Gol e Azul
Fusão pode enfrentar resistência (Eric Ribeiro/M&E)

A fusão entre Azul e Gol ainda levanta dúvidas e preocupa autoridades do setor aéreo. Enquanto a Azul e a Abra Holding, controladora da Gol, aguardam a análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), especialistas apontam riscos para a concorrência, especialmente em aeroportos estratégicos como Congonhas e em regiões que dependem da aviação para transporte de passageiros e mercadorias.

O maior impasse está na concentração de slots — direitos de pouso e decolagem — em Congonhas. Se a nova companhia dominar a maioria dessas operações, outras empresas podem perder espaço, reduzindo a competitividade no setor. Além disso, a fusão pode aumentar os preços das passagens e levar ao corte de rotas menos lucrativas.

“A lógica dessas companhias é estritamente comercial. Se um voo é rentável, ele se mantém. Se não, é cortado ou o preço sobe. Essa é a regra do mercado”, explica Ycarim Melgaço, pós-doutor em economia para o Real Time.

A Azul já começou a ajustar sua malha aérea, anunciando a suspensão e redução de voos em várias cidades, principalmente no Nordeste e no Norte do país. Desde fevereiro, operações foram encerradas em municípios como Crateús (CE), São Benedito (CE) e Sobral (CE). A partir de março, outras cidades, como Campos (RJ) e Mossoró (RN), também perderão voos regulares.

O impacto pode ser ainda maior na Amazônia, onde a Azul já domina 79,2% do mercado, e a Gol, 0,45%. Se a fusão for aprovada, a nova empresa terá mais de 80% do controle da aviação doméstica na região. “Sempre que ocorre uma fusão desse porte, o impacto é inevitável. No curto prazo, pode haver ajustes pontuais, mas, no longo prazo, os preços sobem e as opções de voos diminuem”, alerta Augusto Cesar Barreto Rocha, doutor em Engenharia de Transportes.

No Congresso, parlamentares discutem alternativas para estimular a concorrência no setor. Dois Projetos de Lei em tramitação na Câmara dos Deputados buscam permitir que empresas estrangeiras operem voos domésticos no Brasil. A proposta visa evitar um monopólio disfarçado e garantir mais opções aos passageiros.

O CADE agora tem a missão de avaliar se a fusão trará benefícios ou prejuízos ao consumidor e ao mercado de aviação no Brasil. A decisão pode redefinir o cenário da aviação nacional, principalmente em regiões mais isoladas.