*por Janaína Britto

O Brasil vive um momento histórico no turismo internacional. Com quase 10 milhões de visitantes estrangeiros registrados no último ano, o país consolida uma trajetória de crescimento impulsionada principalmente pelos modais aéreo e terrestre. Nesse cenário, o turismo marítimo ainda representa uma parcela modesta das chegadas internacionais, a qual não conseguimos mensurar com dados oficiais, mas desponta como uma das grandes oportunidades para ampliar a presença do Brasil no mapa global dos cruzeiros.
Atualmente, entre 650 mil e 830 mil passageiros circulam pelos portos brasileiros a cada temporada, considerando tanto turistas nacionais quanto internacionais. Embora os números ainda estejam distantes do potencial do país, o segmento vem ganhando força graças à chegada de novas armadoras, à ampliação da oferta de roteiros e ao crescente interesse de viajantes estrangeiros por experiências ligadas à natureza, sustentabilidade e destinos autênticos.
A temporada 2026/2027 surge como um marco nesse processo. A entrada da Corazul no mercado brasileiro e a programação de navios internacionais de alto padrão, como o Explora Journeys, marca de luxo do grupo MSC, reforçam a percepção de que o Brasil está cada vez mais presente no radar das grandes companhias marítimas. Um dos destaques será a passagem do Explora Journeys pela Amazônia em 2027, iniciativa que promete atrair um perfil de viajante de alto poder aquisitivo e ampliar a visibilidade internacional da região.
PAPEL ESTRATÉGICO DOS CRUZEIROS
Para Bruno Reis, presidente da Embratur, os cruzeiros ocupam papel estratégico na política de atração de turistas estrangeiros. Segundo ele, o Brasil reúne características únicas para se consolidar como um dos principais destinos marítimos das Américas.
“O turismo náutico e os cruzeiros são estratégicos para ampliar a presença internacional do Brasil e gerar novos negócios. Contamos com mais de 8,5 mil quilômetros de litoral e 35 mil quilômetros de hidrovias navegáveis”, destaca.
A combinação entre costa extensa, biodiversidade e grandes rios navegáveis abre espaço não apenas para os tradicionais roteiros marítimos pelo litoral, mas também para o desenvolvimento de produtos diferenciados, como cruzeiros fluviais e expedições na Amazônia e no Pantanal. São segmentos que acompanham uma tendência crescente do turismo internacional, voltada para experiências sustentáveis e de contato com a natureza.
A estratégia da Embratur está alinhada ao Plano Brasis, Plano Internacional de Marketing Turístico 2025-2027, que busca promover uma imagem mais diversificada do país no exterior. O objetivo é integrar as identidades regionais e estimular a distribuição dos fluxos turísticos para além dos destinos já consolidados.
Na prática, isso significa transformar os cruzeiros em uma ferramenta de desenvolvimento econômico regional. Ao ampliar o número de escalas e incentivar permanências mais longas nos destinos, o segmento contribui para movimentar cadeias produtivas locais, gerar empregos e fortalecer pequenos empreendedores ligados ao turismo.
Os números da última temporada reforçam essa relevância. Segundo dados apresentados pela Embratur, o setor movimentou R$ 5,43 bilhões na economia brasileira e atraiu cerca de 838 mil cruzeiristas, demonstrando a capacidade da atividade de gerar impacto econômico direto e indireto em diferentes regiões do país.
DESAFIOS DO BRASIL PARA AMPLIAR PARTICIPAÇÃO NO MERCADO
No entanto, para que o Brasil amplie sua participação no mercado global de cruzeiros, ainda é necessário avançar em diversas frentes. A atração de novas armadoras e a ampliação da oferta de roteiros internacionais dependem de um ambiente de negócios competitivo, infraestrutura adequada e promoção contínua nos principais mercados emissores.
Nesse sentido, a Embratur vem intensificando sua atuação em parceria com o Ministério do Turismo, o Ministério de Portos e Aeroportos e entidades do setor privado. Um dos principais movimentos foi a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica com a Clia Brasil, associação que representa as maiores companhias marítimas do mundo.
Além disso, o órgão participa há quatro anos consecutivos da Seatrade Cruise Global, principal feira internacional da indústria de cruzeiros, realizada nos Estados Unidos. O objetivo é apresentar oportunidades de negócios, fortalecer o relacionamento com armadoras e ampliar a presença brasileira junto aos mercados da América do Norte e da Europa.
“O trabalho técnico, aliado ao reconhecimento internacional obtido por meio de premiações e certificações, contribui para expandir nossa conectividade marítima e fluvial”, afirma Bruno Reis.
Outro desafio é ampliar o mapa dos destinos de cruzeiros no país. Hoje, a maior concentração das operações ocorre nas regiões Sul e Sudeste, especialmente em portos como Santos, Rio de Janeiro e Itajaí. Porém, novas oportunidades começam a surgir em outras regiões.
Estados como Paraná e Pará já apresentaram projetos voltados ao desenvolvimento do turismo náutico em eventos internacionais do setor. Ao mesmo tempo, a Amazônia e o Pantanal aparecem como apostas naturais para o crescimento dos cruzeiros de expedição, um dos nichos mais valorizados pelo mercado internacional atualmente.
A biodiversidade brasileira, somada aos 75 parques nacionais e à riqueza cultural dos destinos, oferece diferenciais competitivos que poucos países conseguem reunir em um único território. Transformar esse potencial em escalas regulares, novos roteiros e maior fluxo de visitantes estrangeiros será um dos grandes desafios dos próximos anos.
O avanço recente demonstra que o caminho começou a ser percorrido. A chegada de novas armadoras e o interesse crescente por destinos brasileiros mostram que o país está ganhando espaço nas estratégias globais das companhias marítimas. Ainda assim, especialistas do setor concordam que o Brasil opera abaixo de sua capacidade no segmento de cruzeiros.
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