
Quando Renato Kido, fundador da ViagensPromo, reapareceu em entrevista após meses de ausência pública, o setor de turismo reagiu com indignação. Para agentes de viagens e fornecedores, o choque já era esperado. Mas para os ex-colaboradores da empresa, a fala do empresário tocou em uma ferida ainda mais dolorosa. Em toda a entrevista, estes personagens são ignorados da narrativa, tanto pelo entrevistado, quanto pelo entrevistador. É somente em um momento em que aparece um lapso de lembrança destes elementos tão relevantes para história.
Ao alegar que foi “mal assessorado” e que teve uma equipe que não correspondeu, nas falas de seu advogado, Kido não apenas se eximiu de responsabilidade: ele desferiu um golpe simbólico em quem trabalhou até o último minuto acreditando em sua liderança.
Se ele é a pessoa mais inteligente do mercado no país inteiro, como pode jogar a culpa nos colaboradores?
“Se ele é a pessoa mais inteligente do mercado no país inteiro, como pode jogar a culpa nos colaboradores que bateram metas altíssimas e trabalharam até sem receber?”, questiona o advogado trabalhista Ricardo Tavares dos Reis, da Ortega e Reis Sociedade de Advogados, que representa cerca de 20 ex-funcionários em processos trabalhistas contra a operadora.
O bônus que nunca chegou
Entre as promessas que ficaram pelo caminho está o famoso “bônus” prometido na época de Black Friday, anunciado em novembro de 2024. A meta era ousada: R$ 70 milhões em vendas. Contra todas as dificuldades, a equipe alcançou.
“Eles venderam muito, se dedicaram de forma quase sobre-humana, mas o bônus nunca veio. Apenas uma parte irrisória foi paga, cerca de 1/3. O restante foi prometido em parcelas que nunca chegaram”, relata o advogado. Esse valor deveria ser pago ‘a vista’ e assim que a meta fosse batida.
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Para os colaboradores, aquele esforço parecia o último suspiro antes da virada. “Era a esperança de um aporte, de um fundo que iria entrar. Eles acreditaram e trabalharam dobrado. Mas a realidade foi outra: ficaram sem o bônus e, pouco depois, sem salário.”
Pressão, manipulação e coação
Não era apenas a cobrança por metas que desgastava os trabalhadores. Havia também um clima de ameaça velada.
“Kido dizia que, se alguém buscasse emprego em outra empresa, ele faria de tudo para atrapalhar. Alegava conhecer todo o mercado e prometia fechar portas. Era uma forma de manter as pessoas presas à promessa de uma recuperação que nunca existiu”, relata Ricardo.
Mesmo diante de atrasos salariais, muitos seguiram firmes, convencidos de que “dias melhores viriam”. Mensagens enviadas pelo próprio Kido pouco antes do colapso confirmam essa narrativa: agradecimentos pela dedicação, garantias de que aportes financeiros estavam a caminho, e uma promessa repetida de que “a mesa viraria”.
Quando a vida pessoal entrou na conta
Com salários atrasados, bônus não pagos e nenhuma perspectiva, alguns colaboradores foram além do limite. Cartões de crédito pessoais foram usados para pagar fornecedores e embarques de passageiros. Em outros casos, bens domésticos precisaram ser vendidos para garantir aluguel e alimentação.
“Teve gente que vendeu televisão de casa para sustentar a família. Outros relatos apontam que chegaram a acumular mais de R$ 100 mil em dívidas pessoais tentando salvar embarques da operadora, em cartões pessoais”, lamenta o advogado.
O drama não parou aí. Muitos tiveram o plano de saúde cortado por falta de repasse da empresa, mesmo com descontos feitos em folha. “Um colaborador levou o bebê ao hospital e não foi atendido. O convênio estava suspenso. É o tipo de situação que a Justiça já reconheceu como dano moral”, relata Ricardo.
Justiça como último recurso
Apesar das dificuldades financeiras da empresa, os processos trabalhistas têm avançado. Segundo Ricardo, cerca de 70% das ações defendidas pelo escritório de Ricardo já tiveram sentenças favoráveis em poucos meses, muitas incluindo indenizações por danos morais.
Agora, as ações estão na fase de liquidação de cálculos e execução. “É quando passamos a cobrar efetivamente. Se não pagarem, buscamos bloqueio de contas e bens. Até agora, quase nada foi encontrado, um valor bem ‘irrisório’, mas a luta continua”, explica o advogado.
Ele reforça: trabalhadores têm prioridade legal em casos de falência ou recuperação judicial. “A lei reconhece que foi a força de trabalho deles que sustentou a operação”. Questionado sobre o pagamento via chargebacks para as agencias (citado por Kido em sua entrevista recente) em detrimento dos colaboradores, Reis reforçou que em tese, os pagamentos dos colaboradores deveriam ter sido resolvidos primeiro.
Recuperação judicial: saída possível?
Para Ricardo, a recuperação judicial poderia ser uma alternativa. “Colocaria todos os credores no mesmo patamar e daria uma chance real de negociação. Hoje, o que vemos são promessas vagas e discursos que não se sustentam”.
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Ele lembra que até agora não houve nenhuma explicação clara sobre as causas da quebra. “Nem ex-diretores sabiam o que estava acontecendo. Todos eram informados de que o fundo resolveria. A verdade é que, até hoje, ninguém entende como uma empresa que crescia tanto chegou a esse ponto. E nunca foi explicado isso, à ninguém e a lugar nenhum”.
A importância de buscar justiça!
Muitos ex-funcionários ainda hesitam em entrar na Justiça, seja por medo de exposição ou por já estarem recolocados no mercado. Ricardo é categórico: “Ainda dá tempo de buscar seus direitos. Quem entra antes garante o crédito antes. Mesmo que não receba tudo, há a sensação de justiça. Pior é deixar para trás e nunca ver um centavo“.
Ele encerra com uma reflexão que ecoa entre seus clientes: “A ViagensPromo não cresceu sozinha. Cresceu com a dedicação diária de colaboradores que bateram metas, venderam sonhos e acreditaram até o fim. Reduzir tudo isso a um ‘fui mal assessorado’ é mais uma injustiça que precisa ser reparada”, finalizou.







