
Usando a biotecnologia à serviço da restauração e preservação de corais no Nordeste, a startup Biofábrica de Corais, da Universidade Federal de Pernambuco, acaba de ganhar endosso da ONU (Organização das Nações Unidas), passando a figurar entre iniciativas que são referências globais em restauração integrada do oceano.
A startup contribui nas ações pela “Década do Oceano” proclamada pela ONU para o período de 2021-2030 e o turismo é parte fundamental.
Rudã Fernandes, engenheiro de Pescada, CEO e fundador da Biofábrica de Corais recebeu o MERCADO & EVENTOS para falar sobre a relação cada vez mais próxima e decisiva da startup com o Turismo – neste caso, regenerativo – , e sua presença na WTM Latin America.
Nesta terça-feira (15), às 14h45 Rudã apresenta a palestra “Como Transformar o Monitoramento de Impactos em Estratégia de Vendas no Turismo Responsável?”, no Transformation Theatre (WTM).
Mercado&Eventos – Qual a importância de a Biofábrica de Corais estar presente na WTM-LA? O que tem a repassar ao público profissional e geral?
Rudã Fernandes – É uma oportunidade ímpar de se conectar com o setor turístico, construir conexões e relacionamentos que possam apoiar a causa dos corais e integrar nossa proposta de restauração a outros segmentos da sociedade. Também é uma chance de entender melhor o setor e viabilizar que nossa solução tenha aplicação escalável.
A mensagem mais importante é sobre a relevância dos recifes de corais para a economia e para os negócios do turismo. Em seguida, mostramos como o público pode se conectar e se engajar com o tema, a partir de perspectivas ligadas ao aumento da sustentabilidade dos seus negócios, da geração de novas oportunidades e receitas e da participação em um mercado emergente: o turismo regenerat
M&E – O que falta para o Turismo Regenerativo – de regeneração de ecossistemas e comunidades locais, mas ainda limitado – caminhar junto com o turismo hoje praticado no Brasil?
Rudã Fernandes – Há muitos vieses possíveis para essa resposta, mas, em linhas gerais, o setor precisa entender que o turismo regenerativo é uma espécie de cláusula de seguro para as atividades atuais. O evento climático no Rio Grande do Sul no ano passado é um exemplo factual.
A forma como o turismo é praticado hoje vem contribuindo para o colapso de alguns destinos. Também é preciso reconhecer que há novos nichos de mercado e demandas, bem como diferentes perfis e anseios dos consumidores, que precisam ser mais bem compreendidas e atendidas pelo setor.
Os consumidores estão cada vez mais conscientes, a nova geração já tem maior propensão a apoiar causas do bem, ao passo que a geração 50+ também entende que é necessário, de certa forma, retribuir e adotar novas práticas atuais que as gerações do passado não vivenciaram.
M&E – Assim como as mudanças climáticas, o Turismo Regenerativo precisa e é vital para a manutenção da indústria turística mundial. Quais ações são mais urgentes?
Rudã Fernandes – Especialmente num momento em que os impactos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes, afetando diretamente destinos turísticos no mundo todo – incluindo o Brasil, o Turismo Regenerativo surge como uma evolução do turismo sustentável, indo além da ideia de “minimizar impactos”, mas também de deixar os lugares melhores do que estavam antes da visita. Entre as ações mais urgentes e prioritárias, pensando nos ambientes recifais, destacaria 5, que estão interligadas:
- Entender o status de saúde dos ecossistemas e das pessoas associadas a eles, sua capacidade de suporte, bem como suas potencialidades e necessidades para manutenção dos seus serviços ecossistêmicos.
- Fomentar e co-criar novas atividades econômicas que respeitem essas diretrizes e sejam sustentáveis do ponto de vista econômico, para que as comunidades locais não precisem realizar ações deletérias, como levar turistas em excesso a determinados destinos.
- Capacitar as pessoas, diversificar as atividades e garantir que elas operem respeitando a legislação, de forma segura, bem-sinalizada e equipada, para envolver adequadamente os turistas. É interessante criar um mosaico de atrativos interligados, que aumentem a conexão dos turistas com o destino e, conseqüentemente, a recorrência.
- Ter uma rede robusta de parceiros comerciais engajados e envolvidos com o propósito é fundamental. É necessário atrair turistas para que essa proposta seja sustentável, tanto do ponto de vista ambiental, como também social e econômico.
- E, por fim, é essencial ter um bom mecanismo de governança para que as atividades ocorram de forma harmônica, transparente e com indicadores mensuráveis.
M&E – A Biofábrica de Corais já atendeu mais de 300 bioturistas em experiências imersivas em Porto de Galinhas (PE), Tamandaré (PE) e Maragogi (AL). Qual o recado é repassado a esse turista mais consciente?
Rudã Fernandes – Hoje, as experiências imersivas, com mergulhos nos berçários de corais, se concentram em Porto de Galinhas. As experiências duram entre 2h e 4h30 – pode parecer muito tempo, mas passa voando.
Na primeira fase da experiência, o bioturista aprende um pouco sobre a biodiversidade recifal e a emergência climática, de forma leve e educativa. Também explicamos as etapas da experiência, com tudo o que eles verão na jornada.
A partir daí, a mensagem é transmitida por meio da vivência. Os bioturistas interagem com os bioanfitriões, que são pessoas da comunidade que vivem desta atividade, velejam de jangada e vão se conectando com o ambiente. Conhecem nossa fazenda de corais, compreendem o que viram na primeira fase e se envolvem com o território.
Por fim, participam conosco na nossa jangada de pesquisa, na atividade de plantio de corais. É o momento em que a conexão com os corais se consagra. Os bioturistas reagem de formas diversas – alguns fazem muitas perguntas, outros já se emocionaram e até choraram, e há quem elogie a equipe efusivamente, pela oportunidade de contribuir com o tema na prática.
M&E – A Biofábrica tem ou trabalha com empresas do setor turístico voltadas para a regeneração e preservação de ecossistemas de corais marinhos, um dos pilares do movimento turístico em várias regiões do Brasil?
Rudã Fernandes – Sim, tivemos alguns apoios e as empresas do setor turístico podem participar em duas frentes: na comercialização dos nossos produtos (experiências imersivas e “adote um coral”) e via patrocínio, podendo atuar na restauração de corais em lotes e/ou áreas determinadas.
Na primeira categoria, nosso primeiro parceiro foi a Luck Receptivo – seus guias e transfers sensibilizam os turistas para a adoção de corais, e seus desks e canais comerciais promovem nossas experiências imersivas.
A CVC também é um grande parceiro nosso, sendo fundamental para o programa de adoção de corais. Esperamos, em breve, iniciar a parceria também nas experiências turísticas.
Como parceiros na venda de experiências, temos ainda a ETS, Orinter e Decolar. O Summerville também apoia essa atividade, além de ser nosso patrocinador.
Como patrocinadores, temos o Grupo Amarante e a Embratur. Já como parceiros operacionais, atuamos com a Porto Point, a Associação de Jangadeiros de Porto de Galinhas e o fotógrafo Felipe Cadena.
Nosso grande sonho é escalar as atividades em Porto de Galinhas, que é um dos destinos de praia mais visitados do Brasil, para desenvolver novos atrativos e criar uma engrenagem regenerativa, onde as experiências se complementam e o turismo passe a financiar as ações de restauração, seguindo sua vocação natural de gerar riqueza, emprego e renda.







