
A escalada nos preços do combustível de aviação, impulsionada pela instabilidade no Oriente Médio, já pressiona o setor aéreo europeu e amplia o clima de incerteza para os próximos meses. Diante desse cenário, o CEO da Ryanair, Michael O’Leary, afirmou, nesta terça-feira (28), que companhias concorrentes podem enfrentar dificuldades financeiras relevantes e até interromper operações caso os custos permaneçam elevados ao longo do verão no hemisfério norte.
A declaração foi feita durante a Conferência do Norges Bank Investment Management, em Oslo. Segundo o executivo, o preço do combustível Jet A-1 avançou de cerca de US$ 80 por barril, em março, para aproximadamente US$ 150 após o bloqueio do Estreito de Ormuz, no fim de fevereiro, em um movimento diretamente associado à guerra no Oriente Médio.
“Se os preços permanecerem mais altos por mais tempo neste verão, achamos que várias de nossas companhias aéreas concorrentes na Europa enfrentarão dificuldades financeiras reais”, disse O’Leary.
Custos em alta e risco de colapso
Mesmo com uma estratégia considerada robusta de proteção, a Ryanair já sente os efeitos da alta. A companhia garantiu cerca de 80% do combustível a preços fixos antes do agravamento do cenário, mas ainda assim registrou um impacto adicional de aproximadamente US$ 50 milhões apenas em abril.
Caso o petróleo se mantenha próximo de US$ 150 por barril, o custo extra pode chegar a US$ 600 milhões em um ano. Para empresas menos protegidas, o cenário é ainda mais crítico, especialmente diante da combinação de combustível caro, taxas aeroportuárias elevadas e pressões regulatórias.
O’Leary afirma que duas ou três companhias aéreas europeias podem não resistir até o fim de 2026. Entre as empresas mencionadas por ele estão a Wizz Air e a airBaltic.
A Wizz Air reagiu prontamente e classificou as declarações como “completamente falsos”. Em comunicado, a companhia afirmou ter uma situação financeira sólida, com ampla liquidez e uma frota moderna, composta majoritariamente por aeronaves da família A320neo, mais eficientes no consumo de combustível.
Já a airBaltic recebeu recentemente um empréstimo de curto prazo de 30 milhões de euros aprovado pelo governo da Letônia, com o objetivo de mitigar os impactos financeiros causados pelo conflito no Oriente Médio.
Risco de abastecimento preocupa setor
Além da pressão sobre custos, a disponibilidade do combustível também entrou no radar das companhias aéreas. O CEO da Ryanair destacou que a maior preocupação pode surgir a partir de junho, caso haja interrupções no fornecimento, o que poderia resultar em cancelamentos de voos.
O Reino Unido é apontado como um dos mercados mais vulneráveis, devido à dependência de importações de combustível provenientes do Kuwait. Outros países europeus contam com fontes mais diversificadas, o que reduz parcialmente o risco.
Apesar do cenário adverso, a Ryanair afirma que não pretende repassar os custos adicionais aos passageiros e garante que não haverá sobretaxas de combustível durante o verão.
Expansão em meio à crise
Mesmo diante de incertezas, a companhia mantém planos de crescimento. A projeção é transportar 216 milhões de passageiros em 2026 e alcançar 223 milhões em 2027, consolidando sua liderança na Europa.
O’Leary avalia que a possível saída de concorrentes do mercado pode abrir novas oportunidades de expansão para a empresa. “Uma coisa boa para o nosso negócio, porque haverá menos concorrentes”, afirmou.
Na Itália, onde a Ryanair já investiu cerca de US$ 11 bilhões, a expectativa é transportar 69 milhões de passageiros em 2026. O executivo também acredita que grupos tradicionais, como a Lufthansa, devem manter estratégias focadas em grandes hubs, como Frankfurt e Munique, sem expansão relevante, o que favorece o avanço das companhias de baixo custo.
Críticas ao ambiente regulatório
O CEO também fez críticas à Comissão Europeia, especialmente em relação ao sistema de comércio de emissões, que, segundo ele, aumenta os custos operacionais do setor.
Além disso, mencionou o impacto de decisões políticas internacionais, incluindo ações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como fatores que ampliam a incerteza no ambiente econômico global.
Mesmo com o cenário instável, O’Leary afirmou que pretende permanecer à frente da Ryanair até 2032 e demonstrou expectativa de melhora no ambiente global a partir de 2028.
*Com informações de EuroNews







