Colapso da Sonder expõe falhas graves e levanta questionamentos sobre processo de auditoria da Marriott
Sinalização anuncia o fechamento de uma propriedade da Sonder em Nova York (Steve Russolillo/Business Insider)

A ruptura entre Marriott e Sonder, inicialmente tratada como uma crise operacional que deixou hóspedes sem acomodação de última hora, revelou um cenário muito mais complexo e grave. Documentos judiciais, depoimentos e a própria evolução financeira da Sonder mostram que o colapso da empresa vinha sendo gestado há anos, bem antes da assinatura do contrato com a maior rede hoteleira do mundo.

Criada em 2014 com a promessa de revolucionar o aluguel de curta duração, a Sonder cresceu rapidamente ao assumir grandes volumes de apartamentos em diferentes destinos globais. O modelo atraiu investidores e chamou a atenção do mercado tradicional, mas internamente a empresa acumulava sinais de alerta. Processos por inadimplência, abandono de contratos e reclamações relacionadas à segurança e à manutenção já compunham o histórico da startup. Um dos episódios mais marcantes envolveu o Jung Hotel, em Nova Orleans, cujo proprietário acusou a empresa de transformar o prédio em um “imã para crimes violentos” e negligenciar condições básicas de limpeza.

O desgaste se intensificou a partir de 2024, quando a Sonder admitiu que suas demonstrações financeiras desde a abertura de capital eram inconsistentes. A confissão, fruto de auditorias que contestaram a confiabilidade dos números apresentados ao mercado, derrubou as ações em 38% e colocou a companhia sob ameaça de deslistagem da Nasdaq. A essa altura, sucessivas demissões e a saída de executivos já indicavam uma tentativa de contenção de danos, sem que houvesse uma reorganização operacional sólida.

Foi nesse contexto que, em agosto de 2024, surgiu o acordo com a Marriott, que incorporaria mais de 9 mil unidades da Sonder sob a marca “Sonder by Marriott Bonvoy”. Para o mercado, a parceria fortalecia o portfólio global da rede, ampliando o número de quartos disponíveis. Para a Sonder, oferecia fôlego imediato, sustentado por um aporte de US$ 15 milhões e pela projeção de ganhos de eficiência com a integração. Ex-funcionários afirmam que o contrato foi decisivo para manter a empresa ativa por mais um ano.

O alívio, porém, não durou. Em novembro de 2024, a Sonder alertou oficialmente ter “dúvida substancial” quanto à capacidade de continuar operando. Um ano depois, o aviso se confirmou: a companhia ficou sem caixa, acumulou dívidas e teve fracassada a venda que poderia evitar a falência. Tentativas de garantir financiamento emergencial não avançaram.

Diante da iminência de colapso, a Marriott chegou a desembolsar cerca de US$ 1,5 milhão para cobrir parte da folha de pagamento da Sonder, tentando evitar a interrupção abrupta dos serviços e proteger hóspedes já hospedados. Mas, segundo documentos do processo de falência, a startup passou a pressionar a rede para financiar todo o encerramento de suas operações, com pedidos que teriam alcançado US$ 50 milhões. A Marriott recusou, alegando que a empresa usava a segurança dos hóspedes como ferramenta de pressão.

A rescisão do acordo ocorreu em 7 de novembro de 2025. A Marriott justificou a decisão citando risco “iminente” de liquidação desordenada. No dia seguinte, começaram as demissões sem aviso e sem indenização, comunicados contraditórios aos clientes e o fechamento imediato de unidades em vários países. Em 10 de novembro, a Sonder pediu falência sob o Chapter 7, informando que não honraria reservas, depósitos ou pagamentos antecipados.

Agora, as duas empresas disputam a narrativa sobre o desastre. A Sonder atribui o fim à falta de liquidez, a dificuldades técnicas na integração com os sistemas da Marriott e à queda inesperada de reservas originadas pelo programa Bonvoy. Já a Marriott acusa a startup de má gestão e afirma que pagamentos antecipados de hóspedes foram utilizados para cobrir despesas operacionais. Em audiência recente, advogados da rede reforçaram que a Marriott nunca operou os imóveis da Sonder, atuando apenas como licenciadora da marca.

O caso reacende debates sobre due diligence em parcerias de grande escala, especialmente em modelos híbridos de hospedagem, que combinam elementos de hotelaria tradicional e de aluguel de curta duração. Também levanta questionamentos sobre como redes globais avaliam a saúde financeira e operacional de empresas incorporadas ao seu ecossistema e como eventuais falhas podem gerar riscos reputacionais severos.

Enquanto isso, viajantes, agentes de viagens e operadores seguem mobilizados para remanejar clientes afetados pelo colapso, e a Marriott continua a tentar mitigar danos e resolver os passivos deixados pela parceria encerrada de forma abrupta.

Com informações do Business Insider