Artigo: Hotelaria é a fábrica do futuro

Por Vinícius Lummertz

A hotelaria brasileira precisa de um plano nacional, em consonância com políticas estaduais e municipais. Hoje, os setores de hospitalidade ainda são uma parte invisível do desenvolvimento nacional. Invisível, mas essencial. É onde a hospitalidade se materializa como emprego, arrecadação, infraestrutura e oportunidade, especialmente nas cidades médias e pequenas do Brasil. É a embaixada comum a todos que vão a todos os lugares. Não há como imaginar cidades sem hotéis.

Apesar disso, o país nunca teve uma política nacional durável voltada ao setor. E paga o preço por isso: falta crédito, falta segurança jurídica, falta planejamento urbano adequado. Falta, sobretudo, visão de longo prazo. Falta a visão de que hotéis são, hoje, o que fábricas foram durante a industrialização no mundo inteiro.

Um hotel é muito mais do que um prédio com quartos. É âncora de desenvolvimento. Um resort pode justificar uma nova rota aérea, um terminal rodoviário ou até o surgimento de um novo bairro, ou mesmo de uma cidade. Hotéis urbanos movimentam eventos, feiras, congressos, atraem indústrias e ativam a economia criativa. Em destinos turísticos, pousadas e pequenos hotéis sustentam boa parte da economia local. Em muitos municípios, são a principal fonte de arrecadação e o maior empregador formal.

A hotelaria é uma atividade-fim, mas, sobretudo, uma indústria “meio”, que ativa uma cadeia ampla e diversificada: construção civil, serviços, gastronomia, transporte, tecnologia, cultura. É base de uma dimensão econômica que é o turismo e representa mais de 10% do PIB global, e responderá por mais de 20% dos empregos gerados nos próximos dez anos.

No entanto, no Brasil, a hotelaria ainda é tratada como algo periférico, não obstante a luta aguerrida das entidades associativas. Nossos economistas, muitas vezes, desprezam a microeconomia, preferindo os abstratos da macro. A burocracia para licenciar hotéis e resorts, especialmente, beira o absurdo. Os marcos urbanísticos são obsoletos. A insegurança jurídica é crônica — uma das mais cruéis do planeta, segundo o WTTC —, especialmente em regiões com potencial turístico e ambiental. Ignoramos avanços globais nesse campo. O crédito de longo prazo é virtualmente inexistente. E, com o fim do PERSE, criado durante a pandemia, não há hoje nenhuma política nacional de apoio contínuo ao setor.

Com a reforma tributária em curso, o risco é que a hotelaria seja tratada como atividade de consumo e penalizada com mais impostos. Um erro grave. Se o Brasil também quiser descentralizar seu crescimento e gerar empregos fora dos grandes centros, precisa ver a hotelaria como plataforma — e não apenas como produto.

No mundo, o caminho é o oposto. Portugal integrou patrimônio histórico e hotelaria com sucesso. Os EUA usam incentivos urbanos para estimular novos empreendimentos. A China conectou turismo e infraestrutura como estratégia de Estado — vi isso em Jingdezhen, Chengdu e Lijiang. Os Emirados Árabes transformaram hotéis em ícones nacionais e pilares da revolução econômica em curso.

Por aqui, o setor cresce apesar do Estado, e não com sua solidariedade. As exceções históricas foram as políticas que viabilizaram os grandes hotéis da orla carioca nos anos 1970 e 1980, dos quais o Rio ainda depende. Antes disso, vieram os hotéis estatais, como o Hotel das Cataratas — até hoje um dos melhores das Américas — e os hotéis-cassino, extintos no altar da ignorância nacional. Quem estivesse em Foz, na inauguração do Hotel das Cataratas, pensaria que haveria muitos hotéis em parques naturais nos próximos 70 anos. Em 2025, só temos aquele.

O Brasil precisa desenvolver sua vocação hospitaleira como parte central de um projeto de país. Recuperar o tempo perdido é possível, mas é preciso, antes, entender — e de uma vez por todas — que hotelaria não é luxo: é um grande negócio para o Brasil e para os brasileiros. Ter um plano é essencial.

(*) Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo do Brasil e ex-presidente da Embratur