
Um surto de hantavírus registrado a bordo do cruzeiro de expedição MV Hondius colocou a segurança sanitária das viagens marítimas no centro das discussões globais. A embarcação partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, com 174 pessoas a bordo, e percorreu regiões remotas do Atlântico Sul, incluindo Antártica, Geórgia do Sul, Tristan da Cunha, Santa Helena e Ilha de Ascensão.
A emergência sanitária começou após passageiros apresentarem sintomas respiratórios graves durante a viagem. O primeiro óbito foi registrado em 6 de abril, ainda a bordo da embarcação. Dias depois, a esposa da vítima também morreu após ser evacuada para Johannesburgo, na África do Sul. Um terceiro óbito foi confirmado em 2 de maio, antes da adoção completa dos protocolos internacionais de monitoramento.
O episódio ganhou dimensão internacional após exames realizados na África do Sul confirmarem infecção pela variante Andes do hantavírus, considerada a única cepa conhecida com capacidade limitada de transmissão entre humanos. Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, oito casos ligados ao cruzeiro já foram identificados até o momento, incluindo três mortes. Cinco diagnósticos foram confirmados para hantavírus, enquanto outros três seguem sob investigação.
A OMS afirmou nesta quinta-feira que novos casos ainda são “possíveis”, especialmente devido ao período de incubação da variante Andes, que pode chegar a seis semanas. Apesar disso, o organismo internacional avalia que o surto deve permanecer “limitado” caso as medidas de saúde pública continuem sendo aplicadas adequadamente.
Mesmo diante da repercussão global do caso, a OMS informou que o risco sanitário internacional segue considerado baixo e que não há recomendação de restrições de viagem neste momento. Para especialistas, o cenário exige atenção e informação, mas não representa um alerta generalizado para passageiros de cruzeiros.
O que é o hantavírus e como acontece a transmissão?
Segundo a infectologista Dra. Morgana Padilha, coordenadora do Centro de Vacinação do Hcor, o hantavírus está principalmente associado ao contato com secreções, urina e fezes de roedores silvestres infectados.
“O hantavírus está principalmente associado ao contato com secreções, urina e fezes de roedores silvestres infectados, especialmente em ambientes fechados, pouco ventilados ou com acúmulo de poeira contaminada. Em relação aos cruzeiros, o risco dentro da embarcação é considerado muito baixo”, explica.
A médica afirma que os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos e podem ser confundidos com outras infecções virais. Entre os sinais mais comuns estão febre alta, dores no corpo, dor de cabeça, mal-estar, náuseas e fadiga intensa. Nos casos mais graves, a doença pode evoluir rapidamente para comprometimento pulmonar e insuficiência respiratória.
“Os sintomas geralmente aparecem entre uma e seis semanas após o contato com o vírus. Esse intervalo é chamado de período de incubação, ou seja, o tempo entre a exposição ao vírus e o início dos sintomas”, detalha.
Embora o hantavírus normalmente não apresente transmissão entre humanos, Morgana explica que existe uma exceção rara envolvendo justamente a cepa Andes, identificada no caso do MV Hondius e considerada a única variante conhecida com possibilidade de contágio interpessoal em circunstâncias específicas.
“Pode ocorrer transmissão entre familiares ou parceiros que convivem muito próximos por longos períodos, mas são situações bastante específicas”, ressalta.
É seguro viajar de cruzeiro agora?
Apesar da repercussão internacional do caso envolvendo o MV Hondius, especialistas afirmam que não há, neste momento, motivo para evitar viagens de cruzeiro. Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto médicos ouvidos pela reportagem avaliam que o risco sanitário global segue considerado baixo e que o episódio não representa um cenário de transmissão ampla dentro das embarcações.
Segundo a infectologista, o ambiente do navio, por si só, não é considerado um fator de risco relevante para a transmissão do hantavírus. Isso porque a doença está associada principalmente ao contato com secreções de roedores silvestres infectados, situação mais comum em áreas naturais e rurais visitadas durante excursões em terra.
“A maior preocupação está relacionada aos destinos visitados em terra, sobretudo em áreas rurais, trilhas, atividades de ecoturismo, acampamentos, celeiros, galpões ou locais com presença de roedores silvestres. Portanto, o cuidado deve ser maior durante excursões e atividades fora do navio”, afirma.
A especialista também destaca que o hantavírus possui características diferentes de vírus respiratórios de transmissão mais ampla, como gripe ou covid-19. Embora a variante Andes tenha capacidade limitada de transmissão entre humanos, os casos conhecidos costumam envolver contato íntimo e prolongado entre pessoas próximas.
“Não há indicação de pânico ou de mudança importante nos planos de viagem para quem pretende fazer um cruzeiro. O cenário exige atenção e informação, mas não um estado de alerta generalizado”, conclui.
Como se prevenir do hantavírus durante viagens?
Especialistas recomendam atenção principalmente durante atividades realizadas em áreas naturais, trilhas, zonas rurais e locais fechados com pouca ventilação.
Entre os principais cuidados estão:
- evitar contato com ambientes com sinais de roedores, como fezes, ninhos ou urina;
- não varrer locais empoeirados sem proteção;
- manter alimentos armazenados corretamente;
- descartar lixo de forma adequada;
- higienizar superfícies antes de permanecer em cabanas, galpões ou casas fechadas;
- evitar deitar diretamente no chão durante acampamentos;
- priorizar ambientes ventilados e limpos.
Segundo Morgana, informação adequada e medidas preventivas continuam sendo as formas mais eficazes de reduzir o risco de contaminação.
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O que diz a indústria de cruzeiros?
Em meio ao debate gerado pelo episódio, a Cruise Lines International Association (Clia) Brasil informou que acompanha os desdobramentos da situação e manifestou solidariedade às pessoas afetadas. A entidade ressaltou, porém, que a embarcação envolvida no caso não pertence a uma companhia associada.
Segundo a Clia, as empresas membros operam sob protocolos rigorosos de saúde, higiene e assistência médica, com monitoramento contínuo de doenças, processos avançados de limpeza e desinfecção e respostas rápidas diante de ocorrências sanitárias. A associação afirma ainda que as medidas seguem diretrizes internacionais de saúde pública e, em muitos casos, ultrapassam as exigências regulatórias do setor.
A entidade também destacou que os navios passam por supervisão constante de autoridades sanitárias e contam com instalações médicas equipadas, além de equipes treinadas para lidar com diferentes situações de saúde durante as viagens.
“Os dados de saúde pública disponíveis indicam que as taxas de doenças em navios de cruzeiro são baixas e, em muitos casos, menores do que em ambientes terrestres comparáveis”, informou a associação.







