
RIO DE JANEIRO – O setor de parques, atrações turísticas e entretenimento no Brasil mantém trajetória de crescimento em faturamento, visitação e investimentos, mas enfrenta obstáculos ligados ao acesso ao crédito, contratação de profissionais e sustentabilidade operacional. Os dados fazem parte da quarta edição do Panorama Setorial – Parques, Atrações Turísticas e Entretenimento no Brasil, apresentada nesta terça-feira (13), durante o 7º Sindepat Summit, realizado no Auditório Doppelmayr, no ExpoRio Cidade Nova, no Rio de Janeiro.
O painel “CEO Talks: 4ª edição do Panorama Setorial de Parques e a visão dos líderes” reúne Ronaldo Beber, CEO da Gramado Parks, Kiko Buerger, CEO do Grupo Oceanic, Alessandro Cunha, CEO da Aviva, e Pedro Cypriano, CEO da Noctua, responsável pela apresentação do levantamento desenvolvido em parceria com o Sindepat e a Adibra.
Antes da divulgação dos números, Paulo Kenzo, presidente da Adibra, reforça a importância da participação dos associados no preenchimento da pesquisa. Segundo ele, o setor depende da consolidação de dados para ampliar o diálogo com investidores, governos e instituições financeiras. “Esse é um trabalho feito a várias mãos e dependemos muito de vocês para a qualidade dos resultados. Precisamos desses números para mostrar a relevância do setor e para fazer nossa agenda regulatória em novos negócios e na requalificação dos empreendimentos. Isso mostra a importância do setor e nos ajuda na agenda em Brasília, porque temos dados e números para defender o nosso mercado”, afirma.
Na sequência, Kenzo volta a destacar a necessidade de ampliar a participação dos empreendimentos no levantamento e construir uma base histórica mais consistente para o segmento. “Vamos incentivar que a gente consiga dados mais fiéis e uma linha do tempo grande. Isso vai ajudar muito o setor, tanto na área governamental quanto com investidores e parceiros estratégicos. Estamos em uma fase importante de diálogo com o governo e precisamos de números sólidos para mostrar que representamos centenas de milhares de empregos”, declara.
Pedro Cypriano contextualiza os resultados do estudo e explica que o levantamento mapeia atualmente 869 empreendimentos de entretenimento no país, dos quais 308 participam efetivamente da pesquisa. Segundo ele, o objetivo é acompanhar tendências, investimentos e transformações do mercado. “Hoje temos mapeados quase 900 empreendimentos de entretenimento no Brasil e praticamente 300 participam de forma constante do estudo. Isso ajuda a discutir tendências e entender o que vem pela frente”, informa.
Cypriano explica que o panorama é dividido em três frentes: cenário macroeconômico e turístico do Brasil, desempenho do setor de entretenimento e perspectivas de investimentos futuros. Na análise sobre o turismo nacional, o executivo relata que o fluxo doméstico permanece estável nos últimos anos, enquanto o mercado internacional avança impulsionado principalmente pelos turistas argentinos e pela desvalorização cambial. “O fluxo de turismo no Brasil está lateralizado. Não vemos grandes oscilações nos últimos dois anos. O mercado doméstico permanece estável e o internacional cresce um pouco mais”, relata.
Segundo ele, o crescimento limitado do turismo doméstico está relacionado ao aumento das tarifas aéreas, pressionadas pelo custo do querosene de aviação. “O mercado doméstico cresce em receita, mas não em volume. A tarifa média aérea cresce acima da inflação e isso penaliza a demanda”, analisa.
Ao abordar o comportamento do consumidor, Cypriano aponta que os estrangeiros ampliam os gastos em viagens ao Brasil, enquanto os brasileiros seguem consumindo no mercado internacional mesmo diante do dólar elevado. “O brasileiro continua gastando cada vez mais lá fora. Mesmo com um câmbio mais desvalorizado, a propensão ao consumo internacional permanece elevada”, explica.
O estudo também mostra estabilidade na ocupação dos resorts brasileiros acompanhada de aumento nas tarifas médias. Para a Noctua, o cenário demonstra que o turismo mantém demanda relevante, mesmo sem crescimento expressivo em volume.
Parques no Brasil ampliam investimentos e enfrentam desafio de mão de obra
Entre os principais indicadores apresentados pelo Panorama Setorial, o levantamento registra 143 milhões de visitantes em parques e atrações turísticas brasileiras em 2025, crescimento de 4,8% em relação ao ano anterior. O faturamento do setor alcança R$ 9,5 bilhões, avanço de 12,8% na comparação com 2024. “O mercado de entretenimento no Brasil cresce em média tanto em demanda quanto em ticket médio”, aponta Cypriano.
O estudo identifica ainda que o setor responde atualmente por mais de 202 mil empregos diretos, indiretos e terceirizados, número 6% superior ao registrado na edição anterior do levantamento. “Do total de respondentes do estudo, 263 participaram do relatório nos últimos dois anos. Ao comparar os dados de empregos desses parques, observa-se um aumento de 6% no número de empregos diretos”, explica Cypriano.
Apesar do avanço nos postos de trabalho, o levantamento indica que a disponibilidade de mão de obra qualificada permanece como principal preocupação dos operadores. Em uma escala de um a cinco, o tema recebe nota 2,4 entre os desafios prioritários do setor. “A dificuldade de contratar e reter profissionais provavelmente não muda nos próximos anos”, avalia.
O executivo também chama atenção para a alta rotatividade de profissionais. Segundo o estudo, a taxa chega a 46,2% no setor de parques, embora permaneça abaixo da média nacional, de 56%. “Esse é um gargalo dos parques e atrações, mas também de outras indústrias, uma vez que a reposição de um funcionário pode custar entre 50% e 200% do salário anual, considerando recrutamento, treinamento e perda de produtividade”, explica.
Outro ponto destacado no levantamento envolve o acesso ao crédito. Com o encerramento do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), empresas do segmento relatam maior dificuldade para financiar expansão, novos empreendimentos e modernização de operações. “Sem incentivo fiscal, dependemos mais de geração de caixa ou de linhas de financiamento, que continuam proibitivas na maior parte do mercado”, aponta Cypriano.
Mesmo diante do cenário de juros elevados, o setor mantém projetos em andamento. O levantamento identifica atualmente 70 novos projetos de entretenimento em desenvolvimento no Brasil, número 10% inferior ao da edição passada. Os empreendimentos estão distribuídos em 41 cidades brasileiras, com maior concentração nas regiões Sul e Sudeste. A pipeline de investimentos reúne parques aquáticos, parques temáticos, atrações turísticas, parques naturais, parques indoor e centros de entretenimento familiar.
Segundo o estudo, os 70 projetos somam R$ 7,1 bilhões em investimentos. Considerando os reinvestimentos programados pelos parques e atrações já instalados, o volume total alcança R$ 11,5 bilhões. “Os reinvestimentos são constantes na nossa atividade econômica. Eles vão muito além da manutenção e da segurança, essenciais em nosso setor”, afirma Paulo Kenzo. “É parte da nossa rotina buscar novas atrações e melhorias na experiência do visitante. Nosso setor tem a inovação e a criatividade em seu DNA”, acrescenta.
O levantamento aponta ainda que 77% dos projetos já possuem funding parcial ou totalmente estruturado, principalmente por meio de capital próprio. Segundo Cypriano, isso aumenta as chances de implementação dos empreendimentos previstos. “Tendo três quartos do funding já equacionados, a probabilidade de implementação desses projetos é bastante alta”, afirma.
Entre os projetos identificados, 47% contam com multipropriedade ou timeshare como impulsionadores dos investimentos. Além disso, 31% das iniciativas possuem abertura programada ainda para este ano. O presidente do Conselho do Sindepat, Pablo Morbis, avalia que os números refletem a capacidade de expansão do setor mesmo em um ambiente econômico mais restritivo. “Os números do Panorama mostram um setor que continua crescendo, investindo e acreditando no potencial do turismo brasileiro, mesmo em um ambiente econômico bastante desafiador, com juros elevados, aumento de custos e pressão sobre o consumo das famílias”, afirma.
Morbis também destaca os impactos econômicos dos parques e atrações turísticas nas cidades onde os empreendimentos estão instalados. “Ainda assim, seguimos vendo novos projetos saindo do papel e empreendedores apostando no desenvolvimento de destinos turísticos em todo o País. Quando um parque ou atração investe, o impacto vai muito além do entretenimento. Estamos falando de geração de empregos, qualificação profissional, distribuição de renda e fortalecimento da cadeia do turismo como um todo. Em muitos destinos, o turismo é a principal atividade econômica, e os parques têm papel relevante nessa transformação”, declara.
Ao encerrar a apresentação, Cypriano agradece às empresas participantes e reforça a importância da continuidade da pesquisa para ampliar a representatividade do levantamento e fortalecer o diálogo institucional do setor. “Cada ano damos um passo um pouco mais longo. Parar alguns minutos para responder à pesquisa nunca é simples, mas isso ajuda o setor inteiro”, conclui.







