
A Associação do Transporte Aéreo Internacional (Iata) apresentou três prioridades para a indústria global de carga aérea durante a abertura do World Cargo Symposium (WCS), realizado em 10 de março de 2026, em Lima, no Peru. A entidade destacou a necessidade de acelerar a digitalização, fortalecer padrões globais e aprimorar a segurança operacional como medidas para manter o funcionamento das cadeias logísticas diante de pressões geopolíticas, tarifárias e operacionais que impactam o comércio internacional.
As diretrizes foram apresentadas durante a abertura do World Cargo Symposium (WCS), evento internacional da indústria de carga aérea realizado em 10 de março de 2026 em Lima, no Peru. O encontro reúne executivos, autoridades e representantes da indústria para discutir desafios operacionais, tendências e estratégias relacionadas ao transporte de cargas por via aérea.
Durante a sessão de abertura, Brendan Sullivan, diretor global de cargas da Iata, destacou o papel da carga aérea no funcionamento do comércio internacional e na manutenção das cadeias globais de suprimento. Para ele, a carga aérea desempenha um papel crítico ao conectar empresas aos mercados globais e manter as cadeias de suprimento em funcionamento, mesmo à medida que o ambiente operacional se torna mais complexo.
De acordo com Sullivan, tantos eventos externos impactando as cadeias globais de suprimento, incluindo choques tarifários e geopolíticos, é importante “trabalharmos para construir resiliência nas áreas que podemos controlar ou influenciar”. Ele completa ainda que é necessário “trabalhar juntos para fortalecer a digitalização, os padrões globais e a segurança das cadeias logísticas colocará o transporte aéreo de carga em uma posição sólida para continuar apoiando o crescimento econômico ao conectar produtos aos mercados”.
Entre os principais pontos apresentados pela entidade está a necessidade de acelerar o processo de digitalização da cadeia logística da carga aérea. Segundo a Iata, grande parte dos dados utilizados no transporte de cargas ainda permanece distribuída em sistemas fragmentados ao longo das diferentes etapas da cadeia de suprimentos.
Essa fragmentação gera duplicação de informações, atrasos no fluxo de dados e riscos de conformidade regulatória. O problema é considerado especialmente relevante em segmentos de alto volume, como o comércio eletrônico, que exige integração constante de informações entre diferentes operadores logísticos.
Sullivan revela que os dados da carga aérea ainda estão distribuídos em sistemas fragmentados ao longo da cadeia de suprimentos, gerando duplicação de informações, atrasos e riscos de conformidade. “Isso é particularmente desafiador para segmentos de grande volume, como o comércio eletrônico, em que os dados do house waybill precisam permanecer alinhados com os registros do master air waybill das companhias aéreas em múltiplos sistemas e jurisdições”, conta. O ONE Record representa uma mudança estrutural na forma como a indústria compartilha, gerencia e confia nos dados ao longo da cadeia logística.
Sistema ONE Record da Iata
O sistema ONE Record, padrão criado para o compartilhamento de dados de ponta a ponta na cadeia logística da carga aérea, tornou-se desde janeiro de 2026 o método preferencial para a troca de informações no setor. De acordo com a Iata, companhias aéreas responsáveis por mais de 70% do volume global de air waybills já estão no caminho para implementar o modelo.
A entidade destacou, no entanto, que o avanço pode ser acelerado por meio da ampliação da participação de companhias aéreas e agentes de carga, da aceitação de dados do ONE Record por governos em declarações regulatórias e do desenvolvimento de plataformas tecnológicas interoperáveis por fornecedores de tecnologia.
Outra prioridade apontada pela Iataenvolve o fortalecimento dos padrões globais utilizados no transporte de carga aérea. A entidade identificou dois pontos principais que exigem atenção da indústria e das autoridades regulatórias: as regras para transporte de mercadorias perigosas e a gestão de slots aeroportuários.
No caso das mercadorias perigosas, a entidade informou que o número de variações nacionais e de operadores relacionadas ao manuseio desse tipo de carga ultrapassa atualmente 1.200. Essa diversidade de regras aumenta a complexidade operacional em um setor que depende de padrões globais uniformes para garantir segurança e previsibilidade nas operações. Embora reconheça que variações regulatórias possam existir, a Iata defende que essas diferenças sejam transparentes, justificadas e alinhadas, sempre que possível, aos padrões internacionais existentes.
Em relação aos slots aeroportuários, a Iata destacou que o acesso à infraestrutura aeroportuária é um fator determinante para a eficiência das operações de carga aérea. Em alguns dos principais hubs globais, como Bogotá, Dubai, Heathrow e Gatwick, companhias aéreas dedicadas ao transporte de carga frequentemente recebem apenas slots temporários ou autorizações ad hoc.
Essa condição, segundo a entidade, limita a flexibilidade operacional das empresas e dificulta o planejamento de longo prazo das rotas de carga. “Padrões globais e acesso justo à infraestrutura são essenciais. À medida que o comércio mundial evolui, alinhar requisitos regulatórios e garantir uma alocação transparente de slots será fundamental para manter uma conectividade confiável da carga aérea”, afirma Sullivan.
A terceira prioridade apresentada pela Iata envolve a segurança operacional ao longo de toda a cadeia logística do transporte aéreo de cargas. Segundo a entidade, o setor precisa manter atenção constante para garantir que as estruturas regulatórias acompanhem as mudanças nas cadeias de suprimento e os novos riscos operacionais.
No transporte de mercadorias perigosas, por exemplo, o Anexo 18 da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) estabelece a base global para a movimentação segura desse tipo de carga por via aérea. No entanto, a Iata defende que as normas sejam atualizadas para refletir cadeias logísticas mais digitais, rápidas e complexas.
Entre os riscos identificados estão o transporte de mercadorias perigosas não declaradas e o uso inadequado de baterias de lítio, produtos amplamente presentes em dispositivos eletrônicos e equipamentos industriais. A segurança da carga também envolve a proteção das cadeias logísticas contra interrupções maliciosas ou falhas nos processos de verificação. Nesse contexto, a Declaração de Segurança da Remessa de Carga (CSD) é considerada uma ferramenta importante de conformidade.
Entretanto, segundo a Iata, a adoção desse mecanismo ainda ocorre de forma desigual entre diferentes países. A entidade defende uma ampliação da utilização da versão eletrônica do documento, conhecida como e-CSD, que pode melhorar a precisão das informações, reduzir processos manuais e facilitar a supervisão de segurança.
A Iata também apontou a necessidade de maior alinhamento entre programas internacionais de informação antecipada de carga antes do embarque, o que pode contribuir para uma gestão mais eficiente de riscos. “Segurança é responsabilidade compartilhada em todo o ecossistema de carga aérea. Modernizar as estratégias globais e fortalecer a cooperação entre governos e indústria será essencial para garantir que o comércio mundial continue se movendo de forma segura e confiável”, conclui Sullivan.
Ao destacar digitalização, padronização global e segurança como prioridades estratégicas, a Iata reforça a necessidade de coordenação entre governos, companhias aéreas, operadores logísticos e provedores de tecnologia para garantir o funcionamento das cadeias globais de suprimento. As medidas discutidas durante o World Cargo Symposium buscam adaptar o setor às transformações do comércio internacional e às novas demandas operacionais do transporte de cargas por via aérea.







