantas vezes não conseguimos perceber, dizer ou acolher a tempo.

Para quem está sofrendo, reconhecer a própria vulnerabilidade e permitir que alguém se aproxime pode ser muito mais complexo do que parece para quem olha de fora. Talvez por isso eu quisesse tanto ouvir Pamela.

Durante muitos anos, liderei equipes em concessionárias premium de automóveis e motocicletas. Adorava aquele universo, mas era um ambiente predominantemente masculino, conduzido por metas, pressão e resultados. A rotina quase não deixava tempo para olhar para mim mesma.

Quando deixei esse mercado pelo turismo, uma fresta se abriu, e passei a olhar com mais atenção para a minha saúde mental e emocional. Foi nesse processo que Pamela apareceu para mim em um vídeo nas redes sociais, e a admiração ganhou profundidade acompanhando sua escuta sensível e condução amorosa no podcast Parece Terapia. 

Psicóloga com quase 20 anos de experiência clínica, especialista em psicologia hospitalar e terapia de casal e família, Pamela Magalhães é palestrante, escritora, sócia da Clínica Psicológica M&C, apresentadora do podcast Parece Terapia e criadora da plataforma de atendimento psicológico on-line Psiapp. Nas redes sociais, movimenta milhões de seguidores por meio do perfil @psipamela, no qual compartilha conteúdos sobre saúde mental, autoconhecimento e relacionamentos.

A força que também pode esconder o sofrimento

Quando a câmera se abriu, ansiedade, alegria e gratidão se misturaram dentro de mim. Eu estava diante de uma das minhas maiores referências femininas e fui sincera.

“Estou nervosa”, confessei.

Com a doçura que eu já reconhecia em seus conteúdos, Pamela acolheu minha vulnerabilidade e, em poucos minutos, transformou o nervosismo em uma conversa próxima e profunda.

Quando perguntei por que é tão difícil dizer “eu não estou bem” no ambiente profissional, Pamela falou sobre a associação que ainda fazemos entre força e competência.

“Existe uma correlação de que eu preciso ser forte no trabalho. Preciso aparentar que estou bem para que as pessoas confiem em mim e me reconheçam como uma profissional segura”, explica.

Nesse movimento, corremos o risco de transformar nossos resultados em identidade. Deixamos de apenas cumprir metas e começamos a medir nosso valor por aquilo que conseguimos entregar.

No turismo, essa dinâmica é comum. Agentes de viagens e outros profissionais do setor convivem com metas, imprevistos, cancelamentos, alterações de última hora e clientes que enviam mensagens a qualquer hora do dia. O WhatsApp permanece aberto, enquanto o receio de perder uma venda adia o descanso.

“Você vai passando por cima dos seus limites, dos sinais e da sua qualidade de vida. Acaba abusando dos próprios limites e se fere de uma forma que nem sempre sangra, porque é por dentro”, alerta Pamela.

Quando o corpo começa a pedir uma pausa

Insônia, alterações de apetite, choro frequente, perda de prazer em atividades antes agradáveis, isolamento, dificuldade de concentração, irritabilidade constante e uma exaustão que não desaparece com o sono estão entre os sinais que merecem atenção.

“Você pode até dormir, mas não descansa. Ou vai se deitar cansado e não consegue desligar”, observa.

Pamela explica que a ansiedade faz parte da experiência humana. Ela nos ajuda a antecipar necessidades, organizar compromissos e nos preparar para acontecimentos importantes. O problema começa quando passamos a viver aprisionados na preocupação.

O burnout, por sua vez, está diretamente relacionado ao contexto profissional. A Organização Mundial da Saúde o define como um fenômeno ocupacional resultante do estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente.

“Precisamos desmistificar o que significa pausar e se preservar. Isso não é deixar de trabalhar, ser indisciplinado ou descomprometido. É continuar sendo disciplinado com o trabalho, mas também com você, com a sua saúde mental e emocional”, afirma.

Pamela compara esse cuidado à manutenção de um automóvel. Um carro não pode continuar rodando indefinidamente sem combustível ou revisão. Com as pessoas, não deveria ser diferente.

Às vezes, a pausa possível está em almoçar com calma, estabelecer um horário para encerrar o atendimento no WhatsApp ou reconhecer que uma resposta pode esperar até o dia seguinte.

A pergunta que me esperava na volta do mercado

Pouco antes de escrever este artigo, vivi uma situação simples que trouxe aquela pergunta de volta.

Eu tinha acabado de chegar do mercado e precisava levar as compras para casa. Consegui pegar as sacolas, mas ainda havia um fardo de água no carro. Estava sozinha quando um casal se aproximou e perguntou se eu gostaria de ajuda.

Meu primeiro impulso foi recusar, com receio de incomodar. O homem insistiu que não havia problema. Então olhei para a mulher e comentei:

“Por que será que é tão difícil receber ajuda?”.

“Se a gente está oferecendo, é porque quer ajudar”, respondeu ela, sorrindo.

Era uma situação cotidiana, mas talvez seja justamente nos pequenos gestos que começamos a exercitar uma nova maneira de agir. Antes, eu provavelmente teria recusado a ajuda e carregado tudo sozinha. Naquele dia, consegui perceber o impulso e fazer uma escolha diferente.

Quantas vezes recusamos o cuidado antes mesmo de permitir que ele chegue? Quantas vezes confundimos autonomia com a obrigação de carregar tudo sozinhos? Aceitar ajuda também exige acreditar que não somos um incômodo para quem escolheu se aproximar.

Durante nossa conversa, Pamela compartilhou que já viveu um quadro de síndrome do pânico. O episódio aconteceu em um período marcado pelo luto do pai, pelo diagnóstico de câncer da mãe e pelos desafios da maternidade. Mesmo sendo psicóloga, naquele momento, ela não conseguiu identificar sozinha o que estava acontecendo. Procurou atendimento médico, intensificou a psicoterapia e reviu hábitos e prioridades.

“Viver isso na pele é diferente. Por serem invisíveis aos olhos, o burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade ainda encontram muita dificuldade de reconhecimento, tanto por quem sofre quanto pelas pessoas ao redor”, conta.

Seu relato revela algo importante. Conhecimento não nos torna imunes à dor. Força não elimina a necessidade de apoio. E pedir ajuda não diminui tudo o que somos capazes de fazer.

Liderar também é ensinar pelo exemplo

“Para ser um bom gestor, é preciso conhecer o próprio emocional e reconhecer o emocional dos colaboradores. O exemplo não é aquilo que eu falo, é aquilo que eu faço”, afirma Pamela.

Um líder que respeita horários, estabelece limites, escuta as pessoas e valoriza pausas contribui para tornar o ambiente mais seguro. A produtividade não deveria ser medida pelo número de horas que alguém permanece conectado.

“Fazer terapia não é coisa de gente problemática. É coisa de gente consciente.” explica.

Para ampliar o acesso a esse cuidado, Pamela criou o Psiapp, plataforma fundada em 2020 que conecta pacientes a psicólogos para atendimentos online e também desenvolve parcerias com empresas interessadas em oferecer atendimento psicológico aos colaboradores.

“Num mundo em que a inteligência artificial está em alta e tudo parece se resolver com um clique, precisamos nos lembrar de que não somos máquinas. Somos pessoas.”

A viagem que ensinou Pamela a confiar

Ao final da conversa, perguntei se alguma viagem havia transformado sua relação consigo mesma.

“A maior viagem da minha vida foi a maternidade. É uma viagem sem volta, um mergulho absoluto nas minhas vulnerabilidades, nos meus medos, nos meus desafios e em todos os meus sentimentos.”

Depois, procurando uma lembrança ligada ao turismo, Pamela voltou a uma viagem feita com o marido, Carlos, quando os dois ainda namoravam.

Ela sempre havia organizado os roteiros do casal. Reconhece em si uma personalidade controladora, disciplinada e produtiva, características que contribuíram para muitas conquistas, mas que também podem tornar a vida mais cansativa e dificultar a delegação.

Certo dia, Carlos comprou uma viagem surpresa e se recusou a revelar o destino. Contou apenas que seria um lugar frio para que ela pudesse preparar a mala. Pamela só descobriu que viajaria para Amsterdã quando chegou ao aeroporto.

Ao desembarcarem, surgiu um novo desafio. Carlos propôs que conhecessem a cidade de bicicleta. Assustada com a velocidade dos ciclistas e insegura por não dominar aquele ambiente, ela inicialmente se recusou.

Ele deixou a bicicleta na porta da hospedagem e foi tomar um sorvete enquanto esperava que ela decidisse.

Diante daquela bicicleta, Pamela conversou consigo mesma.

“Talvez você precise ser mais disruptiva. Talvez precise ousar um pouco mais e permitir que o outro conduza. Você pode tirar férias do seu controle.”

Ela subiu na bicicleta.

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Pamela Magalhães e o marido, Carlos, durante a viagem a Amsterdã Foto: arquivo pessoal

Durante os oito dias seguintes, os dois percorreram a cidade pedalando. Pamela guarda especialmente a lembrança de uma madrugada em que voltavam para o hotel, atravessando os canais sob o céu de Amsterdã.

“Olhei para cima e pensei em como eu complicava a vida. Ela pode ser muito mais simples quando saímos um pouco do nosso jeito de pensar e nos permitimos confiar em quem amamos, nem que seja durante uma viagem”.

Para quem trabalha com turismo, sua história deixa um convite. Viajar pode ser um ensaio para uma nova maneira de viver. Podemos confiar no agente de viagens, permitir que alguém nos apresente um caminho e descobrir que nem todas as experiências precisam permanecer sob o nosso controle. 

Talvez pedir ajuda também seja uma forma de tirar pequenas férias desse controle.

É reconhecer que não precisamos carregar todos os fardos de água, responder a todas as mensagens imediatamente ou atravessar sozinhos cada dificuldade. Às vezes, permanecer forte significa permitir que alguém divida conosco um pouco do peso.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção, sofrimento emocional e cuidado. Mas essa conversa não pode terminar quando o mês acaba. Ela precisa continuar nas empresas, nas lideranças, nas famílias, nas relações e dentro de cada um de nós.

Que possamos aprender a perceber quando precisamos de ajuda, encontrar coragem para pedir e, quando ela se aproximar, abrir espaço para recebê-la.

Até a nossa próxima pausa.

Instagram @natumae.br

Vanessa Leal | Natumae


Onde buscar apoio

Se você ou alguém próximo estiver enfrentando um sofrimento emocional intenso, procure ajuda profissional. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e sem julgamentos pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, e também pelo site cvv.org.br. Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência.