
O turismo brasileiro alcançou, em 2025, um novo patamar de crescimento. Em apenas 11 meses, o país recebeu 8,3 milhões de turistas internacionais, número recorde que consolida a retomada pós-pandemia e reposiciona o Brasil no cenário global de viagens. O avanço reforça a relevância econômica do setor, mas também explicita um desafio estrutural: ampliar o fluxo de visitantes sem intensificar pressões sobre territórios, populações locais e ecossistemas sensíveis.
Esse dilema se torna mais evidente à medida que o turismo de natureza ganha centralidade nas decisões de viagem. A busca por experiências ao ar livre, contato direto com ambientes naturais e vivências culturais associadas ao território deixou de ser uma tendência periférica e passou a orientar o mercado.
O movimento se reflete nos dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que registrou, em 2024, recorde histórico de visitação às Unidades de Conservação federais, com mais de 25,5 milhões de visitas, incluindo 12,5 milhões apenas em Parques Nacionais.

Os números confirmam a consolidação do turismo de natureza como um dos segmentos mais dinâmicos do setor turístico brasileiro. Ao mesmo tempo, evidenciam a urgência de modelos capazes de ordenar esse crescimento. Planejamento territorial, educação ambiental e protagonismo comunitário deixam de ser conceitos abstratos e passam a definir, na prática, se o turismo será instrumento de preservação ou vetor de degradação.
Foi nesse contexto que vivi a experiência na Ilha do Combu, em Belém (PA), durante uma vivência promovida pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) com finalistas do Prêmio Braztoa de Sustentabilidade. No Combu, o turismo deixa de ser estatística e se revela como território vivo, onde economia, cultura, saúde e floresta se articulam de forma concreta.
A experiência se insere em um cenário mais amplo de políticas públicas e reposicionamento estratégico do turismo amazônico. A realização da COP30, em Belém, marcou esse movimento. Mais do que sediar um evento internacional, a capital paraense passou a operar como laboratório de iniciativas que buscam conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e valorização dos modos de vida locais. Um dos desdobramentos desse processo foi o fortalecimento do turismo de base comunitária, com destaque para a Rota do Combu.
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A Rota do Combu não corresponde a um único trajeto de navegação, mas a um projeto de turismo voltado à imersão no modo de vida ribeirinho e na bioeconomia amazônica. A iniciativa articula empreendedores locais da ilha — como donos de restaurantes, produtores de cacau e açaí, artesãos e lideranças comunitárias — com apoio institucional de entidades como o Sebrae e a Embratur.
O objetivo é organizar e qualificar a oferta turística, transformando passeios rápidos de ida e volta em experiências mais longas e estruturadas, com permanência ampliada, geração de renda local, valorização cultural e estímulo à conservação ambiental.
Ilha do Combu

A Ilha do Combu fica a cerca de 15 minutos de barco do centro de Belém. A travessia pelo Rio Guamá marca a transição da área urbana para um território de floresta contínua, cortado por igarapés, onde a mobilidade e o cotidiano seguem a lógica ribeirinha. Quarta maior ilha do arquipélago da capital paraense, o Combu abriga cinco comunidades, é Área de Proteção Ambiental desde 1997 e não possui vias terrestres: todo o deslocamento ocorre por via fluvial.
Inserida nesse contexto, a vivência realizada foi pontual, sem pernoite, e começou na Casa do Chocolate da Dona Nena, conhecida como Filha do Combu, referência na produção artesanal de chocolate amazônico. O roteiro apresenta o cultivo do cacau em sistema agroflorestal, as etapas de fermentação, torra e refino das amêndoas e a fabricação do chocolate.

A experiência combina explicação técnica, visita ao território produtivo, degustação e conversa com a produtora, que conduz a atividade a partir de sua trajetória como empreendedora ribeirinha. O foco está nos processos produtivos e na relação entre floresta, renda e permanência das comunidades no território.
Na sequência, o grupo seguiu para o restaurante Porto Combu, localizado nas proximidades da fábrica, onde foi servido almoço com pratos da culinária local, preparados com ingredientes amazônicos, acompanhado de música ao vivo. A experiência gastronômica funciona como continuidade do aprendizado, conectando produção, cultura alimentar e economia local.
O roteiro prosseguiu com uma trilha ecológica pela ilha, ainda no território do restaurante, voltada ao reconhecimento de espécies de plantas e árvores da Amazônia, e foi encerrado com um banho de ervas medicinais, prática baseada em saberes tradicionais. A atividade promove contato direto com a floresta e foi apontada de forma unânime – entre o grupo de participantes – como o ponto alto da vivência, pela sensação de bem-estar, pausa e reconexão com o ambiente natural.
Imersão

Além dos roteiros de curta duração, a Rota do Combu conta com experiências de pernoite, que ampliam o tempo de permanência do visitante e aprofundam a convivência com as comunidades ribeirinhas. Esses formatos incluem hospedagem local, manejo do açaí, vivências com associações de mulheres extrativistas, produção de biojoias e participação no cotidiano da ilha.
A operação da rota é realizada majoritariamente por empreendedores e cooperativas locais. Cerca de 14 empreendimentos integram o projeto oficial da Rota do Combu, identificados por sinalização padronizada nas fachadas. Agências de turismo sediadas em Belém, como Vida Caboca Turismo, também comercializam roteiros organizados, que incluem transporte fluvial e programação de atividades.

O acesso à ilha ocorre exclusivamente por via fluvial, a partir do Terminal Hidroviário Ruy Barata, na Praça Princesa Isabel, no bairro do Condor. A travessia é operada por cooperativas de barqueiros credenciados, com destaque para a Cooperativa Mista da Ilha do Combu (COOPMIC), e dura cerca de 15 minutos.
Ao reunir aprendizado sobre o cacau amazônico, gastronomia local, trilha interpretativa, práticas tradicionais de cuidado e experiências de imersão comunitária, a Rota do Combu apresenta, de forma prática, como o turismo de base comunitária pode operar em uma área de proteção ambiental.
A experiência, é claro, oferece ao visitante uma compreensão ampliada do território e reforça a relação entre conservação, cultura e uso responsável da floresta — um modelo que evidencia que o ecoturismo, quando bem estruturado, não é apenas lazer, mas ferramenta de desenvolvimento territorial, educação ambiental e cuidado com a Amazônia, mas também promove uma transformação intensa, que só o contato com a natureza em seu habitat natural é capaz de fazer.


































